Do bom ladrão

Não são só ladrões os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas (juízes) e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos.” Ditosa Grécia que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e, no mesmo dia, ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província.”

Padre António Vieira – Sermão do bom ladrão

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10 respostas a Do bom ladrão

  1. Catarina diz:

    Desculpe a correcção mas o autor das linhas acima e do «Sermão do Bom Ladrão» é Padre António Vieira – que não é santo. 😉

  2. Catarina diz:

    Já agora, no mesmo sermão, encontra-se este «naco», igualmente bom :
    «Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.»

  3. De diz:

    Clap!Clap!Clap!
    Pelo texto em si,pela escolha do autor do texto, pela actualidade do texto, pelo convocar e reivindicar a inteligência e a cultura como património de.

  4. JgMenos diz:

    Haja Impérios, Reis ou Repúblicas, sempre se identifica o Estado e seus agentes como os maiores e mais activos ladrões.
    Menos Estado é menos gatunagem!

    • De diz:

      Tretas.
      A natureza do estado tem muito que se lhe diga.E não se resume a esse miserável dito, feito slogan e repetido até à náusea a quem se serve do estado a seu bel-prazer.

      “O sistema de poder e o Estado são concebidos para garantir o domínio não apenas económico, mas político do grande capital. Embora a igualdade de direitos dos cidadãos seja reconhecida em termos legais, são impostas de facto gravíssimas discriminações e desigualdades. A abissal desigualdade económica e de meios financeiros e materiais entre as classes exploradoras e as classes exploradas, cria uma desigualdade efectiva no exercício das liberdades e direitos democráticos. O poder político é exercido directamente pelo grande capital (capitalismo monopolista de estado), ou indirectamente pelos seus agentes. Como garantia suprema, a democracia política num país capitalista é em geral concebida (nomeadamente através de sistemas eleitorais) de forma a impedir que os trabalhadores possam vir a substituir os capitalistas no governo”

      E em Portugal?

      “…Na economia, reconstituindo e restaurando o capitalismo monopolista, promovendo a rápida centralização e concentração de capitais, acentuando a distância entre um pólo de grande riqueza acumulada e um pólo de pobreza e miséria”

      Álvaro Cunhal a 21 de Maio de 1993 (ambos os trechos)

      Há mais.Fica para depois.

      • JgMenos diz:

        Mais do mesmo?….da bondade natural dos camaradas dirigentes….misericórdia!!!!!!!
        Nunca tal foi visto em lado nenhum!
        O homem é lobo do homem…só a lei que a liberdade gera e mantém, o contém!

        • De diz:

          ?
          Misericórdia?
          Mas que diacho.A leitura ponderada e serena de algumas linhas de Álvaro Cunhal perturba tanto Menos?

          Bondade natural?
          Mas quem falou em tal?

          Fala-se no Estado e Menos fala na bondade natural dos dirigentes, (?), no lobo do homem e na lei gerada pela liberdade (?)Temas de facto interessantes mas definitivamente ao lado.
          Quer Menos falar sobre a condição humana?
          Mas com certeza. Quando o tempo o permitir, já que a estratégia de menos é precisamente esta.Saltar feito salta-pocinhas em busca de.
          Como mais uma vez se demonstra.

          ( de facto no capitalismo o homem é o lobo do homem.Por isso é que há que mudar para uma sociedade mais justa e mais humana.
          JoãoVilela já postou aqui um post muito interessante sobre o tema.Pena que Menos estivesse mais interessado em.)
          Mas João Vilela

  5. Herberto diz:

    Os ladrões que estão no nosso governo não se lembram dos ditos do Padre António Vieira. Obrigado, Lúcia Gomes. É preciso recordar António Vieira.

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