Uma leitura das autárquicas

Findo o acto eleitoral autárquico e já com os resultados apurados, sou instado a analisar aquelas que foram as derrotas e as vitórias da noite. Devo admitir que, pessoalmente, partia com algum pessimismo em relação a uma possível derrocada expressiva por parte dos partidos do governo, em especial do PSD. O meu cepticismo devia-se não só ao caciquismo local, próprio de uma máquina oleada e devidamente treinada para assegurar um impacto negativo suficientemente aceitável e desprovido de leitura nacional, como ainda à demagogia de candidatos que, apoiando o projecto nacional do governo, demarcavam-se da austeridade. Enganei-me e ainda bem.

(Nota: tendo em conta as diferenças de contexto e natureza entre eleições autárquicas e legislativas, fiz uso dos resultados de 2011 apenas como indicador, ainda que consciente das suas limitações)

As vitórias, as vitórias pírricas e as derrotas

O discurso de Passos Coelho foi claramente o mais expressivo em relação ao revés do seu partido. Uma declaração insalubre, negativa e conformada com o seu insucesso. Afinal de contas ele quer mesmo que as eleições se lixem, sejam elas quais forem. Esquece-se porém, que o sufrágio autárquico já depôs líderes ou fragilizou lideranças. No seu caso, a queda abrupta do número de câmaras laranjas e de votos a nível nacional constituem não só um sintoma da oposição popular à estratégia de austeridade como ainda um desafio para as eleições internas a terem lugar no próximo ano. Basta recordar a caça às bruxas ocorrida no último Conselho Nacional com Paulo Rangel a denunciar o clima de perseguição. Pela proximidade deste com a ala cavaquista do PSD onde se concentram figuras como Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, facilmente nos apercebemos que as facas longas afiam-se e preparam a chegada do provável sucessor após a despedida de Passos Coelho: Rui Rio; o grande obreiro da vitória de Rui Moreira. Aliás, não deixa de ser interessante que as candidaturas das personalidades mais próximos do núcleo do actual primeiro-ministro de que são exemplo Luís Filipe Menezes, Pedro Pinto ou Carlos Abreu Amorim, tenham gozado de um insucesso copioso.

Todavia, o edífico social-democrata sofreu outro grande embate num dos seus bastiões mais fortes. Na verdade, continua a rota de crescente autonomia da região autónoma da Madeira face ao jardinismo. Anteriormente, o presidente do governo regional havia ganho as eleições internas do PSD/Madeira com uma margem curta. Desta vez perdeu 7 das 11 câmaras municipais.

Em relação ao Partido Socialista, a vitória em inúmeras câmaras e a conquista da Associação Nacional de Munícipios Portugueses tendem a esconder uma análise mais pessimista em comparação com o discurso confiante de Seguro. A verdade é que o maior partido da oposição perdeu cerca de 250 000 votos em comparação com 2009 e aumentou apenas 244 397 votos em relação às legislativas de 2011, cedeu em quatro capitais de distrito (Braga, Guarda, Beja e Évora), sem esquecer que o aumento da abstenção numa significativa parte das câmaras que venceu revela uma larga franja da população descontente com inúmeros elementos do sistema político, de onde se destacam os partidos em votação. Em suma, uma considerável parte da população não vislumbra ainda uma alternativa política no PS. Por conseguinte, caso as eleições legislativas tivessem hoje lugar, não atingiria a maioria absoluta. Resta saber o peso dos resultados em Lisboa no futuro da liderança socialista.

Por sua vez, o CDS-PP procurou capitalizar politicamente o aumento de uma para cinco câmaras municipais (Ponte de Lima, Vale Cambra, Albergaria-a-Velha, Santana e Velas) na sua posse. Desta forma, tenta passar a mensagem das diferenças entre si e o partido de governo, visando a sua afirmação como alternativa e não como mero táxi da governabilidade. Aproveitou-se ainda do seu apoio partidário solitário a Rui Moreira para maximizar ainda mais os seus ganhos. Claro está que não quis referir os resultados das suas coligações autárquicas com o PSD e outros pequenos partidos. Muito menos a diminuição de 3,09% para 3,04% de votos nacionais; o que convenhamos, é pouco para um actor político que participa no executivo com vários dos seus membros, sobretudo um vice-primeiro-ministro e obteve 11,71% nas eleições em 2011.

Aquém do esperado ficou o Bloco de Esquerda. Perdeu a sua única câmara municipal, não conseguiu eleger João Semedo como vereador e também registou um recuo no número de deputados municipais. Mesmo tendo em conta que uma análise local pode verificar alguns casos de sucesso, estes resultados devem sempre servir para a reflexão, principalmente se vistos como rota de evolução rumo às legislativas. Necessita entender se a mensagem está a ser correctamente transmitida e sem ruído em relação à sua solução para o problema dívida e da economia. Mas também perceber o destino dos votos descontentes do PS, o motivo que subjaz o eleitorado que se absteve e procurar saber se parte dele pode estar a ser canalizado para a CDU.  Parece-me que teremos uma imagem mais definida em relação ao BE a partir do momento em que definir as suas alianças no futuro. Em relação a 2009 alcançou menos 6% de votação, mas face às legislativas a queda é contabilizada em menos 168 009 votos dos 288923  alcançados em 2011. A simples questão da escolha dos candidatos parece-me uma explicação simplista.

