O Governo proibiu, os manifestantes não acataram

No dia 7 de Setembro de 1974 um plenário com 2 mil trabalhadores ratifica a decisão de convocar uma manifestação que levaria os metalúrgicos da Lisnave para o centro da cidade de Lisboa, até ao Ministério do Trabalho, na Praça de Londres. Os trabalhadores da Lisnave exigem o saneamento da administração, recusam a lei da greve (que chamam nos comunicados de «lei anti-greve» porque queria proibir as greves de solidariedade e autorizar o lock out) e pedem a adesão de outros trabalhadores da Efacec, CTT, TAP (apenas alguns trabalhadores destas empresas, dispersos, participam).

O PCP distribui a 11 de Setembro um comunicado onde alega que os trabalhadores não agiram livremente, foram levados a posições irreflectidas por «grupelhos», e opõe-se à manifestação por considerar que ela constitui uma «manifestação de hostilidade ao Governo e de desrespeito à ordem democrática»[1]. O PCP estava no Governo, o II, dirigido por Vasco Gonçalves. Mostrava-se então incomodado com o «carácter anti-governo da manifestação». Fátima Patriarca defende que o comunicado não é bem visto na Margueira e que os trabalhadores do PCP, mesmo os que não foram favoráveis à manifestação, não se posicionam contra ela[2] e participam mesmo na manifestação. A investigadora cita ainda testemunhos de operários que rasgam o comunicado do PCP quando o recebem[3].

O Governo, através do Ministério da Administração Interna, ilegaliza a manifestação nesse mesmo dia 11, temendo o alastramento da luta a outras empresas. Pela manhã de dia 12 uma delegação do MFA vai à Margueira para convencer os operários a adiarem a manifestação para um sábado. Em vão. Como lembra Fátima Patriarca, os operários tinham evoluído de uma posição dialogante para uma posição de força, em que as reivindicações não eram discutidas: a manifestação iria ter lugar e seria um acto de força contra o poder. No dia 12 de Setembro, os operários, reunidos no interior do estaleiro, ratificam a manifestação com apenas 25 votos contra. Lá fora, as forças do COPCON cercam, com grande aparato militar, o estaleiro.

O PCP, nas palavras de Miguel Pérez, «sofre um verdadeiro revés político: os trabalhadores de uma das maiores empresas do país, de forte composição operária e com tradições de luta, recusam a sua estratégia política e aplicam uma linha mais radical»

A coordenadora das comissões de trabalhadores, sob proposta da Efacec, decide, em Fevereiro de 1975, fazer uma acção contra os despedimentos. A realização de manobras militares da NATO nos arredores de Lisboa, vista como uma provocação, é o momento escolhido para fazer a manifestação, que fica marcada para o dia 7 de Fevereiro. O Governo decreta a proibição de manifestações entre 7 e 12 de Fevereiro de 1975. A manifestação é convocada pelo MES, PRP, UDP, LUAR, LCI, PCP (m-l) e Base-FUT e junta cerca de 80 000 pessoas. No manifesto apela-se à destruição do capitalismo, sistema em que os despedimentos são considerados inevitáveis, e propõe-se a recusa de fazer horas extraordinárias e a contratação efectiva dos trabalhadores de várias empresas. O PCP lança no dia 4 de Fevereiro um comunicado do Comité Central em que critica o perigo de manobras da NATO no meio de uma grande tensão social, mas mantém a defesa da participação de Portugal nesta aliança militar, nas «actuais condições», e denuncia a manifestação como provocatória[4]. No Governo, junto com o PS, vota a favor da proibição da manifestação.

Mas a comissão inter-empresas reúne força social para organizar a manifestação, desobedecendo ao Governo, contra o PS, o PCP e o MFA. Na manifestação há discursos inflamados contra as políticas defendidas pelo Governo e pelo PCP: a batalha da produção, o serviço cívico estudantil, a Intersindical, acusada de «amarela» e «reformista» (Pérez, 2008: 139). Mas o facto mais importante da manifestação dá-se quando o cordão militar adere às palavras de ordem da manifestação contra a NATO, sob o aplauso entusiástico dos manifestantes.


[1] «Aos Trabalhadores da Lisnave», Comunicado da Célula do PCP da Lisnave, 11 de Setembro de 1974. In SANTOS, Maria de Lurdes et alO 25 de Abril e as Lutas Sociais nas Empresas. 2.º vol. Porto: Afrontamento, 1977, p. 108.

[2] PATRIARCA, Maria de Fátima. «Operários Portugueses na Revolução: a Manifestação dos Operários da Lisnave de 12 de Setembro de 1974». In Análise Social. Lisboa: ICS, Vol XIV, 1978-4, p. 702.

