com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

uma criança de 12 anos entrou numa escola nova e no 1º dia foi praxada pelos estudantxs mais velhxs. passou o dia a fugir. ficou desiludida, não contava com aquilo. a criança queria conhecer pessoas novas, professorxs, fazer amigxs. o 1º dia de aulas era suposto ser uma coisa boa. não um dia de medo onde escrevem a à força a caneta burro na testa e desenham pilas em cima da boca.

como sociedade temos que pensar como é que chegámos a esta tolerância com a violência.

e agora? a desculpa da tradição também se aplica às crianças nas escolas secundárias?

como canta tom zé: senhor cidadão, com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

em frança há leis que proíbem e penalizam. o que é agressão, é crime.

a propósito da praxe: o filme rasganço. quem tiver o dvd veja um documentário que realizei sobre coimbra e a praxe, onde várias pessoas fazem uma reflexão sobre o que é a praxe e o que é ser estudante. entrevisto praxistas, anti-praxe, repúblicas, estudantes, activistas, cientistas socias. está nos extras do dvd.

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Sobre raquel freire

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16 respostas a com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

  1. Amaggi diz:

    “o 1º dia de aulas era suposto ser uma coisa boa” Noto aqui perconceito de género. Porque é que é coisa boa e não coisa bom? Sinto-me afetadx. Sugiro que se altere a fórmula para “ser umx coise box”

  2. von diz:

    Curto e grosso: com a merda do estatuto do aluno, que disparatou em mil direitos pintalgados com meia dúzia de deveres, abriu-se a caixa de pandora da indisciplina estudantil. Numa escola com E grande, com professores dignos e conselho directivo competente, a notícia em causa não aconteceria. Se durante um dia inteiro, foi permitido a meia dúzia de cretinos, seviciar uma criança, então todos os adultos que trabalham nessa escola, deviam ser punidos. Um professor, um director ou qualquer empregado de uma escola, não o são sómente na sala de aula, na sala de reuniões ou no refeitório.

    • Embora possa acontecer porque somos humanos, concordo com o Von. A receção aos alunos do 1º, 5º e 7º anos é sempre cuidada. Na verdade, e estando eu a lecionar no interior, damos prioridade à integração dos alunos e exploração das dificuldades (que são muitas). É curioso como me desliguei da realidade relatada, e que tanto lamento, talvez por também eu considerar que existem escolas com “E” grande.

    • Pimba diz:

      Exacto e qual: “Se durante um dia inteiro, foi permitido a meia dúzia de cretinos, seviciar uma criança, então todos os adultos que trabalham nessa escola, deviam ser punidos”!!!
      E o resto é conversa da treta!

  3. Assim é normal que haja bullying, e cada vez mais cedo! Não é só as praxes…agora até já viagens de finalistas assim que acabam a primária ou entrega de diplomas assim que saem da creche….enfim, não é nada como antigamente!! Realmente é demasiada violência psicológica!

  4. Pimba diz:

    Näo é giro, mas näo façam dramas onde näo os há. Previnam é a brutalidade. Agora uns riscos… pamordeux!
    Com 12 e 13 anos fizeram-me uma “coroa”. E näo morri. Mil vezes preferia que me só me escrevessem algo na testa.
    Caneta sai bem com álcool assim que se chega a casa. A coroa é que só desaparece daí a um mês. Vidas!

    • raquel freire diz:

      pimba: se é masoquista é um problema seu. bom proveito. agora xs estudantes mais velhxs agredirem crianças de 12 anos no 1º dia de aulas numa nova escola, agarrarem-nas à força, marcarem-lhes a cara com caneta, desenharem pilas na boca, e mimos como estúpido, burro, e outras coisas simpáticas… não é o que eu quero para o meu país, para as nossas crianças, para todas as crianças, nem para o mundo em geral.

  5. imbondeiro diz:

