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Bloco de Esquerda: reorganizar a iniciativa partidária anticapitalista

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O Bloco de Esquerda é no panorama político nacional a única força partidária de esquerda que assume uma natureza claramente anticapitalista, e que ao mesmo tempo rejeita com igual veemência – do ponto de vista programático – a herança histórica da degenerescência dos processos de construção dos chamados regimes “socialistas”.

Havendo muita discussão e muita diferença, não há no Bloco quem deixe de criticar desassombradamente e com clareza os regimes Chinês, Norte Coreano, Angolano ou até Cubano, por razões históricas de alinhamento político-ideológico.

Essa é para mim, no plano das ideias, a principal novidade deste movimento/partido: a libertação do lastro de conivência com o tremendo rol de crimes e injustiças em que a tentativa de construir sociedades alternativas ao capitalismo quase sempre se transformou, igualando-se assim ao pior que aquele sistema representou e representa.

Essa coragem, a de denunciar as injustiças de onde quer que elas venham (como dizia Che Guevara a propósito do que entendia ser a principal característica de um revolucionário), é uma condição essencial de “arejamento ideológico” para a construção de uma verdadeira alternativa moderna ao sistema capitalista. E dos partidos de esquerda anticapitalista com representação eleitoral, só o Bloco de Esquerda a cumpre.

O BE surgiu e implantou-se na sociedade portuguesa somando à importante novidade do seu posicionamento político à esquerda (referido acima), a originalidade de incorporar na luta política do campo anticapitalista o que os comentadores de serviço chamaram de “causas fraturantes”. Em particular, para além de um novo vigor emprestado à luta pelos direitos das mulheres (defendendo designadamente a discriminação positiva pela adoção de cotas) e pela despenalização da IVG, o Bloco assumiu também desde muito cedo, e sem quaisquer preconceitos, a luta contra a descriminação em função da orientação sexual, incorporando claramente no seu rol programático de reivindicações o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esta nova postura à esquerda fez o Bloco crescer, projetou-o em termos mediáticos, e fez sedimentar uma base social de apoio relativamente sofisticada, essencialmente urbana, representada por jovens intelectuais, professores, quadros médios, jornalistas, ativistas sociais, etc.

Ora justamente, no atual período de ofensiva capitalista/neoliberal, depois de alcançados muitos dos desígnios ligados às “causas fraturantes” (em si mesmo importantíssimas vitórias da esquerda), e depois da erosão de um certo efeito de moda, o Bloco confronta-se com uma dificuldade fundamental que a meu ver contribuiu para a importante derrota eleitoral sofrida nas últimas eleições autárquicas. Essa é a contradição entre o discurso político claramente anticapitalista, anti troika, ligado à defesa do estado social e dos direitos básicos fundamentais das pessoas, e a sua base social/eleitoral de apoio.

O problema (ou ao menos parte dele) está em que para organizar a resposta a uma tal ofensiva é necessário um instrumento partidário muitíssimo mais enraizado na sociedade, é necessário um aparelho, células ou núcleos de base nos partidos, funcionários, ligação e implantação geográfica (pelo menos nos grandes centros urbanos), ligação – ou ao menos capacidade de comunicação recorrente e de muito maior proximidade – com diferentes grupos socioprofissionais (professores, estudantes, trabalhadores da função pública, etc.).

Em vez disso o BE tem uma implantação importante (sociologicamente enraizada e muito longe de desaparecer), mas caracterizada por uma certa difusidade nos meios intelectuais e urbanos, como alguma ligação a sectores do mundo do trabalho, mas muito longe de uma influência sindical significativa. Conta com um conjunto de excelentes quadros e ativistas (a começar pelos atuais dirigentes), mas com uma atividade necessariamente centrada no trabalho parlamentar, sem capacidade para desmultiplicar o seu contributo (frequentemente de grande qualidade) ao nível do trabalho de maior proximidade, mais diretamente ligado às pessoas e às lutas de cariz sindical, associativo ou outras, do seu dia-a-dia.

Defendo portanto que uma tarefa urgente do campo da esquerda anticapitalista, ligada à necessidade de reorganizar e relançar a iniciativa no âmbito partidário, passa pelo desafio de recuperar um certo sentido Leninista de organização partidária. A enorme dificuldade que isso comporta não está só relacionada com a óbvia constatação de que não basta decretá-lo para que esse desígnio se cumpra, mas fundamentalmente com o desafio de recuperar uma disciplina e modo de organização que tome como prioridade a implantação do partido junto das pessoas, sem incorrer nos mesmos erros de fundamentalismo intolerante e sectarismo burocratizado que historicamente se conhecem.

A principal razão pela qual considero uma tal reorganização prioritária para o campo da esquerda anticapitalista, tem no entanto menos que ver com tacticismo partidário e mais com a urgência política do tempo corrente: penso que uma verdadeira unidade à esquerda, candidata ao exercício do poder governativo em Portugal com um programa frentista – mínimo denominador comum da defesa do estado social – só é possível, se for o Bloco a propô-la. Nem o PS nem o PCP, por diferentes razões históricas e de conjuntura, verdadeiramente a desejam (mas sobre isso escreverei noutra oportunidade).

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