Na manif, apesar de

Considero a desmarcação  da manifestação a pé na Ponte 25 de Abril, e sua substituição por uma concentração e desfile de autocarros, um grave erro político e de liderança por parte da direcção da CGTP-IN.

Mais do que por questões de marketing político e mediático, ou pelas expectativas de impacto reivindicativo que a sua manutenção justificaria (ambas, coisas que nada têm de irrelevante), considero um grave erro por um conjunto de razões ainda mais importantes.

A principal tem a ver com o facto de a proibição da marcha a pé ferir um dos mais importantes direitos fundamentais de carácter político (o direito de manifestação) e ser claramente ilegal, à luz da lei que o regula e dos princípios da Constituição. E de qualquer submissão a arbitrariedades governativas, num campo como esse, enfraquecer as condições de luta futuras e, mais importante do que isso, o próprio direito fundamental que é violado.

A direcção da CGTP-IN é por vezes apontada, à esquerda, como demasiado legalista e cuidadosa na sua actuação.

Neste caso, foi ilegalista e subserviente, ao acatar uma proibição ela própria ilegal, que fere um direito fundamental e a forma como ele é protegido por lei.

Com isso, não só se submeteu ao que não deveria (politicamente e face ao direito constitucional de resistência, que considero um seu dever em casos de atropelos aos direitos fundamentais dos cidadãos e dos trabalhadores), como criou um perigoso precedente de proibicionismo ilegal, que enfraquece o direito de manifestação e os direitos fundamentais em geral.

Face ao abuso governativo de uma proibição ilegal, a direcção da CGTP-IN poderia tê-lo denunciado como tal e manter o protesto sob a forma que o convocara (assumindo tanto os riscos que tal comportaria como os benefícios dessa tomada de posição, para além de assumir a legitimidade do confronto, se necessário, em questões fundamentais) ou, num registo legalista, podia ter movido uma providência cautelar contra a proibição. Dada a evidente ilegalidade desya última, dificilmente uma tal acção legal seria recusada por qualquer juíz na posse das mais elementares capacidades intelectuais, jurídicas e de integridade.

Escolheu, em vez disso, “dar a volta” à inaceitável proibição, através de uma “esperteza” que retira ao governo argumentos para tentar impedir pela força uma protesto. Que já não será o convocado e legítimo, mas um sucedâneo resultante da proibição.

E, com isso, não só se submeteu a um proibição ilegal, ilegítima e politica e socialmente perigosa, como a legitimou.

Acessoriamente, tudo se torna mais grave pelo facto de vir na sequência de um justificado braço-de-ferro, que a direcção de CGTP-IN perdeu por desistência.

E pela esperada tentação de considerar o resultado uma vitória da esperteza, em vez de uma derrota e capitulação – mais do que quanto à “caturrice” de fazer uma manifestação onde se quer, quanto a um direito fundamental.

Tratou-se, por essas razões, de um grave erro, contra o qual não posso deixar de me expressar.

Um erro que se mantém como tal, mesmo que a manifestação de hoje venha a ser, conforme espero, um grande sucesso.

 

Não obstante, a situação do país, dos cidadãos e dos trabalhadores é demasiado inaceitável e insuportável para que esse grave erro me impeça, enquanto cidadão e trabalhador, de engrossar um protesto que considero justo nos seus objectivos e necessário.

Estarei, por isso, em Alcântara.

Para combater a “austeridade”, a precarização, o roubo de um povo, uma política governativa de calamidade social.

Mas também para protestar contra um ilegal atentado governativo aos direitos fundamentais.

E, claro, contra o seu capitulacionista acatamento, por parte de quem tem obrigação (representativa e histórica) de não o fazer.

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22 respostas a Na manif, apesar de

  1. Huy diz:

    Axo, que se deveria aprender com as ‘revoluções’ coloridas e, com os gajos da Otpor para mudar por um governo democrático verdadeiro (soviético)!
    O resto é empurrar para a frente,o problema…..Mais dia ,menos dia temos q confrontar o poder banqstário e,met^-los na choça,or whatelse

  2. João. diz:

    “Neste caso, foi ilegalista e subserviente, ao acatar uma proibição ela própria ilegal, que fere um direito fundamental e a forma como ele é protegido por lei.”

