Políticas que matam

“Olá Paulo Moura,

O Zé Fran­cisco par­tiu. Fale­ceu ontem no Hospital de S. João. Quando a grande reportagem do jor­nal PÚBLICO foi edi­tada, já se encon­trava inter­nado.

Mesmo sendo sev­era­mente pobre e cas­ti­gado por estas políti­cas soci­ais, o Zé son­hava ver o Ivo crescer, a Sara sor­rir com dentes novos e pas­sar já o próximo Natal numa casa digna e decente cedida pela Câmara Munic­i­pal do Porto.

Soube hoje desta triste notí­cia pela boca do seu filho, que me procurou com a avó no posto de atendi­mento do Bairro do Lagarteiro para me dizer “Ó dr. Pinto, o meu pai já saiu do hos­pi­tal, mas agora não podes falar mais com ele. Foi para o Céu. Quando eu for grande e se me por­tar bem, ele volta.”

Peguei neste menino de óculos novos e fomos passear de carro. Ouvir música, lan­char, desen­har, jogar com­puta­dor. Devolvi-o à mãe de olhos enchar­ca­dos às 19h30. Já era noite, tudo estava escuro e triste naquele portão da ilha.

O Zé era muito novo. Mere­cia ter vida e vida em abundân­cia. O sis­tema esmagou-o, não lhe deu opor­tu­nidades nem recursos, não per­mi­tiu que ele real­izasse os seus son­hos, não lhe pro­por­cio­nou as mín­i­mas condições dig­nas de sobre­vivência, não foi justo com as suas reivin­di­cações.

O Zé chorou no hos­pi­tal quando perce­beu que estava a chegar ao fim, sem­anas antes tinha-se revoltado no Gabi­nete do Inquilino Munic­i­pal quando a téc­nica gestora do seu pedido de casa o infor­mou que a chave do novo tecto ainda estava demor­ada. Nesse dia chorou de raiva.

A sua dig­nidade e os seus dire­itos foram ao longo destes anos sendo enter­ra­dos, hoje o seu corpo tam­bém foi para debaixo da terra.

Aquele abraço fraterno,
José António Pinto (Chalana)”

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4 respostas a Políticas que matam

  1. Bolota diz:

    Simplemente soberbo.
    O Problema é saber quantos mais Zé e Ivos por ai e a continuar a calvagada na corrida ao roubo legal, muitos mais existirão.

  2. José Sequeira diz:

    Lúcia
    É lamentável que estes casos existam.
    Como “conservador” entendo que o Estado deve intervir na defesa dos mais vulneráveis. Sou profundamente anti-liberal.
    Apenas algumas pequenas considerações.
    Ainda não encontrei nenhum destes casos, que pululam na imprensa e nas televisões, em que o(s) protagonista(s) não tenham qualquer problema “que os impede de trabalhar”; este foi numa rixa, outros um acidente num pé, outros tendinites; no entanto não são deficientes: deslocam-se, roubam, fumam, bebem álcool, xutam…
    Neste caso, provavelmente por HIV? o protagonista, com casa ou sem casa estaria condenado ao mesmo desfecho.
    Portanto não é lançando dinheiro sobre esta gente que o problema se resolve.
    Nestas coisas sou completamente “soviético”. Estas pessoas devem ser recuperadas em ambiente controlado, visto não terem condições para se governarem e as crianças (os Ivos) retiradas aos pais para serem criados em instituições credíveis e honestas.
    É evidente que estes casos servem optimamente de propaganda contra o governo (atenção, contra o governo que esteja em funções, seja ele qual for), mas são transversais a uma sociedade que não consegue organizar-se.
    Cumprimentos.

  3. Rocha diz:

    Já tinha lido, por acaso. Mas este é um testemunho indispensável para ver como a austeridade mata no Porto. E como atinge os mais pobres e não apenas a “classe média” de que tanto se fala. Rui Rio e Rui Moreira são responsáveis pela morte do Zé Francisco como é também o governo de Passos e Portas e o ministro do CDS Mota Soares. Estas situações tendem a repetir-se enquanto o povo dos bairros estiver dividido entre si (a lutarem entre si por esmolas e migalhas) e numa situação de passividade perante os governantes da burguesia.

    Era necessário dar um outro tipo de resposta aos despejos, era necessário resistir aos despejos e unir bairros inteiros contra os despejos. O que era preciso era virar as regras do jogo ao contrário. Quem manda nos bairros devia ser a população e não a câmara nem o governo. Afinal de contas estamos a falar em atirar as pessoas para debaixo da ponte e contra isso toda a resistência é legítima.

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