Praxe em Espanha – Universidade, poder local e polícia defendem os Direitos Humanos

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«Polícia controla a Praça Maior [de Salamanca] para evitar degeneração das praxes

Vários grupos foram desalojados por se encontrarem a consumir álcool na rua e a atirar ovos na via pública, mas depois regressaram com melhores intenções. As faculdades denunciam que, por vezes, esta tradição universitária cai em excessos, criando situações de violência e humilhação axs novxs alunxs. Por conseguinte, expulsarão aquelxs que a levarem a cabo. A Universidade recorda a proibição de praxar nas residências e lembra que no início do ano lectivo passado expulsou dois jovens que deixaram outro inconsciente depois de um espancamento numa festa de recepção a caloirxs num bar. O reitor acredita que “tais abusos são contrários ao espírito da Universidade”. SALAMANCA24HORAS oferece-lhe uma extensa galeria de fotos.

Primeiro dia oficial do início do novo ano na universidade, embora algumas faculdades já tenham começado as aulas há uma ou duas semanas atrás, e com estas, chegam as praxes axs alunxs recém-chegadxs. Batas, perucas, fantasias, assobios, cânticos… Assim, durante estes dias começa a ver-se nas ruas de Salamanca, especialmente à tarde, grupos de jovens com uma marca muito característica na testa: um N de novato ou um V de veterano.

A conga, o comboinho, cantar em cima de um banco na Praça Maior, qualquer coisa serve para chamar a atenção e ridicularizar xs mais recentes alunxs durante algumas horas. Uma tradição que se vem desenvolvendo com o tempo e, do passar uma maçã boca-a-boca, é agora a litrosa de calimocho ou cerveja que se passa de mão-em-mão, uma vez que há quem faça beber xs caloirxs se estxs não passarem nos testes. Outros grupos, no entanto, vão mais longe. Há os que obrigam a ir para a fachada da Universidade irritar aqueles que querem encontrar a rã (detalhe arquitectónico muito procurado por turistas), outros mandam as raparigas subir a um ponto alto de uma rua movimentada para explicar como colocar um tampão, alguns são levados a fazer monólogos pornográficos numa praça qualquer e até mesmo a entrar em lojas vestidos de pijama, com um secador de cabelo na mão, e simular um assalto.

No YouTube são várias as amostras de praxes que excedem a mera piada, como aquele em que um veterano golpeia a cara de um novato com um ovo na Praça Maior de Salamanca, um acto que provoca risos de todxs xs presentes, mas em que, em algumas ocasiões, excedendo-se no uso da força e direccionado a determinadas partes da cara, já produziu danos. Há dois anos, um jovem ficou ferido no ouvido com um evento semelhante, ao lhe ser atirado um ovo, e no ano passado dois jovens acabaram por espancar um outro.

Alguns argumentam que esta tradição não se deve perder, porque não são mais do que piadas sem qualquer maldade, mas há sempre alguém que ultrapassa os limites. No entanto, também há quem considere que a praxe se tornou apenas mais um botellón, onde o álcool é a nota predominante, resultando sempre em vandalismo e violência. O debate está lançado. Mas não para a polícia local que, na tarde desta segunda-feira, desalojou vários grupos de universitárixs da Praça Maior porque se encontravam a consumir álcool na rua, algo proibido por decreto municipal, para além de estarem a sujar a praça pública com o lançamento de ovos. Posteriormente estes grupos regressaram com melhores intenções e os agentes limitaram-se a controlar se as praxes não degeneravam em abusos.

Sanções mais duras

O Conselho dos Colégios-Maiores Universitários de Espanha elaborou um manifesto contra a praxe. Com a chegada do novo ano escolar 2013-2014 milhares de jovens estudantes começam uma nova etapa das suas vidas nas faculdades universitárias. Segundo Icai-Icade, muitxs destxs estudantes sofrem com as denominadas “praxes”, definidas como ritos de passagem realizados por diversas organizações para receber xs recém-chegadxs. Ele indica que, tanto no caso dos colégios-maiores como das universidades espanholas, a praxe praticada pelxs estudantes veteranxs caem em excessos gerando situações de violência e humilhação axs novxs universitárixs.

