Deixem a universidade livre!

Escrevi um texto onde defendia que a praxe é absurda mas não deve ser proibida pelos reitores. A Raquel Freire num texto em debate comigo diz que a minha posição sobre a praxe é neo-liberal porque as pessoas mais frágeis – os alunos que não querem ser praxados – devem ser protegidos.

Eu escrevi que era contra a praxe, que tal assunto devia ser resolvido – invoquei o exemplo dado por um professor – «à porrada», com «defesa e agressões», como grupos militantes anti praxe, como quiserem, quem não quer ser praxado. Tudo menos chamar o reitor a introduzir proibições no espaço universitário porque o espaço universitário deve ser um espaço de liberdade. E porque hoje se proibe a praxe, amanhã proibem-se reuniões políticas, depois de amanhã proibe-se a convocação de manifestações. Tudo o que reforce o poder do Estado do ponto de vista da repressão deve ser por nós recusado. O Estado não pode ser sistematicamente chamado a actuar onde falhámos como comunidade.

Reforçar o poder do Estado na resolução das nossas diferenças – seja ele que Estado for, capitalista, socialista ou outro qualquer – não as resolve, piora-as. A lei do Estado é a lei do mais forte – dos advogados, dos tribunais, das polícias, das prisões – e uma sociedade decente, em progresso, é uma sociedade com harmonia social e com cada vez menos Estado. Uma vez estive numa conferência e uma pessoa do público disse-me que «falar de Estado social deveria ser tautológico, porque não deve haver outro Estado que não o social». É esse o meu ponto de vista. Não podemos chamar o Estado – na sua forma repressiva – para intervir em tudo o que falhámos como comunidade. Porque isso é um remédio pior do que a doença.

A Raquel Freire pergunta o que se faz a uma criança de 12 anos, de 17 e de 18, desprotegida, numa situação de praxe. Pois, o problema é exactamente esse – quem é praxado tem 18 anos, são adultos. Os pais deles e os avós, em plena ditadura, desafiaram o Estado, os reitores do regime de ditadura, muitos arriscaram a vida, a prisão. Estes, hoje, choram quando vêem uma colher de pau, um nabo e um penico, que servilmente colocam na cabeça. Talvez uma das razões seja precisamente por os continuarmos a tratar não como adultos de 18 anos mas como crianças de 12.

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32 respostas a Deixem a universidade livre!

  1. um anarco-ciclista diz:

    Se um dia te assaltarem a casa irás fazer justiça plas próprias mãos ou chamas a polícia?

    • Raquel Varela diz:

      Está a comparar um crime de assalto com a praxe? Diga-me, chama a polícia quantas vezes por dia???

      • um anarco-ciclista diz:

        mas a praxe não se torna num crime quando alun@s são torturados, por vezes (mesmo!) chegando a morrer?

        Como é que a Raquel não se envergonha de chamar “cobardes” às vítimas da praxe?!?

        Como é possível que o epíteto da cobardia seja por si lançado não aos praxistas, mas aos caloiros?!?

        Como é possível, enfim, que a Raquel tenha o desplante de chamar “cobardes” a quem entende que as autoridades académicas devem intervir e proibir a praxe por oposição à sua auto-anunciada, pretensa e heróica oposição à praxe? Mas não há já qualquer sentido de humildade e decência? Isso é que são valores de Esquerda?

        Finalmente: porque não respondeu às duas outras duas questões que lhe coloquei?

        “E se no dia seguinte os teus filhos forem vítimas de bullying chama @ director@ da escola ou vai andar à porrada com o outro puto e respectivos pais?”

        “tendo em conta que o sistema de ensino faz parte do Estado burguês, como é que invoca uma “liberdade da academia” acima das classes? Isso não choca um pouco com o seu marxismo radical?”

        Passou por cima porquÊ? porque não dá jeito? ou porque respostas honestas a estas questões apenas iriam deixar a nu a demagogia da sua verborreia radical?

  2. um anarco-ciclista diz:

    E se no dia seguinte os teus filhos forem vítimas de bullying chamas @ director@ da escola ou vais andar à porrada com o outro puto e respectivos pais?

  3. um anarco-ciclista diz:

    E já agora… manifestações racistas e fachas devem ser autorizadas na universidade a pretexto de ser um espaço de “liberdade”?

    SOBRETUDO… tendo em conta que o sistema de ensino faz parte do Estado burguês, como é que invocas uma “liberdade académica” acima das classes? Isso não choca um pouco com o teu marxismo radical?

    • “manifestações racistas e fachas” jamais! Mas bandeiras de um sanguinário como o Che Guevara ou a estrela da China de Mao, que delapidou 45 milhões de Chineses, certamente que sim. E se acompanhado de uma bicileta, ainda melhor.

