Qual é a dúvida?

Podia ser na Faixa de Gaza mas não. É no coração da Amadora. Entre as ruelas estreitas e húmidas, um dos moradores conduz um grupo de candidatos da CDU às entranhas do Bairro 6 de Maio. Enquanto os apresenta aos que passam, explica-lhes que ninguém sabe o que é viver ali. Sem trabalho, entregues à sua própria sorte, a maioria transmite a raiva pelo abandono. Um dos moradores queixa-se de não haver limpeza dentro do bairro. Um jovem diz que sim, que há que foder os banqueiros e que esse gajo é dos nossos. Que gajo? O Jerónimo, pá.

Dois dos candidatos à freguesia são negros e são de um bairro vizinho. Não o escondem quando conversam entre as esquinas do gueto. Temos de nos organizar e lutar pelos nossos direitos. Se somos nós que sofremos é a nós também que cabe dar a cara pelos nossos. De denúncia em denúncia, todos querem mostrar o seu repúdio e o seu estupor por quem nos governa. Num café, vários idosos reiteram o seu apoio de sempre à CDU.

Num ginásio comunitário, improvisado pelos jovens, ouvem o apelo do estranho candidato à presidência da Câmara Municipal da Amadora que está ali com eles como outro qualquer. Numa casa, uma mulher pergunta como pode votar e ao lado há quem diga que não pode. Porque é ilegal. Um, dois, três, dezenas que não podem votar porque só são legais para trabalhar miseravelmente na construção ao preço ditado pela praça de jorna. Para o resto, são ilegais.

Para a Cova da Moura, o partido que governa o país e que dirige a mesma polícia que derrama sangue pelos bairros da Amadora comprou um porco e pô-lo a assar numas das ruas principais. É assim que os partidos da direita compram os votos dos miseráveis na Amadora. E há quem na Cova da Moura se candidate pelo PSD quando os níveis de desemprego estão acima dos 50 por cento.

Na histórica obra sobre a Comuna de Paris, o jornalista Prosper-Olivier Lissagaray relatava como, em 1864, 60 operários não queriam ser representados por outros e escreveram um manifesto redigido por um deles. Queriam os seus próprios candidatos ao parlamento nacional. Explorados que soubessem como eles o que era viver na miséria. Como então, não podem querer os trabalhadores ser representados por quem não os pode representar.

E na CDU há mulheres e homens como todos nós. Trabalhadores com vínculo precário, gente com a casa penhorada pelo banco, jovens que não conseguem pagar as propinas, desempregados por participar em greves gerais, pais que fazem das tripas coração para alimentar os filhos. Está mais do que na hora de levarmos toda a revolta acumulada às ruas do nosso país e de usarmos o voto também como arma de futuro. De norte a sul do país. Quem os patrões e os banqueiros odeiam são os nossos candidatos. Vais votar no mesmo candidato que o tipo que te fode a vida? Então, qual é a dúvida?

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28 respostas a Qual é a dúvida?

  1. Isabel diz:

    O mesmo cenário, tambem se pode encontrar logo á entrada da Costa da Caparica-Almada, uma Camara da CDU

  2. João diz:

    O 6 de Maio não é “no coração da Amadora”, mas sim na sua periferia na fronteira com Lisboa (Benfica). E foi alvo ao longo das últimas décadas de um grande requalificação principalmente com a construção d CRIL à 4 anos, em que praticamente 2/3 do bairro foi destruído e as pessoas realojadas.

    • Bruno Carvalho diz:

      Em primeiro lugar, a CRIL foi feita contra os moradores da Amadora e de Benfica. Em segundo lugar, vivem centenas de pessoas no 6 de Maio e que merecem tanto respeito e atenção como as que foram realojadas. E em terceiro lugar, se é para fazer como em Santa Filomena, onde o PS deixou gente a viver na rua sob o argumento de que não estavam inscritas no PER (quando o PER é dos anos 90), mais vale estarem quietos.

      • João diz:

        Sou morador da Amadora à mais de 30 anos e fui totalmente a favor da CRIL. A reabilitação urbana feita na Damaia, Venda Nova e Alfornelos foi fantástica.

        • Bruno Carvalho diz:

          Ainda bem para si.

        • Herberto diz:

          Viajo muito pela Damaia, Venda Nova e Alfornelos. Se para si, a reabilitação urbana é fantástica, eu pergunto: Qual reabilitação urbana? A situação nessas zonas continua a ser um verdadeiro pandemónio, por culpa dos sucessivos governos PS, PSD e CDS-PP que esqueceram a política de habitação deste país.

