O regresso do CVidal (com Richter e as razões do Obéissance Est Morte) e outros dois textos espantosos sobre o excesso e a falta de fantasia.

building-on-fire-during-t-007“Quem nos tira o excesso, tira-nos a parte vital, o coração do ‘humano’. Precisamente essa parte que nos faz desejar avidamente o dia de hoje. E ainda mais o de amanhã. A magia da vida está precisamente em tudo quanto a cultura humana cria de excessivo, de transgressor, de novo, de único, numa palavra, de vivo: na poesia, na literatura, na arquitectura, na música, na pintura, no cinema, no erotismo. (…) Por isso são tão desesperantes os debates parlamentares. O Parlamento é hoje o lugar do marasmo por excelência. O lugar dos falsos conflitos, da apatia perante o existente, perante tudo aquilo que é estrutural no momento histórico presente. Dezenas de mentes brilhantes que jamais tocam o essencial, o vital, eis o nosso Parlamento, eis o espectáculo democrático. Afinal, qual destas mentes ousa questionar o modelo vigente da sociedade de consumo, o dogma do crescimento infinito, a legitimidade do trabalho assalariado, a lógica meramente gestionária que subjaz hoje ao exercício dos poderes democráticos?”

Excerto de ‘Elogio do excesso (I): “o singular esplendor do poder em chamas”’, do PDuarte

ab5“Ao iniciarmos este espaço L’Obéissance est Morte a 18 de Outubro, assinalámos o dia em que os militantes Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe (a que juntaremos os ferimentos infligidos em Irmgard Möller nesse mesmo dia) foram assassinados pelo estado alemão na prisão de “máxima segurança” de Stammheim (Baader e Raspe assassinados a tiro, sendo a versão oficial “suicídio colectivo” – numa prisão de “máxima segurança, como sabemos, os prisioneiros andam sempre armados!), recordando ainda que em Maio desse ano de 1976 o mesmo tinha sucedido a Ulrike Meinhof, militante, jornalista e escritora. Note-se ainda que todos eles foram julgados e acusados por juízes com passado nazi julgo que assumido. Como se disse no post de apresentação, a resistência ao fascismo económico não é pacífica nem violenta, é a do momento e é essa adesão ao momento que faz o “militante”. De um lado, o militante, os militantes, o momento, do outro lado o estado, a sua versão do mundo, ainda a acrescentar a memória, a história e a indecidibilidade que é uma das regras da vida, ou da vida no capitalismo. (…) É óbvio que esta série (esta imagem/acontecimento) poderia prolongar-se indefinidamente. E chegamos a uma conclusão que julgo importante: ao negar a faculdade da representação pelo equivalente iconográfico (o corpo jacente), Richter nega a representação, a objectividade, quer pictórica quer fotográfica e ao mesmo tempo faz-nos questionar e negar (politicamente) a versão oficial das mortes de Andreas Baader, Raspe e Gudrun Ensslin. E esta negação, ou melhor, suspeição inicial e definitiva, permite-nos criticar e construir a história, quiçá verdadeira, a do terrorismo de Estado. Para Richter o coveiro é aquele que torna visível. Sepultando estes corpos nas suas telas Richter diz-nos que Andreas Baader e Ulrike Meinhof estão e estarão entre nós. Visíveis. O desfecho não poderia ser outro.”

Excerto de O DIA EM QUE O ESTADO BURGUÊS MATOU SÃO TODOS OS DIAS: 18 OKTOBER 1977, “in memoriam” Andreas Baader, Ensslin, Raspe e Danielle Huillet (digressão com Richter), do CVidal

lorigine-du-monde-courbet“O QSLT reúne na associação de amizade Guatemala-Portugal durante 49 horas ininterruptas e por fim mantém o destino final da manifestação de 26 para São Bento. A situação nacional está descontrolada e o pais desliza no caos. Pacheco Pereira retira-se para a Marmeleira com os contribuidores dos seus blogues e forma uma comuna tipo Kurtz no Apocalypse Now, o poder responde enviando o deputado João Pinho de Almeida do CDS PP para finalmente lhe limpar o Sebo. A TVI tem Marcelo a comentar ininterruptamente. Daniel Oliveira fica finalmente careca. No Porto o presidente da câmara independente autoproclama-se imperador de Portugal ao que José Soeiro responde escrevendo pequenos poemas sobre sonhar abril de novo. Sexta Feira Passos Coelho fala ao pais mas é grandolado por 500 surdos-mudos e decide emigrar para Madrid para tirar a carta de veículos pesados. (…) A manifestação não chega a começar porque é impossível perceber nos seus limites. No início das escadarias a extrema-esquerda decide resolver a questão de quem toma São Bento com uma corrida pelos degraus acima. Nem todos chegam ao fim já que ao segundo degrau já há várias facções à pancada e a vender revistas. No fim perfilam-se três vencedores que correm para dentro do parlamento. Meia hora depois Gil Garcia, Rui Tavares e João Labrincha surgem à varanda brindando Champagne e anunciando a nova liderança tricéfala do pais, mas ninguém lhes liga peva e Catarina Martins mostra as mamas depois de um muito insistente “mostra! Mostra” da parte do corpo de intervenção desmobilizado que bebe copos nas tasquinhas perto da assembleia. No Terreiro do Paço dá-se o único incidente trágico da Revolução quando um grupo de cerca de 100 pessoas que começa a cantar o “grandôla vila morena” sem parar durante 4 horas e atinge um estado tal de galvanização emocional que se atira ao rio. João Camargo escreve um livro onde inocentemente refere a centralidade do MOB no meio de todo este processo. O Bloco de Esquerda acaba numa grande jantarada no H3 do Saldanha Residence. O PCP reúne os seus militantes nas carrinhas, regressa à Quinta da Atalaia e funda a RPA, República Popular do Alentejo, anexando de imediato o Algarve, encontrando uma criança loira inglesa na casa de férias do casal Passos Coelho.”

Excerto de A Revolução de 19-26 de Outubro de 2013, do Tiago F. Duarte

Três aperitivos justificativos sobre a necessidade que havia de um espaço de reflexão crítica sem limites hediondos. Há quem prefira vindimar sem antagonismo. Estes não.

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2 respostas a O regresso do CVidal (com Richter e as razões do Obéissance Est Morte) e outros dois textos espantosos sobre o excesso e a falta de fantasia.

  1. kur diz:

    Eia,pá. Uma gaja barbuda-deve ser um retrato da Antiguidade 🙂

  2. De diz:

    Ler Carlos Vidal exige tempo e espaço.
    Tanto mais que é um Vidal em excelente forma que regressa, convocando desde logo Robespierre para o debate necessário e vertical..Como o próprio revolucionário.

    Depois?
    Depois é Gramsci e Richter e Ulrike Meinhof e Andreas Baadere e a escrita vertiginosa de quem não sabe outro modo de estar que ser.

    Um espaço a seguir

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