A greve do leite e um mundo por lembrar

Cada um vive num mundo que pode mas também em parte no mundo que escolhe. A televisão tem um botão para ser desligado, e há livros e bibliotecas. Vim para a Noruega sabendo pouco da sua história e bombardeada com a história de um nazi que matou jovens numa ilha bem como de uma votação esmagadora nos conservadores. Em Portugal sabe-se pouco dos outros países e o senso comum  – visão deformada da realidade – é tão forte aqui como aquele que domina os povos da Europa do norte que estão convencidos que todos fazemos sesta e por isso temos uma grande dívida.

Estive 5 dias na Noruega, conheci militantes que foram na década de 70 nas brigadas de solidariedade contra a ditadura na Nicarágua; conversei com um dos mais importantes filósofos críticos do país que hoje está, com 70 anos, em Voss a educar numa universidade popular artesãos e agricultores de subsistência; folheie um jornal diário nacional chamado Luta de Classes; estive num estaleiro naval onde conversei com trabalhadores romenos que já estiveram na Lisnave; conheci um dos dirigentes do movimentos de solidariedade contra a ditadura chilena; uma dirigente sindical dos professores universitários; soube que na Noruega, quando foi invadida, a direita era minoritária e a esquerda subiu as montanhas geladas – infelizmente só depois de 1941 – para iniciar uma guerrilha de resistência e sabotagem aos alemães; estive com uma professora que dirige um jornal chamado Tolerância contra a perseguição aos imigrantes.

Aprendi que a greve do leite começou no estaleiro naval de Akers em setembro de 1941 quando os alemães retiraram o leite gratuito e os aprendizes reagiram parando a produção. Dois dias depois mais de 50 sectores estavam paralisados e 25 000 trabalhadores do país.

As pessoas maravilhosas que conheço são tão reais como o nazi Breikvik. Podíamos fazer um esforço colectivo para deixar de reduzir os povos à sua dimensão bárbara, e ler para lá das aparências que os media constroem. A «minha» Noruega é tão verdadeira e real como a dos media. As duas existem de facto. Cada um escolhe claro, de que lado quer estar.

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7 respostas a A greve do leite e um mundo por lembrar

  1. PCG diz:

    mas ainda há assim tanta gente a referir Breikvik quando se fala da Noruega, ou a Raquel queria mesmo era partilhar a sua experiência? seja como for, obrigada.

  2. antoniocarlos diz:

    Eu também gostava de poder ir à Noruega para poder escolher de que lado quero estar.

  3. diz:

    Foi preciso ir 5 dias à Noruega para perceber que a Noruega, e restantes países nórdicos, não é apenas o Breikvik, extrema direita e bacalhau?!?!

    Realmente, faz falta desligar a televisão e sair à rua.

  4. Cara Raquel, havia alguma necessidade de ir à Escandinávia ainda “sabendo pouco da sua história e bombardeada com a história de um nazi que matou jovens numa ilha bem como de uma votação esmagadora nos conservadores”? Não chegou, no mínimo, o primeiro acontecimento para lhe desperta um interesse mínimo e genuíno pelo povo norueguês e, consecutivamente, desligares a tal televisão de que fala? Para quem começa por falar em livros e bibliotecas, parece-me estranho.

  5. Rocha diz:

    A mim o que mais me irrita é a vassalagem que aqui, em Portugal, se presta à social-democracia nórdica principalmente por pessoas ditas de esquerda. Mas não nego que essa outra Noruega exista.

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