          • João diz:

            Em todas as zonas que falou as permissões de construção foram dadas quando a autarquia era da CDU.

          • Bruno Carvalho diz:

            Não tente enganar as pessoas, João. Vai querer que acreditemos que a CDU deu autorização para a construção ilegal? Uma coisa é a autarquia não impedir porque não tem alternativa imediata, outra é dizer essa parvoeira. Diga aqui aos nossos leitores como é que era a Brandoa, o maior bairro clandestino da Europa, antes da chegada da CDU à autarquia. Conte lá aqui à malta.

          • João diz:

            Estava a falar das urbanizações legais e autorizadas pela autarquia da CDU nos anos 70 e 80 de qualidade urbanística muito duvidosa.

      • Andre Carmo diz:

        o que tem feito a CDU para defender o direito à habitação dos moradores de Santa Filomena que têm desde o verão de 2012 sido vítimas de um ataque continuado por parte da CMA que tem levado a cabo no bairro um programa de demolições e despejos?

  3. Isabel diz:

    O Bairro de Barracas está lá HOJE, que tal o Bruno Carvalho ir visitá-lo e descrever aqui , como lá se sobrevive .

    • Bruno Carvalho diz:

      Não disse que não existia. Existe e tem de haver uma solução para esse problema. Estava apenas a elucidá-la sobre todo o trabalho que já foi feito. Na Amadora, há o 6 de Maio, a Cova da Moura, o Estrela de África, Santa Filomena, etc.

    • Herberto diz:

      O problema da habitação diz respeito ao governo; não diz respeito ao poder local. Seria bom que alguns comentadores reflectissem um pouco, antes de errarem.

  4. Rocha diz:

    No Porto e nas outras cidades do norte a CDU é a força cheia de juventude para jovens de todas as idades que está a defender os bairros sociais contra os despejos e as lutas dos trabalhadores contra os gatunos do capital.

    O nosso candidato Pedro Carvalho propôs e cumpriu votar pela anulação da lei dos despejos da Câmara do Porto (o regulamento municipal para os bairros sociais) todos os outros candidatos se comprometeram a fazer o mesmo. Fez-se a reunião de câmara e todos faltaram ao prometido, só a CDU pelo voto de Pedro Carvalho votou para acabar com o famigerado regulamento anti-pobres.

  5. X diz:

    Em Londres fui despejada de casa dos meus pais (as razões não interessam, mas venho de uma família disfuncional). Não fui parar a um banco no jardim em Hyde Park porque fui por um dia, dormir em casa dos pais de uma amiga minha.

    Foi em Londres, finais dos anos 70. Tinha um trabalho ao sábado (é normal em Inglaterra) para ter a minha semanada. Os meus patrões eram o Louis e o Luigi que viviam juntos. Logo que souberam ofereceram-me um quarto para dormir enquanto eu não organizava a minha vida, ou seja, encontrava um quarto. Resumindo: passei 4 anos a trabalhar em Londres, de quarto em quarto, comia chocolates Crunchies, manteiga de amendoim (peanut butter) para juntar dinheiro para vir a Portugal ver a minha avó paterna e o meu namorado na altura.

    Passei fome. É claro que sim. Trabalhava 6 dias por semana por uns trocos. Mas não dava conta porque andava atordoada com o facto de ter sido posta fora de casa com tanta, tanta violência. Note-se que pertenço a uma família que se pode dizer, no mínimo, burguesa. Não gosto lá muito de utilizar estes termos, mas gosto de dar os nomes às coisas.

    As pessoas que nunca passaram fome, nunca tiveram falta de um tecto (como dizia a minha avó paterna), nunca lhes faltou o mínimo para sobreviver, podem achar que viver nos subúrbios é, de facto, para outros. Pode ser que lhes toque a sorte de que, com esta crise que ainda mal começou, vão parar aos subúrbios e então têm que lidar com os seus preconceitos racistas de cor, género e declasse social, dos desempregados, dos que não têm quase nada a não ser um dia a comer de cada vez. Reparem que há crianças, adultos e idosos que são pobres mas conseguem ser mais generosos do que muita gente «abastada» que conheci até hoje.