Os grandes vencedores da noite foram claramente os candidatos independentes e a Coligação Democrática Unitária (PCP e PEV). Ambas as forças foram as únicas que contaram aumentos eleitorais- no caso da CDU, aumentou também face a 2011 – e autárquicos face a 2009. Conseguiram o maior número de eleitos para a Câmara Municipal e retiraram concelhos ao PSD e ao PS, sendo que no caso da CDU ainda obteve vitórias surpreendentes como a de Loures, cujo presidente de câmara nos próximos quatro anos será Bernardino Soares. De realçar ainda que em número de eleitos para a Assembleia Municipal, apenas independentes e comunistas aumentaram o seu número.


Algumas anotações finais

Tentando uma leitura nacional do último acto eleitoral autárquico, quero referir alguns sinais que, na minha opinião, devem ser tidos em conta pela esquerda no futuro político do país:

1) A perda de eleitorado por parte do chamado “arco de governação” e o aumento da votação na CDU são dois fenómenos que não escondem a abstenção de quase metade da população. Este facto não deve ser interpretado com algum tipo de moralismo ou paternalismo por parte dos partidos políticos. É simplesmente impossível que 47, 4% dos eleitores sejam cidadãos e cidadãs desinteressados politicamente. A humildade deve imperar na tentativa de auscultação das exigências desta fatia de pessoas que, na sua maioria, são trabalhadores, desempregados, precários e reformados atingidos brutalmente pela austeridade;

2) Quem  ganha com o descrédito do sistema partidário português é sem dúvida a vaga dos candidatos independentes. Muitos deles são falsos independentes que abrangem nas suas listas militantes dos partidos que estiveram anteriormente no exercício de cargos autárquicos. Casos como o de Rui Moreira (Porto) e Marco Almeida (Sintra) são disso exemplo. Por vezes, a necessidade de recursos para os seus projectos políticos torna-os até mais dependentes de outros lóbis que exercem já pressão sobre os partidos. O cenário revela-se mais sombrio se, como pretende Pacheco Pereira, for alguma vez aprovada a possibilidade de candidaturas independentes à Assembleia da República;

3) O governo sai fragilizado. Por seu lado, o PS procura legitimar a sua ascensão para o poder mas os resultados autárquicos e as sondagens não são animadores para quem tanto deseja uma maioria absoluta. Face a este panorama, o resultado para quem procura uma maioria social de esquerda acaba por ser agridoce. A vitória da CDU é acompanhada por uma elevada abstenção e o dobro dos votos nulos e brancos, além de um mau resultado do BE. Espero sinceramente que estes números não reflictam qualquer hesitação ou divisão desnecessárias em relação ao objectivo de combater a Troika e seus apoiantes.

Mais informação:

Mapa autárquico

Resultados autárquicas

Resultados legislativas 2011

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3 respostas a Uma leitura das autárquicas

  1. De diz:

    Uma análise ponderada, pensada, fundamentada que contrasta com outras.Saúda-se o apelo para que se estude mais a fundo o que se passou, sem euforias, sem paternalismos e sem tabus

    Duas notas apenas:
    Uma para falar na abstenção .(Sem negar o referido já por Frederico Aleixo)

    Citemos Pedro Tadeu no DN:
    ” A abstenção foi elevada mas não atingiu os 47,4% apontados pelos dados oficiais. O censos de 2011 indica que havia então 10 milhões e meio de habitantes em Portugal. Não é possível termos nove milhões e meio de eleitores, como os cadernos eleitorais apontam, pois há pelo menos dois milhões de portugueses sem idade para votar (podem confirmar os dados no site Pordata). A abstenção real de domingo variará entre os 39% e os 42% dos que realmente poderiam fazê-lo”

    Por outro lado há que referir também a emigração:
    O secretário de Estado das Comunidades, José Cesário disse em Janeiro deste ano que nos últimos anos terão saído do país 100 mil a 120 mil portugueses por ano.
    Quem sai do país não são (por enquanto) nem os velhos nem as crianças.E quem sai desta forma não o faz provavelmente de forma agradecida à troika e aos seus serventes.

    Uma segunda nota para referir que as ditas listas de cidadãos independentes, sendo de facto na sua maioria constituídas por falsos independentes,não devem ser alvo de apreciações homogéneas e globalizadas, porque de facto têm origens diferentes e contraditórias. Mas o aparecimento de tais listas deve levar ao seu estudo mais aprofundado e sectorial numa tentativa de aproveitar as possíveis e hipotéticas brechas para outras brechas se abrirem.

    • Frederico Aleixo diz:

      Caro De, agradeço desde já as notas que acrescentou. São de real importância para perceber melhor os dados relativos às eleições autárquicas. Já guardei para mim no intuito de aprofundar a reflexão. Em relação aos independentes, concordo consigo. E até conheço bons exemplos de candidaturas. Ainda assim aquelas que normalmente se assumem como mais fortes e financiadas acabam por ser as dos falsos independentes. E também devo dizer que, no que toca a eleições legislativas, a possibilidade de tal ser aplicado faz-me lembrar os notáveis dos governos representativos uninominais e elitistas do século XIX.

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