    E tu? O que fizeste? Estás a escrever da prisão? Ou também és subserviente?

    • Argala diz:

      “E tu? O que fizeste?”

      Bem, fez um texto que expressa que está correcta. Já fez qualquer coisa. Já tu não fizeste nada, a não ser justificar uma opção política cobarde.

      • proletkult diz:

        Justificou? O que vejo é o normal raciocício dos ratos reformistas. Mais uma posta ou duas e lá vem mais uma citação do “Esquerdismo” do Lenine, acompanhada dos mimos do costume.

    • João. diz:

      Vocês, Argala e Proletkult, são inimigos da CGTP portanto não é preciso chamar Lenin para nada mas simplemente dizer que a CGTP tem a fazer do que andar a reboque de um suposto radicalismo que vem de inimigos seus.

      A CGTP é uma organização de sindicatos de trabalhadores que ao mesmo tempo toma posições de política geral – a CGTP não é uma organização de tolos nem uma organização cuja única representatividade são panfletos – qualquer idiota escreve panfletos.

  3. José António Jardim diz:

    Mas quem és tu para desconsiderar ou considerar alguma coisa que envolva a Gloriosa CGTP?Porque não vás abrir o espaço aéreo da Siria á Nato?
    Quem és tu?Um novo “educador da classe operária”?
    E se fosses comer caviar para não te mandar comer uma tonelada de trampa?

    • paulogranjo diz:

      Para manter um registo semelhante ao seu (exceptuando na subujice pseudo-coreana relativamente a quem quer que mande numa central sindical a que pertenço e me pertence, como sindicalizado), e se fosse insultar a excelsa senhora que o deu à luz?

      Porque, quanto ao resto, fica claro que não espera argumentos, mas apenas que lhe passe a azia acerca daqueles que leu. Não quer espaço de diáçogo, pelo que não o voltará a ter por aqui.
      Olhe: acenda uma velinha e faça umas rezas. Para cabecinhas como a sua, às vezes isso ajuda.

    • Argala diz:

      “a Gloriosa CGTP”

      Isto têm sido anos de vitórias umas atrás das outras.

      “Porque não vás abrir o espaço aéreo da Siria á Nato?”

      Felizmente as lamentáveis opiniões do autor sobre a Síria não têm influência no conflito, que será ganho brevemente graças à coragem e determinação do Exército Árabe da Síria e da Resistência Nacional Libanesa. O mesmo não se pode dizer das decisões do Arménio Carlos. Essas sim têm influência no quadro da luta de classes.

  4. Kasky diz:

    Percebo-te inteiramente, mas faço uma leitura diferente.

    Questão legal/legitimidade: reconhecerás que a lei é produto relativamente estático de conquistas e recuos dos interesses em jogo, ora legais ora à margem da própria, que é produto de uma correlação de forças, em todas as suas expressões, no momento em que se constituiu. A tua real divergência com a direcção da CGTP é sobre o balanço das forças, hoje. Consideras que nos é favorável, e genericamente concordarei, no entanto a CGTP não terá as mesmas certezas, no minímo quanto ao particular de marchar sobre a 25 de Abril encaixotados pela PSP.

    Conhecendo a composição típica das manifestações, e mesmo admitindo novo sangue, ou talvez por isto mesmo, a susceptibilidade e a capacidade de confrontar qualquer espécie de provocação constitui um risco que, na minha opinião, a CGTP fez muito bem em não correr. Sumamente, não estarão reunidas as condições subjectivas para nos enfrentarmos naquele terreno.

    Mas se assim foi, o erro será outro, porquê ter insistido, ou sequer sugerido, tal terreno de confronto? Eventualmente a decisão teria demasiados impoderáveis (ex. que resposta inicial seria a do governo?) para que os riscos subjacentes negassem à partida a possibilidade. A CGTP começou por arriscar (a meu ver bem), mas não considerou ter condições para levar o risco até ao fim (para nossa infelicidade).

    Esta é a leitura mais madura que me atinge. Imagino na real falta de suposta maturação o impacto negativo que possa daí ter resultado no nosso lado e de quem muito principiantemente se vem juntando à luta.

