“O Maldito Cinismo da Europa”, por Luís Sepúlveda

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Clique na imagem para ouvir a crónica de Luís Sepúlveda, na Cadena Ser, sobre Lampedusa. Para lá do cinismo de se dar a cidadania aos mortos, deportar os sobreviventes e criminalizar os pescadores que prestaram auxílio, a conclusão é que o que se passou na ilha da morte não é uma tragédia. É a consequência criminosa das leis que transformaram a Europa numa fortaleza medieval, onde quem se aproxima sem ser a convite do Rei tem a sua sentença assinada. Os carrascos bem podem agora deixar escorrer lágrimas de crocodilo, – ganha vergonha na cara Durão Barroso! – mas do governo de Itália aos gendarmes de Bruxelas, cada um deles tem as mãos sujas de sangue e a sua assinatura nos óbitos.

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7 respostas a “O Maldito Cinismo da Europa”, por Luís Sepúlveda

  1. manuel diz:

    Ao qu’isto chegou.Vai ser precisa uma III guerra mundial,para os que restarem abrirem os olhos????Que fazer,face aos filhos da puta dos propagandistas dos jornalistas independentes, liberdade de expressão, tudo com aspas?

  2. m. diz:

    “Penso” que não passou nos canais portugueses.

    Os canais estrangeiros não são muito melhores, “penso” eu. Mas ouvi num destes canais internacionais referir que algumas das crianças que morreram vinham com sapatos novos para uma nova vida neste continente a que “pertencemos” (que os pais, obviamente, haviam adquirido como se os seus filhos fossem a uma festa): sabemos lá nós com que esforço.

    Quero acreditar e acredito mesmo que todos os que morreram, agora, já não terão que se preocupar com absolutamente nada deste mundo e estarão junto de quem os souber tratar muito melhor do que nós.

  3. imbondeiro diz:

    É preciso ir mais fundo, caro Renato Teixeira, é preciso ir mais fundo. Houve um pequeno, mas muitíssimo significativo pormenor, que só ao de leve foi mencionado nas compungidas notícias sobre esta inominável tragédia. Com efeito, ao visionarmos ou ao lermos as notícias dos nossos magníficos órgãos de informação, ficamos com a estranha sensação de que os desgraçados migrantes abandonados à sua não menos desgraçada morte teriam um almejado destino – a mirífica Europa do leite e do mel – mas coisa que eles não tiveram, pelo menos a avaliar pelo grosso do material mediático, foi um ponto de partida para a sua trágica e fatal jornada. E é aqui que a hipocrisia das nossas europeias classes bem pensantes atinge o nível de sublime arte. Donde partiram estas mulheres e estes homens com as suas crianças? Da Líbia, meus senhores e minhas senhoras, da Líbia. Da Líbia, esse território que, outrora, já foi um país, mas que, agora, com o prestimoso concurso desta democrática e humanitária Europa, foi transformado num pesadelo com definidas, mas muito porosas, fronteiras. Um pseudo-Estado sem Lei, sem polícia, sem forças armadas, sem Governo ( o Primeiro Ministro líbio foi hoje raptado e mantido refém por um grupo islamita ). A Líbia, mais um Estado falhado e canceroso onde todos os tráficos são possíveis e onde os desgraçados migrantes africanos de pele negra, depois de terem servido de objecto à mais abjecta limpeza étnica, são agora o gado a transumar, com proveitosa acumulação de grossos cabedais por parte de toda a sorte de máfias, de África para a Europa. Mais um Kosovo, desta feita norte-africano, fabricado por essa organização humanitária que é a NATO, organização essa que também engendrou outros dois paraísos para os hodiernos traficantes de escravos – o Afeganistão e o Iraque – e está no bom caminho para fazer aparecer, do nada, um outro: a Síria.
    Bem andaram os ilhéus de Lampedusa ao chamarem Durão Barroso de “assassino!” , porque ele não o é somente por causa desta anunciada tragédia: ele é-o desde aquela famosa cimeira açoriana onde fez as vezes de lacaio dos criminosos de guerra que puseram em movimento esta tenebrosa máquina de produção de destruição, de miséria e de morte. E esse grito de “assassino!” ecoará nos nossos ouvidos e de nós, bem do fundo da nossa consciência, alguma coisa dirá, enquanto continuarmos a deixar-nos governar pelo lixo humano que ora nos governa nesta UE que se decompõe no vazio e na iniquidade.

  4. De diz:

    Só agora escutei esta crónica de Sepúlveda.
    Em completo silêncio como merece.

    Um texto obrigatório.Ouçam-no por favor

    • imbondeiro diz:

      Iremos ouvi-lo, caríssimo De. Iremos ouvi-lo uma e outra e mais uma outra vez. Iremos ouvi-lo até à exaustão, pois estas desgraças continuarão a acontecer umas atrás de outras: ainda agora, tendo a televisão ligada, fiquei a saber, em notícia de última hora, que mais um barco repleto de mulheres, de homens e dos seus filhos, naufragou, hoje, na mesma travessia. Ninguém da dirigente classe política da UE se importa. E, bem vistas as coisas, esse alheamento, abordado pela cínica e desumana lógica do triunfante e omnipotente neoliberalismo, faz todo o sentido: a engrenagem da trucidante máquina de exploração da economia de casino já não precisa de importar a carne de etíopes, de somalis, de afegãos, de iraquianos, de centro-africanos ( e etc. ) para alimentar a sua tão insaciável quão criminosa gula ; agora, ela tem o seu próprio Sul cá dentro para lhe servir de combustível, e nós, os gregos, os irlandeses, os italianos, os espanhóis ( e quem mais se lhes seguir ) teremos a vil condição e executaremos o servil trabalho daqueles outros que o melhor que conseguem é ter como túmulo o fundo do Mediterrâneo.

      • De diz:

        A manipulação sobre o que se passa na Síria é ominosa.
        Fala-se sobre o Nobel da Paz em 2013.No Público é escolhido como melhor comentário esta alarvidade mentirosa digna de um goebbels menor. Até pode ser que quem o escreveu não saiba a verdade, agora que o”jornalista” o ignore…

        “A atribuição do Nobel da Paz à OPAQ é um prémio à paz. Há três meses, Assad nem confirmava nem desmentia se tinha arsenal químico. Depois, a contragosto, lá foi confirmando. Hoje já estão a ser destruídas.”

        O nobel da paz obama tem aqui um(uns) servil(servis) e asqueroso(s) defensor(es)

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