O Mundo que Podíamos Ter

No tempo em que estas e outras séries, como a Tieta, Miss Marple, Roque Santeiro, foram feitas, os actores eram formados durante anos, às vezes em escolas onde os professores deles tiveram anos de formação, um saber que se transmite de geração em geração, havia guionistas com tempo e cultura e saber histórico para escrever, desenhadores, costureiros, directores, produtores…, tempo, muito tempo de trabalho incorporado, saber, criatividade e, claro, ócio porque quem cria (e claro que todos os outros), precisa de descansar, precisa de tempo livre como de ar. É natural que hoje, com a destruição do trabalho tenhamos que ver séries com actores que não são mais do que perfeitinhos, guiões patéticos, todos cada vez mais jovens  – porque assim são mais baratos porque são mais precários -, séries todas passada no mesmo cenário (assim não há custos de construir cenários ou mudar equipas).
A vida animal deixou de ser feita por biólogos que aguardavam em África, às vezes meses, por aquela «cena que faltava» da perseguição a uma presa por um leão e passou a ser um professor (gratuito) que dá uma entrevista no seu gabinete com uma cabeça de leão a falar sobre a força dos seus dentes; os policiais deixaram de mostrar a Inglaterra e são dentro de um laboratório; os desenhos animados são monstros que urram, longe vai o tempo do Mark Twain para crianças, desenhado com um cuidado encantador; o telejornal deixou de ter reportagem e é um condensado de comentadores que não saem do estúdio. Tudo interrompido ao som estridente do tecno que é um barulho feito em computador que também ele veio substituir a música e os músicos, esses preguiçosos que tão caro nos ficavam…
É verdade que no seu auge o capitalismo foi uma força civilizatória – quando derrubou as fronteiras dos sistemas feudais – mas hoje essa marcha caminha sempre na direcção da miséria, física e cultural, apesar de nunca a humanidade ter produzido tanto. Um dia Peter Laslett, historiador, escreveu o livro O Mundo que Nós Perdemos sobre o que ficou para trás da sociedade inglesa pré-industrial. Deveríamos escrever um livro colectivo sobre o Mundo que Podíamos Ter.

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4 respostas a O Mundo que Podíamos Ter

  1. JgMenos diz:

    Nada como um monopólio, ainda que regulado pelo Estado, para que se possa obter receita para o que quer que se decida gastar.
    A alternativa é a qualidade excepcional, o empenho extraordinário, o esforço que ultrapassa a concorrência e eventualmente a diminui por eliminação dos inabéis.
    São dois mundos. em que o segundo cria mais oportunidades a mais gente.
    E depois sempre temos o subsídio de Estado para que não se perca Beckett e Gil Vicente.

  2. Natália Santos diz:

    Contra este empobrecimento da vida cultural dos países, penso que se não forem as pessoas a empenharem-se individual e colectivamente para subir o nível civilizacional a que têm direito, nada feito. O caminho é só a descer.
    Corremos o risco de ir perdendo, ou ficar fora do nosso alcance, tudo o que foi feito ao longo de milénios para que a humanidade se elevasse. Há tanta coisa mal -jornais, televisões, comentadores.
    Esse empenhamento, esse combate, deve ser diário e deve haver uma denúncia constante das situações que nos “empurram” para baixo.

  3. Herberto diz:

    Mas esse Mundo pode ainda ser transformado.

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