    Por outro lado, o governo para nos levar a cometer um erro estratégico cometeu por si um também significativamente grave: não pela primeira vez, não que ignorassemos, que é ilegal, anti-constitucional, anti-abril, anti-social, mas de forma bem vísivel demonstrou a sua face fascista num campo sem precedentes, habituados que estão “fabricar o consentimento” (e a falsa dissidência) a emoldurar a opinião pública, desta vez foi mesmo obrigada a simplesmente suprimi-la. Esta é a fraqueza do inimigo que importa explorar até às últimas consequências…

    Recupero a ideia. Mesmo pós facto (os efeitos de uma previdência cautelar como sugeres já expiraram), dever-se-ia pegar no despacho ministerial e encaminhar isso para os tribunais. Seja num sentido de mitigar um qualquer efeito de jurisprudência negativo para a luta, na omissão, seja precisamente de impedir que tal tipo de decisão ilegal e arbitrária em sede ilegitima venha alguma vez no futuro ser usada.

    Saudações resistentes
    Skanevasse

    • Argala diz:

      A questão está mal colocada. A questão não é se havia força para passar por cima da proibição ilegal do governo. Um confronto não se abre apenas, como na lógica de Sun Tzu, com a certeza da vitória na mão. Até porque me parece bastante óbvio que uma manifestação da CGTP-IN não tem capacidade para passar por cima de um cordão policial do corpo de intervenção.

      A questão é o que significa e o que espoleta a própria abertura desse confronto independentemente do seu resultado. Eu estou convencido que a CGTP-IN e os trabalhadores ganhariam em qualquer um dos casos. A ver os cenários:

      1. A PSP não carga sobre os manifestantes e estes conseguem fazer a marcha sobre a ponte. Enorme vitória para a CGTP-IN.

      2, A PSP carga, dispersa a manifestação e as televisões filmam o espetáculo. A CGTP-IN consegue agudizar a situação e cai a máscara ao governo. O governo fica entalado, sem saber como justificar o injustificável. Sairia claramente fragilizado. Era neste cenário que ficaria exposta a fraqueza do inimigo, que assim não foi devidamente explorada.

      Qualquer um destes cenários é claramente melhor do que simplesmente obedecer à decisão ilegal do governo, legitimando-a por omissão.

      Cumprimentos

      • Kasky diz:

        Cenário 1: Claro! Mas seria contar com o erro do adversário. (má estratégia)
        Cenário 2: Claro! Mas incompleta. Na trapalhada, os incautos que legitimamente consideram o espaço de protesto da CGTP seguro e não violento eram traídos e atraídos para uma batalha campal. Não vejo como qualquer vitória perante a opinião publica pudesse justificar tal. Ou acha que os meninos do bastão iriam fazer uma cautelosa triagem antes de partirem cabeças? Não serve como gambito e não seria em exclusivo risco próprio que se tomaria tal decisão. Havia de ser bonito, pensionistas e carrinhos de bebé ensanguentados á semelhança do ocorrido em frente à assembleia no dia da pedrada, desta feita sem pontos para evacuação. E mesmo se tal ocorresse até tenho dúvidas que a comunicação social nos fizesse o serviço.

        Basicamente, o que estou a dizer, é que não podemos pensar só em nós que já passamos daquele limite em que isto poderia resolver-se a bem, e já estaremos por tudo. Reconhecerás que nem todos chegamos a esse nível de maturação.

        A fraqueza foi explorada na medida do possível. Fez-se a manifestação na mesma, e ao governo descerrou-se mais um pouco da fronha. Nada mau!

      • João. diz:

        Acho incrível que estes gajos queiram colocar reformados, mulheres e crianças a enfrentar a polícia na ponte sem sequer terem eles dado o exemplo. Como é que correu o bloqueio do Porto de Lisboa? Passaram o cordão polícial ou ficaram parados a olhar?