    P.S. Vivo numa casa com uma renda antiga, anterior a 90.
    O meu senhorio que é uma pessoa bondosa e com ética(uma raridade) falou comigo e disse-me que não me iria aumentar a renda porque se não eu iria embora: seria despejada

    Não só não aumentou a minha renda, como ainda nem sequer a aumentou desde há 2 anos. Quanto pago? Não interessa.

    Interessa sim, que há pessoas que podiam desfazer a minha vida por causa de uns trocos e não o fazem simplesmente porque não se julgam mais do que os outros, apesar de terem um grande património.

    Confesso que o caso do meu senhorio é uma excepão, mas são exemplos destes que nos faltam na vida. O resto é conversa cheia de «ética».

  6. JP diz:

    Vivi 20 anos entre o 6 de Maio e a Cova da Moura.

    Conheço bem essa realidade e muitas dessas pessoas de que falas foram minhas colegas de escola durante esse período. Sei o que muitos passaram nas suas vidas e que as coisas nunca foram famosas mesmo quando a economia andava melhor.

    Também conheço bem o trabalho da CDU e as suas pessoas. São pessoas que encontramos na rua e no café. Que andaram nas nossas escloas e viveram esta realidade ao nosso lado. Estão lá quando precisamos e podemos confiar-lhes as “chaves de casa”.

    Por isso junto a minha à tua voz:
    QUAL É A DÚVIDA!

  7. viktor diz:

    O 5 dias anda fofinho, palco de propaganda partidária (ora da CDU, ora do Mas, imagino que pelo meio haja um BE ou algo assim).
    Pondo de parte as questões da representação, delegação, poder, autoridade e afins, Setúbal tem Câmara CDU, e não deixa de ser um óptimo exemplo da miséria pós industrial, da falta de criatividade e imaginação do socialismo real e da depressão toxicodependente resultante de tudo isto e de algumas idiossincrasias insulares dos autóctones.

    • Herberto diz:

      No entanto, todos os exemplos que refere são da exclusiva competência do governo: miséria pós industrial (emprego), falta de criatividade (cultura), depressão toxicodependente (solidariedade social). Portanto, seria bom que antes da crítica, reflectisse naquilo que vai diminuir ou desprestigiar, porque em matéria de poder local, a CDU tem trabalho feito.

    • JP diz:

      Epá se Setúbal é isso tudo, imagine sem a CDU.
      Seria Kinshasa, ou pior, Badajoz…

    • De diz:

      Provavelmente o vikktor anda fofinho em busca de fofuras do género atrás citado.

      Essa do socialismo real no Portugal de 2013, disfarçada de imaginação, com ou sem falta de criatividade, não revela uma idiossincrasia peculiar porque é vulgar entre a espécie a que pertence o vikktor.
      Mas não deixa de ser um óptimo exemplo da boçalidade alarve do exemplar em causa.

      (E não, não se trata provavelmente de uma depressão toxico-dependente do vikktor, se bem que o passarão parece que treina sob o efeito de.)

    • Carlos Carapeto diz:

      Viktor!

      Disse muito bem; Socialismo Real, é essa a única saída para resolver os problemas da humanidade.

      Abra um pouco esses olhos para ver o rol de desgraças que se abateram sobre a humanidade depois dos anos 90.

      Não foram capazes de resolver nenhum dos problemas que diziam existir desse lado, pelo contrário agravaram-nos todos, ao mesmo tempo o capitalismo mergulhou numa crise que não se sabe bem qual vai ser o desfecho.

      Com esse tal Socialismo Real o mundo era mais prospero, mais seguro e menos desigual.

  8. Orlando diz:

    E qual é a dúvida, é CDU e mais nada. Força CDU na Amadora e em todo o país.

  9. Luis Vale diz:

    Vou-me meter no vosso assunto , desculpem que nem sou daí . Pelo que se tem visto e lido nos média , todos os autarcas que poderiam ter mudado o rumo dos municípios e consequentemente dos munícipes porque tiveram dinheiro e outros meios para o fazer preferiram virar corruptos . Azar dos azares -NENUM ERA DA CDU_ Qual é a dúvida??? É só ler nos jornais de onde veem os Isaltinos , as Felgueiras , etc.

  10. closer diz:

    Porque é que a CDU apresenta um candidato de quarta categoria na Amadora que tem apenas 3 anos de filiação no PCP? Porque acha que vai perder?

    Pela 1ª vez vou votar na Amadora e estava disposto a votar na CDU. Assim já não sei…

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