Por isso, o Conselho dos Colégios-Maiores Universitários de Espanha formulou um manifesto contra as praxes, o qual veio a ser subscrito por várias universidades de todo o Estado. O guia, editado como resultado de uma investigação, descreve o fenómeno e deseja assentar as bases de possíveis iniciativas e acções orientadas à sua eliminação total dos vários âmbitos em que se produzem, fazendo especial finca-pé no universitário. Além destas medidas informativas, os colégios-maiores e as universidades estão a implementar outras de carácter formativo, para oferecer alternativas de integração que substituam as praxes e, nos casos em que seja necessário, medidas disciplinares e sanções.

O reitor da Universidade não aprova o que considera serem humilhações

A este respeito, o reitor da Universidade, Daniel Hernández Ruipérez, manifestou esta segunda-feira que “estas humilhações são contrárias ao espírito da Universidade”, daí que não aprove “nenhum acto que atente contra a dignidade dxs universitárixs”. Por seu lado, como já informara Salamanca Universitaria, o director do Serviço de Faculdades, Residências e Cantinas da Universidade de Salamanca, Juan Carlor Hernández, reiterou novamente este ano a proibição de que se realizem praxes nas faculdades e residências oficiais da instituição académica salamantina. Em todo o caso, o habitual é que a normalidade seja a tónica no inicio do ano, nas residências da USAL, na qual não se registam actos deste tipo.

Como já é hábito no início do ano lectivo, Hernández remeteu uma circular a todos os Colégios-Maiores da USAL para recordar esta proibição, uma medida que responde à “convicção pessoal, e de toda e equipa reitoral”, de que não se podem tolerar estas práticas no seio da instituição académica. “Uma coisa é fazer acções ou festas de boas-vindas, e outra são actuações que violam os direitos” dxs estudantes, explica Hernández, que recorda que “todxs xs alunxs” da USAL “têm os mesmos direitos”. “A única tradição válida é o respeito“, insiste.»

[Tradução minha do artigo “La Policía controla la Plaza Mayor para evitar la degeneración de las novatadas” de 23 de Setembro de 2013, no Salamanca 24Horas | Esta tradução foi escrita utilizando o Acordo Queerográfico]

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Sobre João Labrincha

Agora escrevo no Botequim.info em http://botequim.info/author/jl4br1nch4/
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22 respostas a Praxe em Espanha – Universidade, poder local e polícia defendem os Direitos Humanos

  1. um anarco-ciclista diz:

    Cobardes!!!
    Deviam era ter chamado a Super-Varela!!!

    Com duas patadas de karaté
    150 gramas de farinha
    2 ovos
    uma colher de fermento
    raspas de radicalismo
    e um bem audível “vão pó c@ralhe”

    A Raquel tinha feito em bolo a cara dos praxistas… sem necessidade de chamar pla mamã, plo reitor ou pla polícia do estado burguês.

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Eu peço desculpa, mas não há nada mais importante para discutir do que os piropos e as praxes? Dá a impressão que vivemos num país em que tudo o que é importante está a funcionar bem e que só temos, para nos preocuparmos, estas tretas…

  3. um anarco-ciclista diz:

    Nuno… relaxa, pá! a luta de classe dos operários da indútria vidreira e cnsrução naval vem já a seguir

    • Rocha diz:

      Eu é que não conhecia esse teu abraçar das “causas fracturantes” ó ciclista. Espero que isso seja um daqueles devaneios temporários que te dá de vez em quando.

      • um anarco-ciclista diz:

        Sempre fui contra a praxe, Rocha!
        Sempre defendi os direitos dos animais
        E a legalização da canabis
        E o direito ao aborto
        Bem como a paridade.

        Há mais vida para além de chutar classe operária prá veia, pá!

  4. Francisco diz:

    Realmente… não há nada mais importante neste país para falar do que as praxes? Que ressabiados…
    E já agora…
    Mas porque é que este cromo escreve com xx´s??

