O «medo» dos portugueses é uma invenção

Para o movimento dos trabalhadores, poucas coisas há que sejam tão nefastas como a auto-censura, imposta pela ideia de que a discordância pública desmobiliza. Há uma pressão para não se comentar a decisão de recuar da GCTP face ao Governo, porque isso desmobilizaria para o protesto de dia 19, ou seja, porque não seria «táctico».

Faço, pois, uma declaração de intenções: estarei no protesto de dia 19 da CGTP, em Alcântara, e, nesse dia, apoiarei os estivadores, reunidos na Gare Marítima de Alcântara, no fim daquela manifestação. Não tomo decisões individuais face a um protesto colectivo a partir do que entendo ser um erro de a ou de b, creio que chegámos a uma situação em que todos os protestos contra este Governo devem ser apoiados.

Contudo, o recuo da CGTP, que implica a aceitação de que o Governo é senhor da lei e pode aplicá-la como quiser, mostra que o país não tem só um problema de Governo, mas um sério de problema de ausência real de oposição. Este problema não se resolve enquanto as pessoas continuarem a «lamentar-se que os políticos são todos iguais» e não tomarem elas, nas mãos, o destino das suas vidas. Ao fundo do túnel não está o bom senso, mas a miséria do salário mínimo, da reforma mínima, da emigração com salário mínimo no país de acolhimento, ou o desemprego – é isto, e mais nada, o que este regime tem para oferecer.

Portugal vive numa falsa memória: a de que que passámos de um salto da ditadura à democracia representativa. Ora, a verdade é outra: entre um regime e outro, em 1974 e 1975, houve outra democracia e ela pressupôs uma militância diária nos locais de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos bairros. Se a democracia representativa é a delegação de poderes nos outros, há outra democracia: a que se exerce directamente através de estruturas de base eleitas.

Mas este problema resulta do hábito, tão bem descrito no livro Discurso Sobre A Servidão Voluntária, e é «um veneno que tomamos voluntariamente». Habituámo-nos a ter uma vida razoável com um regime político em que não participávamos senão delegando poderes de 4 em 4 anos.

Somos, porém, uma sociedade de militantes: nas associações de caridade (com intensa recolha de fundos), nas praxes (com organização igual à partidária e sindical, núcleos de praxe, um dirigente praxista por sala de aula, etc.), nos escuteiros (que se reúnem semanalmente), nas organizações de defesa dos animais (para a qual os militantes, ditos activistas, pagam quotas). Contudo, apesar disso, abdicámos de militar nos espaços que decidem realmente a política das relações laborais, ou seja, a nossa vida toda. Militar dá trabalho, exige organização, paciência, tempo de dedicação, saber ouvir, dialogar, enfrentar e conjugar esforços com os outros. Implica ir a plenários, reunir-se, estar a aberto a assumir erros, aceitar que a nossa opinião nem sempre vence, lutar com ousadia pelas nossas ideias. Militar implica encontrar equilíbrios, comunidades. A alternativa a isto é o que temos, que é o mesmo que dizer: não haver alternativa.

A organização sindical e política é único calcanhar de Aquiles do movimento social em Portugal. Nada tem a ver com medo, como se tornou senso comum afirmar. Em tempos, também acreditei na tese do medo, mas hoje ela não faz sentido, é disseminada porque atribui à «natureza humana» aquilo que é um problema político. Não há nenhum dado histórico que permita concluir que estamos perante um problema de relação libidinosa dos portugueses com o sofrimento, que teriam um prazer especial com o sofrimento, plasmado numa falta de coragem inata, um «medo de existir» – logo um dos povos da Europa que mais guerras civis e revoluções fez nos últimos 200 anos! Nem estamos perante uma natureza de «brandos costumes», como Salazar argumentava, porque o que fazia os «brandos» era o «costume» brutal da polícia política. Os homens são feitos na história, por isso são feitos de escolhas sociais, não de «natureza».

Nos últimos três anos, greves gerais e manifestações gigantescas demonstraram que a média dos portugueses acha realmente intolerável, por exemplo, não haver um Serviço Nacional de Saúde; acredita na educação pública; acredita no justo valor das reformas e pensões. Mas a debilidade organizativa sindical e política parece-me óbvia.

Reconhecê-lo e começar o debate não resolve a situação, mas é essencial para começar a pensar em soluções. É essencial participar do que resta de movimento no Movimento Social. Dia 19 e 26 de Outubro, com os estivadores, os enfermeiros, com os trabalhadores do metro ou os professores!

Artigo de opinião publicado na Revista Rubra, 18 de Outubro de 2013

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5 respostas a O «medo» dos portugueses é uma invenção

  1. A.Silva diz:

    “Contudo, o recuo da CGTP, que implica a aceitação de que o Governo é senhor da lei ” Raquel esta dedução é básica e infantil ou incidiosa. Estamos a falar de luta de classes, onde nunca há, nem haverá, aceitação de uma classe das leis da outra, pode haver derrotas e vitórias e antes disso, uma avaliação da correlação de forças e agir em acordo.
    Deve ser a estas deduções que se chama doença infantil.

  2. Pimba diz:

    Cara Raquel, por mais que me irrite a capitulaçäo da CGTP, também sei que qualquer outra organizaçäo (ou nem isso) pode organizar uma marcha de protesto na ponte 25 de Abril.
    Porque näo o fazem? O Colectivo Rubra só serve para fazer cartazes?
    Ah, pois, é o velho espírito tuga: chegue-se um primeiro à frente que nós também vamos. Mas ninguém se atreve.
    Tal como no 25 de Abril, depois de 40 anos caladinhos o povo ficou muito corajoso… acoitado atrás do HERÓI NACIONAL Salgueiro Maia. Infelizmente nada mudou.

  3. Victor Nogueira diz:

    Venham mais cinco, apesar de algumas divergências 🙂

  4. José António Vieira Sousa diz:

    Totalmente de ACORDO !

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