Sobre a parte do país que não tem «potencial» com a fome dos outros.

Acabo de ouvir a ex ministra Ana Jorge na Antena 1 dizer que há crianças com fome e «deficiências de ferro, o que produz baixa capacidade intelectual e estamos a destruir um potencial para o país». Isto é o que acontece quando se fala a linguagem dos carrascos. E se ter crianças com fome fosse um potencial para o país já era bom? Bem sei que não. Com sinceridade tenho simpatia pessoal por Ana Jorge – não como ministra do PS. Mas a fome nas crianças não é um problema para «o país». Ela é a consequência de uma parte do país ter um rendimento muito superior à grande maioria da outra parte do país. Tudo faz parte do país – o potencial de uns é a fome dos outros.

E o escândalo da fome não é que ela destrói «um potencial». É o sofrimento que isso implica, a ignorância, a tristeza, a apatia. É que ninguém pode ser feliz com fome ou a ver fome. O escândalo é que nós não vivemos na idade média, altura em que se morria de fome porque uma praga matava uma colheita e o Homem estava tão dependente da natureza quase como o seu antepassado macaco.

Hoje, tirando o brutal potencial de lucro associado ao agro-negócio e à dívida pública não há nenhuma razão para qualquer criança ter fome.

Sobre as razões da fome escrevi em tempos uma «carta aberta a Isabel Jonet», a quem não comparo, evidentemente, a Ana Jorge, mas onde reflecti sobre as origens do alto preço dos alimentos em Portugal, que aqui replico. É no lucro do agro-negócio (PAC da UE), da dívida pública e nos baixos salários que está a fome das nossas crianças. A fome das nossas crianças, que é talvez a maior vergonha desta parte do país, a que não tem potencial com a fome dos outros.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

3 respostas a Sobre a parte do país que não tem «potencial» com a fome dos outros.

  1. Mário diz:

    “Mas a fome nas crianças não é um problema para «o país». Ela é a consequência de uma parte do país ter um rendimento muito superior à grande maioria da outra parte do país.”

    Eu não sou historiador, mas a D.Raquel é capaz de saber :

    Alguma vez na história da humanidade houve um país onde uma parte (grande ou pequena) da população não passasse fome ?

  2. José Sequeira diz:

    Como os portugueses têm memória curta e a Ana Jorge já não é uma odiada ministra da saúde de um governo com prática política de direita,ninguém se lembra da frase que causou muito frenesim: as crianças comam mais sopa e menos comida de plástico.
    Também não gosto da Isabel Jonet e faço sempre campanha contra aqueles célebres dias em que somos moralmente convidados a engordar os big-merceeiros de Portugal, sendo, ao mesmo tempo, generosos com o iva entregue ao Estado.
    Há muitos anos (quase 40) tentei convencer uma série de produtores da zona Oeste a marimbarem-se nos intermediários (os cancros da cadeia de preços, que não pegam nos produtos com menos de 100% de lucro) e criarem cooperativas de distribuição que, por um lado assegurassem o valor correcto das suas produções e por outro colocassem os produtos a menor custo junto do consumidor. Quem viu o filme Torrebela e se lembra da célebre cena da “comprativa” percebe que a ditadura criou um espírito individualista no seio do povo que levará porventura uma centena de anos a desaparecer. Ninguém se associa a ninguém porque “isto está cheio de vigaristas e gatunos”. Não é por acaso que quase todas as adegas cooperativas estão a falir ou com prazos de pagamento infinitos aos seus membros.

  3. KUR diz:

    Teem sido as politicas de SUCESSO,destes Criminosos ,Cleptocratas, e tutti quanti rapace do psd/cds/ps(claro!-Olhos robalos…)

Os comentários estão fechados.