[3]  Idem.

[4] «A Propósito das Manobras da NATO». Comunicado do CC do PCP, 4 de Fevereiro de 1975, In Avante!, Série VII, 6 de Fevereiro de 1974, p. 3.

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13 respostas a O Governo proibiu, os manifestantes não acataram

  1. Fico à espera da ação do MAS para manter a convocatória da manifestação.

    E não posso deixar de notar que um comentário que fiz ao seu texto de 13 de outubro aguarda ainda moderação… Outro posterior já foi aprovado.

    Grato.

    • Raquel Varela diz:

      Estimado, creio que saberá que eu não pertence ao MAS nem convoco manifestações, apoio-as ou não. Cump.

  2. JgMenos diz:

    Isso sim! Eram tempos maravilhosos!
    Mobilidade social intensíssima, muita treta e pouco trabalho.
    A treta dura até hoje, trabalho há cada vez menos e as pequenas-naturezas que´encontraram o caminho do poder aí estão, já em segunda geração, refinada na resiliência e no engano!

  3. proletkult diz:

    Tenho a ideia de que os trabalhadores dos CTT aderiram, em grande número, à manifestação, e a todo o movimento contra essa lei, depois de realizarem um plenário no Pavilhão dos Desportos (julgo até que impulsionado pela UDP).

    Em todo o caso, mais uma (se é que eram necessárias) prova de que o PC nunca quis uma revolução socialista em Portugal e de que a dinâmica revolucionária de massas lhe fugia completamente ao controlo, contrariamente do que disse e diz esse partido. Algo que é também útil contra o revisionismo histórico da direita, que atribui ao PCP um papel, em 74/75, que não é merecido.

  4. Miguel Cabrita diz:

    Hoje o protesto parece não ser mais do que uma especificação dos regimes democráticos. Em democracia há protesto, – ter-se-á de viver com isso, pois os dirigentes políticos que somos habituados a ele que estamos estamos também capazes de o controlar, domesticar, e vilipendiar caso fuja ao nosso controlo.

    É por essa razão que surge a classificação de inórganicas a algumas manifestações que ocorreram nos últimos tempos, elas escapam ao controlo que as elites têm sobre as instituições que tradicionalmente convocam o protesto. O termo foi usado para instilar o medo, para menorizar as reivindicações e até os próprios motivos que chegaram a levar meio milhão de pessoas para a rua.

    A CGTP mostrou que também é um “parceiro” que também dança o jogo democrático, do protesto ritual, contra o protesto de quem não tem mais nada a quem se agarrar, ao o rejeitar e não se associar a ele.
    Poderemos esperar para os próximos anos, com estas lideranças do movimento sindical, e com a real incapacidade organizativa de outros movimentos “revindicativos” carta branca para as elites poderem agir como quizerem.

    Quando uma central sindical obedece a ordens do governo, o que ela está a fazer é a desistir de lutar. É isto que temos, a esquerda traiu aqueles que representa.

  5. Herberto diz:

    Uma manifestação convocada em tempo histórico diferente e numa situação diferente. O governo de Vasco Gonçalves não pode ser equiparado ao de Pedro Passos Coelho.

  6. C Vidal diz:

    E assim se tornou portugal um país ou comunidade socialista…………… Bravo!

  7. Khe Sanh diz:

    Comparar a situação de 1974 com a atual tem pouco cabimento.

    Da minha parte já perdi a conta aos comentários recusados. Até porque nenhum continha termos ofensivos ou provocatórios

    O ultimo recomendava simplesmente para fazer a comparação das condições laborais entre a China/ Bangladesh e Índia.

    No entanto é com espanto que vejo aprovados comentários fazendo a apologia do Salazarismo.

    Estranho!

  8. Pingback: O Governo proibiu, os manifestantes não acataram. No blogue 5dias. | Bloqueio do Porto de Lisboa | 19 OUT

  9. João Nunes diz:

    Concordando no essencial com o texto, não posso deixar de referir que existe exatidão em algumas das datas, pois as mesmas deveriam reortar-se a 1975 e não a 1974? É só uma questão de se escrever a história com a maior exatidão possivel!

  10. Mário J Heleno diz:

    Fico para aqui a meditar com os meus botões se isto de, para encontrarmos um exemplo de desobediência à proibição de uma manifestação, termos de recuar a Fevereiro de 1975 com o PC no governo e Otelo no Copcon, será mobilizador ou desmobilizador para quem intente desobedecer amanhã…

  11. CidSimoes diz:

    Cadê os meus comentários?

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