      • Herberto diz:

        «…um sanguinário como o Che Guevara»????
        Ó Mário Amorim Lopes, por acaso essa fotografia que vemos ao lado do seu nome não foi retirada de um dos corredores do White House em Washington?

    • Rocha diz:

      Olha como Estado burguês responde às tuas angústias com a praxe (uma notícia dos precários inflexíveis, uma malta que é habitualmente anti-praxe):
      Troika fecha a Universidade de Atenas
      http://www.precariosinflexiveis.org/?p=8146

  4. João Labrincha diz:

    Eu cá quero uma Super-Raquel-Varela em cada universidade a defender a caloirada ao murro e ao pontapé, já que ser o Estado a faze-lo seria a implementação de um instrumento de repressão… 😉

    • Raquel Varela diz:

      Estimado João, deixe o sarcasmo de lado porque eu não me ofereci para nada. Esse papel é seu.
      Eu sou a favor de que quem ter um penico na cabeça deve tê-lo, nós opomo-nos com ideias – fiz muita campanha anti praxe na universidade há muitos anos -, não chamando a polícia.
      Antigamente os cobardes mantinham-se discretos, agora avisam o mundo inteiro que são e colocam-nos a todos sob as botas do Estado
      Cump
      Raquel Varela

  5. JgMenos diz:

    Muito bem!
    Promover que o indivíduo se afirme é uma boa alternativa a este ‘toda a gente faz’, ‘toda a gente pensa’, ‘ toda a gente diz’ que é caminho de escravos!

  6. Hugo Ferro diz:

    Li o outro texto que escreveu sobre a praxe e concordei com tudo. Volto a concordar com este. Só se submete à praxe quem quer. Os praxados, ou lá como se diz, não são crianças nenhumas. Se ali estão é porque querem, porque gostam ou porque ambicionam ser eles a praxar, daqui a um ano ou dois. São assim em tudo e vão ser sempre ao longo da vida. Esta gente não precisa de defesa.

    Durante todo o meu percurso universitário, em Coimbra, nunca nenhum jovem de farda estudantil se atreveu a perguntar-me se queria brincar com ele às praxes. Não foi preciso bater em ninguém, nem sequer argumentar. A forma como sempre olhei para essa escumalha foi e é suficiente para perceberem que é melhor nem se atreverem a dizer olá.

    A luta de classes aprende-se de pequeno. Não é preciso ler autor nenhum. A mim bastou-me ter que comer pão com manteiga enquanto os outros comiam pão com fiambre. Talvez se tivessem de trabalhar para pagar o curso não lhes sobrasse tempo para encher de farinha e gritar que o curso não sei quantos é o melhor.

    Não gosto de comentar no espaço dos outros, sobretudo daqueles que admiro. Só o fiz porque estou farto de coitadinhos, indignados e defensores de gente que não quer ser defendida.

  7. Pingback: Rapidamente sobre a praxe | Sentidos Distintos

  8. Gambino diz:

    Não tenho qualquer objecção à estratégia do murro e do pontapé, antes pelo contrário. Mas convém que tenhas em conta que, se as Universidades passarem a ser uma espécie de batalha campal entre praxistas e anti-praxistas, é mais do que certo que o estado e os reitores vão acabar por intervir.

  9. tatiana diz:

    creio que a raquel varela confunde, não raras vezes, o conceito de protecção dos direitos fundamentais com absolutismo.

    • Mitó diz:

      e um exemplo concreto disso?

      • tatiana diz:

        o estado deve ser garante dos direitos fundamentais, não sendo por isso repressor!
        pretende, portanto, um exemplo da violação dos direitos como a segurança e a liberdade tão bem cumprida nas praxes?

  10. Fuas Rouquinho diz:

    Estou a ler bem: „Quem não quer ser praxado“ que se desemerde? O conselho é: tens mais de 18 anos, avinha-te lá, menino e menina, pelos teus próprios meios com o energúmeno ou grupo de bandoleiros que te quer ofender e humilhar! Nada de Estado democrático, polícia legitimada, direitos civis, na Universidade reina a lei do mais forte, do mais capaz, do chico-esperto no estado cavernícola. Na fase da praxe domina a lei da selva. A Universidade é para Rambos, Terminators e outros pensadores. Cara Professora, se um aluno mais „fraquinho“ meter no bolso a arma do pai e estourar com o primeiro praxante que lhe puser as mãos em cima, quererá a senhora ser invocada como autora moral do homicídio? Como vai defender um caso de morte na universidade tão livre? Cara professora, tenho por si uma imensa admiração, precisamos de muitas mais mulheres como a senhora, mas neste caso concreto penso que há qualquer curto-circuito no raciocínio.