      • JgMenos diz:

        ‘espoletas’ que é uma delícia!
        Espero saber-te amanhã a espoletar em qualquer lado em vez de dizeres asneiras…

      • chukcha diz:

        “(…) carga, dispersa a manifestação e as televisões filmam o espetáculo. A CGTP-IN consegue agudizar a situação e cai a máscara ao governo (..).” … e em seguida o/a filho/a do Argala,o meu, ou outro qualquer fica paraplergico! E deixam de haver crianças/cidadãos não partisan-revolucionário em manifestações nas próximas 2 décadas!!!

        “Qualquer um destes cenários é claramente melhor do que simplesmente obedecer à decisão ilegal do governo, legitimando-a por omissão.”

        pois…

      • Argala diz:

        A vossa chantagem moral é demasiado rasteira, porca e suja.
        Quem é que sugeriu meter crianças e idosos à frente da polícia? Ou a CGTP-IN seria estúpida ao ponto de não acautelar essa situação?

        Nas próximas duas décadas poderás nem ter crianças, nem idosos em manifestações.. porque haverão pareceres técnicos de segurança. E esse foi o precedente que passou, sem luta.

        Cumprimentos

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      O problema está em que a esquerda – PCP, CGTP, BE… – não tem dentes, nem quer tê-los. Na rua são obedientes ao poder instalado, nos processos eleitorais estão divididos por sectarismos e ódios trogloditas. A esquerda comporta-se como se fossem sunitas, xitas, alawitas, ismaelitas, mais apostados em fazer mal uns aos outros do que em derrotar o adversário comum. A esquerda trocou os valores comuns por cartilhas exclusivas mais ou menos imbecis, substituiu a reflexão pela sujeição a reflexos condicionados alimentados pelos seus respectivos condotieri, cada um a querer ser o comandante único de um qualquer assalto a um qualquer Palácio de Inverno… Se o atraso mental fosse condição suficiente para ser bem sucedido, há muito que a esquerda teria conquistado o poder…

  5. Argala diz:

    Trigo limpo, farinha amparo.
    Os trabalhadores saberão superar este bloqueio e encontrar os instrumentos necessários para o combate. Basta para isso que se interroguem: se o governo não cumpre as regras do jogo, porque havemos nós de o fazer?

    Cumprimentos

  6. proletkult diz:

    Havia por lá uma tarja, acho que até identificada como sendo de um sindicato, que apelava ao Cavaco para “cumprir o seu dever de fazer cumprir a constituição”. Enfim…

  7. jphnas diz:

    E foi ótimo,
    pá, foi bom assim
    pa de mais … ❤

  8. imbondeiro diz:

    Há por aqui imensa gente com uma vontade incontível de partir para a “acção directa”. É só malta altamente corajosa com muito músculo e belo lombo para amortecer violentas e fartas bastonadas e para ser varado por fervente chumbo . A pergunta que eu faço é só uma: Por que esperais? Ide à loja do chinês. Consta que há por lá uns tacos de basebol a modestíssimos preços. Abastecei-vos e convocai uma manifestação só para vós, sem os cobardolas da CGTP (esses frouxos!) onde possais mostrar aos espadaúdos “muchachos” do Corpo de Intervenção que fibra é a vossa. Ou isso é só a velha táctica chico-esperta de mandar umas bocas à multidão a ver quem se chega à frente? E quando alguém tiver a pouco avisada desdita de dar ouvidos aos tão revolucionariamente incendiários quanto inconsequentes cantos de sereia de tal gente, ao olhar para trás, verá esse alguém uma sólida muralha de inquebrantáveis vontades ou enxergará o vazio que ficou da debandada geral? Ou serão estas sonorosas atoardas meros epifenómenos daquilo a que um saudoso Homem – esse sim, senhor de uma lúcida e consequente determinação política e de uma inquebrantável coragem física – chamou de “radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, agora com a refrescante novidade de ser em versão caviar-chic ( ou caviar de tofu-chic para os duplamente “chic”)?

  9. josé sequeira diz:

    Mas como é que a CGTP podia ter uma atitude de desafio a um governo legítimo (não saiu de nenhum golpe de estado) se o PCP amanhã pode vir também a ser governo, após uma prestação eleitoral que lhe permita uma coligação com o PS. Se não for essa a ideia para que é a exigência de eleições antecipadas?

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