  5. Barbichoni diz:

    Esse tal acordo queerográfico deve ser das coisas mais estúpidas em que alguém já perdeu tempo.

    • João Labrincha diz:

      Deixa-me adivinhar: identificas-te com o género masculino, a tua etnia é caucasiana / ibérica, tens nacionalidade portuguesa, és burguês e consideras-te heterossexual. Se assim for, faz todo o sentido considerares que é uma perda de tempo, porque pertences à elite opressora. Se não fores, ainda não percebeste que a base de todas as tuas opressões é a opressão de género e que a linguagem é a primeirissima forma de a pôr em prática.

      • Antónimo diz:

        Labrincha, não generalize,
        Eu identifico-me com isso tudo, do género masculino, ao heterossexual, passando pela etnia caucasiana/ibérica e pela nacionalidade portuguesa e pela pertença inevitável e de berço à burguesia, e até acho que a linguagem é base de opressão, mas daí a pertencer a uma qualquer elite repressora vou ali e já venho.

  6. O jogo da maçã não tem nada de mal, e é um jogo feito em animações, colónias de férias, campos de férias.

  7. Rocha diz:

    Elogiar o Estado e a polícia em Espanha é realmente confrangedor num blog de esquerda, mas enfim quando a questão da praxe passa por cima de todas as lutas sociais e de classe dá nisto. Sem querer fazer comparações ofensivas (eu não censuro ninguém por ser anti-praxe mas sim pela importância que se dá à questão), isto faz me lembrar aquela velha história de que os nazis no poder terem sido pioneiros na defesa dos direitos dos animais, enquanto milhões de seres humanos eram chacinados em massa.

    Em Espanha a corrupção é absolutamente escandalosa, o franquismo está arreigado no Estado, nos tribunais e nas polícias (até as insígnias da polícia têm símbolos fascistas), as burlas da banca têm a máxima impunidade, os empreiteiros pagam a políticos (e tudo isto é de conhecimento público), o desemprego, a pobreza, a repressão brutal de greves e manifestações, a recusa do Estado em negociar a paz e terminar o conflicto armado no País Basco, o desemprego acima dos 30% um pouco por todo o seu território, a escravatura do trabalho temporário, a arbitrariedade das leis laborais que permitem aos patrões diminuir o salário do trabalhador a meio do contrato, a facilidade com que despede invocando qualquer diminuição dos lucros, a tortura generalizada em esquadras da polícia (inclusive de detidos na última greve geral), a fome que chegou ao ponto das pessoas tomarem de assalto supermercados, a miséria dos bairros guetos, as cidades fantasmas criadas pelos empreiteiros, os despejos massivos que não param, a escravatura de imigrantes no campo… tudo isto e muito mais acontece num país em que a austeridade mata, a polícia tortura e o Estado assassina. Esse país é Espanha.

    Mas claro, agora que a universidade, o poder local e a polícia vão controlar os perigosos praxistas já podemos ver que bem que se está em Espanha, que exemplo a seguir. Que viva Espanha!

  8. O “Ó da guarda!” esta a virar moda. Não te parece, no mínimo, uma simplificação pouco capaz de resolver o problema?

  9. Herberto diz:

    Caro João Labrincha, este comentário não é pelo artigo que escreveu que gostei de ler, mas por alguns comentadores que continuam a usar este meio, como se tivessem sentados dentro de um automóvel, no meio do trânsito, sempre à espera de mostrar a sua irritação crescente, quase prestes a explodir. Creio que os comentadores o fazem, porque este é um meio solitário. Perante os irritados, apenas posso dizer que façam de conta que a pessoa a quem enviam as mensagens estivesse perante de vós e julgo até que, em vez da irritação, haveria um bom espaço para sorrisos e camaradagem. Um abraço sincero.

  10. Pimba diz:

    “Polícia controla a Praça Maior [de Salamanca] para evitar degeneração das praxes”
    Lá está: näo para evitar a praxe em si, mas os abusos. E fez muito bem!

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