    • Rocha diz:

      Fodasse pá, já estou a perder a paciência com esta merda! As universidades já são hoje entidades completamente elitistas, quem é o filho ou a filha de operários, de agricultores pobres, de precários de call centers, desempregados, moradores de bairros sociais, empregadas de limpeza, pescadores e tantos outros que têm dinheiro para pagar os valores actuais de propinas e materiais escolares???

      Fodasse pá, badamerda com os pequeno-burgueses, badamerda com os filhos dos ricos que são os únicos que lá conseguem entrar (e os desgraçados que conseguem estar lá com dois empregos e uma bolsa são uma ínfima minoria). O que é preciso é abrir de novo as portas da universidades ao povo para que toda a gente tenha acesso à educação.

      • Fuas Rouquinho diz:

        Foda-se pá, não percas a paciência, pois quando a luta está mais acesa é que precisamos mais de ti. Tens razão, embora não seja este o contexto para colocar a questão, isto é, o problema aqui está deslocado. Ainda sobre a praxe: Os regulamentos internos das universidades deveriam proibir estas ofensas e humilhações, ponto. Quem quiser ser humilhado e maltratado não creio que terá dificuldade em encontrar um carrasco no actual estado de coisas em Portugal. Como padrinho moral pode sempre invocar o sr. dr. Passos Coelho.

    • Ama Silva diz:

      O “praxado” não precisa de se “desemerdar”, basta-lhe não alinhar com os m…as dos praxantes.
      É importante que os jovens saibam dizer não e percebam que “ser diferente” é não alinhar em todas as parvalheiras que os outros nos impingem.
      É fundamental que os jovens pensem pela sua cabeça, façam as suas escolhas e não integrem grupos só “porque sim”..

  11. Álvaro m. diz:

    Desculpe Raquel, mas isso nem parece vindo de si…
    Sendo a Raquel uma pessoa de esquerda, não lhe choca utlizar o argumento típico dos defensores da direita neo-liberal contra a regulação do estado (estado ‘nanny’ ou estado ‘paizinho’ como eles lhe chamam, leia-se ‘lei da selva’)? É que esse argumento pode ser aplicado também às relações laborais, às pensões, ao subsídio de desemprego, à protecção dos mais frágeis (idosos, doentes,…) ou seja, a todo o estado social em geral. Ou seja a ideologia da lei do mais forte e do ‘salve-se quem puder’.

  12. HB diz:

    já viram este excelente filme? http://vimeo.com/52575560

  13. anger not equa diz:

    acho que já me dava por satisfeito por ver respondida a pergunta: o que pretendem que vá a policia fazer sem ser chamada à universidade e ruas das cidades perseguir a praxe? ela é por acaso ilegal?

  14. Ah… porque faz todo o sentido protegê-los como se de crianças de 12 anos se tratassem, em vez de rever os moldes em que representamos, sociedade, a figura parental. Curiosamente, os avós e os pais da revolução foram os mesmos que contraíram esta dívida descomunal, tendo os primeiros beneficiado de um regime de segurança social para o qual praticamente não fizeram descontos. Isso mais pensões por viuvês, reformas douradas e medalhas para quem soube ou não fazê-las, no sentido inverso e respetivamente. Viva a Democracia dos méritos! Individámo-nos para lhes comprar mais esperança média de vida, e agora “crianças”, sem dinheiro, pagamos com as nossas. Aprendemos com vocês a sacudir a água do capote, o problema é certamente da nossa geração, porque se com 18 anos biológicos temos mentalidade de infantes isso nada tem que ver com a vossa capacidade pedagógica! Portugal e o mundo são ironias que revolvem nelas próprias: fosse a praxe nada representativa da realidade (da vida adulta, também, explicíte-se) e isto nunca teria sido assunto.
    A maturidade, enquanto figura legal, é em boa verdade uma redundância, já que sem ela não há lei. Os rituais iniciáticos, por mais alarves que tenham sido na História, sempre transportaram o início de uma nova identidade e de um novo respeito próprio. Varrer a praxe para debaixo do tapete não faz juz às provações da sobrevivência… entenda-se, a vida vai meia cheia de injustiças para o comum dos mortais: proibir em vez de preparar só faz do “futuro português” menos apto.

  15. cvr diz:

    Vejo uma ideia com a qual discordo:
    ” A lei do Estado é a lei do mais forte – dos advogados, dos tribunais, das polícias, das prisões – e uma sociedade decente, em progresso, é uma sociedade com harmonia social e com cada vez menos Estado.”

    O estado não impõe “a lei do mais forte”, pelo contrário, impõe o contracto social. O contracto social que todos fazemos ao ser cidadãos de um país (é-nos forçado) impede que “a lei do mais forte” prevaleça.

    É uma utopia pensar que numa hipotética sociedade em “harmonia social”, um conjunto de pessoas que se julgam mais fortes que a restante sociedade não vão abusar dessa mesma sociedade. Não vejo como se pode garantir que iriam pôr a harmonia social primeiro, à frente de motivações menos nobres. Dou um exemplo: se se extrapolar o conceito dado de “universidade livre” para o de uma “sociedade livre”, então se existir um hipotético grupo de extrema direita que actue de forma subversiva e ilegal, este não deve ser travado pelo estado mas sim pelos cidadãos (à porrada, presumo). Isto porque se seguirmos a sua argumentação, “Tudo o que reforce o poder do Estado do ponto de vista da repressão deve ser por nós recusado”. Presumo que a sua resposta numa situação dessas seria que o estado devia intervir, precisamente para garantir a liberdade das outras pessoas, policiando esses “meninos”.

    Quanto à praxe, a questão que se coloca é: respeita esta o contracto social? Se sim, não há razões para a abolir. Se não, não só deve ser abolida como o estado, garante do contracto social, deve agir nesse sentido.

  16. joão viegas diz:

    Sim, alias deviamos abolir todas as instituições universitarias, como o reitor, o conselho geral, o conselho de disciplina, etc. e também proibir completamente os regulamentos dentro desse espaço de liberdade que é a universidade, incluindo os que reputam aplicavel o proprio direito penal. Afinal, uma mulher que é mulher, e maior, não precisa de recorrer à autoridade para se proteger. Se fôr molestada, tem marido, tem pai, tem irmãos…

    E não esqueçamos que a universidade, não é apenas um espaço de liberdade, é também um espelho da vida social. Se te agridem, não vas choramingar para perto da autoridade que ja não tens idade para isso. Socorre-te da tua alcateia e, se não tiveres, trata depressa de encontrar uma que te dê protecção. E’ facil, tens apenas que beijar umas mãos, ou talvez uns sapatos…

    Ja li textos mais estupidos, mas foi ha muito tempo. Acho que foi no Blasfémias…

    Boas

  17. Pimba diz:

    Assim é, Raquel Varela. E o resto é conversa.

  18. João diz:

    À pala da oposição libertária ao “nanny state”, assume uma posição que não faz sentido. É que quanto à praxe como tradição, admito que a proibição é irrelevante, contraproducente, e enfim, uma não-questão. Já a coacção de um grupo que leva um indivíduo a praticar actos humilhantes, podemos dar-lhe as voltas que quisermos, mas tem-se confundido com instituições do Estado: a universidade e o exército. Quem pratica esses actos fá-lo com cobertura institucional. A lógica já é emasculante, e repeti-lo em semelhança só a propaga (de novo: parabéns ao Bebiano, e ele que ponha aí o número do ginásio dele). Excusado será dizer uma violação é crime, na universidade ou noutro lado qualquer. A menos que esteja a dizer que a polícia não se deve “intrometer” nesses casos. A ser assim, e se a polícia já serve, de sobremaneira, o estado burguês, então não serve mesmo para mais nada e devemos começar a correr às armas.

  19. Talhante diz:

    Se eu quiser ser praxado, como a maioria dos estudantes quer, não posso ser porquê?
    Creio que há gente que confunde árvores com florestas. Já existiram abusos? Já e quê? Nas praxes e em tudo. Tb já morreram pessoas no futebol e até mesmo no cinema, acaba-se com tudo? Parece q há incidentes na noite, proíbem-se os bares e discotecas?
    Haja paciência….

  20. 25sempre25 diz:

    A Dra Raquel fez muita coisa contra a praxe, o certo é que tudo continua pior do que dantes. Para cortar o mal pela raiz a cenas que reputo do mais abjecto que a mente humana (dita civilizada) pariu não vamos lá com paninhos aquecidos com «Tudo menos chamar o reitor a introduzir proibições no espaço universitário porque o espaço universitário deve ser um espaço de liberdade. »
    Que estranho conceito de liberdade se defende aqui: a liberdade de agressores agredirem sob total impunidade.
    Os estudantes praxantes só têm comparação com os indígenas participantes nos filmes do Indiana Jones e devem ser tratados exactamente da mesma maneira: porrada no lombo e enxadas em vez de canetas.

  21. João Pedro diz:

    A praxe tal como a vejo hoje nas praças e jardins de Portugal, durante dias seguidos, configura uma acção aviltante da condição humana, com a ascensão de pequenos gauleiters.
    É caso para dizer: Raquel !, que desilusão, uma jovem tão promissora……

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