    Não deixa de ser curioso que se tome o síntoma pela própria doença. O caso relatado é um caso chocante de “praxe”? Pois é. Mas não passa do sintoma de um problema bem maior e muitíssimo mais profundo. Este é o resultado de anos e anos de aplicação de uma política educativa dita “de esquerda” que fez dos “meninos” e dos seus “direitos” o alfa e o ómega da escola, fazendo dos “meninos” autênticos inimputáveis. A direita aplaudiu, pois cinicamente previu o resultado de todas essas baboseiras psicopedagógicas: mais uma contribuição para a degradação da escola pública com a criação de uma população escolar que obedece, numa sua grande parte, aos seus mais a primários e alarves instintos e que trata como cães os seus semelhantes sejam eles os seus colegas, os auxiliares de educação educativa ou os professores. O problema não é o da “tradição”; o problema é o de uma “nova tradição” que, messianicamente, se tentou implantar e que deu raia a toda a linha.
    Por outro lado, pergunto eu se, na escola em que tal aconteceu, não há auxiliares de educação em falta e se os que vão ficando não estarão, muitos deles, prestes a serem despejados para o quadro de excedentários, a antecâmara do desemprego. Também foi um factor da maior importância na prevenção e controlo de situações de violência na escola a sábia criação de mega-agrupamentos, esses autênticos armazéns onde alunos de 12 aninhos são amontoados como gado durante boa parte do dia.
    Numa sociedade em profunda e prolongada crise, a tendência é a de que a violência se torne endémica, pois ela será o espelho que nos devolverá a exacta imagem da violência maior da pobreza, da miséria, da falta de acesso a um saudável desenvolvimento das nossas crianças e jovens.
    E acha verdadeiramente ser o quadro que a cara articulista traçou o retrato de uma intolerável violência? Eu dou-lhe alguns vislumbres de violência verdadeiramente intolerável: um “menino”, juntamente com outros “meninos”, levou um seu colega de turma para um ermo e, enquanto os outros assistiam e aplaudiam, sodomizou-o; um “menino” obrigou um seu colega a fazer-lhe sexo oral; um “menino” e uma “menina”, apanhando a auxiliar distraída, enfiaram-se no wc e fizeram aquilo que só gente crescidinha costuma fazer; uma catraia de 13 anos apareceu na escola com notas de 50 euros, fruto do seu “convívio” com os velhos lá da terra; uma outra miúda de 14 anos viu a sua “mãe” tentar convencer uma médica do SNS a laquear-lhe as trompas de modo a que entrasse, sem riscos de uma inconveniente gravidez, no negócio caseiro do sexo; um outro casalinho de “meninos” foi surpreendido, em campo adjacente à escola, pela sua Directora de Turma, praticando, em modo completamente nudista e à vista de quem passasse, aquilo de que até os bicinhos gostam e a “mãe” da “menina”, quando alertada para as façanhas sexuais da filhinha por quem de direito ( a sua D.T. ) mais não disse do que um “Então queria que ela fodesse onde, cá em casa, não?” Mas o magno problema é a violenta “praxe”… Certamente que é, certamente que é…

    • raquel freire diz:

      o que relata é fruto do retrocesso social que infelizmente hoje vivemos. do regresso a uma sociedade sem cultura democrática, violenta, desumana. tudo o que diz é resultado da ignorância, da pobreza, da falta duma cultura democrática, da falta de acesso à educação, à saúde – consequências directas das políticas de direita. todos os exemplos que deu, poderiam ter-se passado no tempo do fascismo sob o regime totalitário salazarista – eu conheço relatos semelhantes, teno a certeza que se procurar também encontra, senão vá até à torre do tombo ver os registos oficiais. está lá tudo o que acabou de descrever. um país miserável, mantido na miséria e na ignorância através dum regime totalitário.
      e sim, está ligado com o reaparecimento da praxe. se estamos em pleno retrocesso social, graças às políticas de direita – do cavaco, ao governo e à troika – a sociedade desumaniza-se.

      • imbondeiro diz:

        Eu não preciso de procurar exemplos: eu presencio-os e deles tenho notícia todos os dias. Duvido que à senhora aconteça o mesmo, caso contrário não apresentaria o caso que apresentou e da maneira como o apresentou. É que neste país e nas suas escolas há problemas bem mais graves a que dar remédio. Se eu fosse à Torre do Tombo, outras coisas encontraria: processos da Inquisição e recorrentes relatos de assassinas razias a judearias. Em termos de brutalidade há sempre vastos precedentes, coisa que, em si, nada acrescenta ao assunto em questão – o que interessa é a natureza, a generalização e o grau dessa violência. Não sou perito em arqueologia da miséria, o que me interessa é a miséria ( material, ética e moral ) do presente e como acabar com ela não a deixando ser perpetuada no futuro.
        As políticas de direita, Cavaco e a Troika ( mais quem nos aprouver juntar-lhes – do Menino Jesus à Nossa Senhora de Fátima, há todo um leque de possibilidades… ) terão certamente muitas culpas, imensas culpas, a serem-lhes imputadas. Mas isto de apontar culpas alheias é coisa cómoda. Mais difícil é reconhecer erros próprios , erros como o de messianicamente pensar que lobos e cordeiros, uma vez deixados em autogestão, se dariam maravilhosamente bem. E quanto a isto, a senhora habilmente contornou aquilo que expus no primeiro parágrafo do meu anterior comentário. Que passe a senhora muito bem são os meus mais sinceros desejos.

        • Bravo @imbondeiro.

          Sou professor há 23 em Liceus Universidades – 4 anos assistente na U. de Coimbra – e Politécnicos. Sempre lutei contra a praxe, fui encostado à parede umas quantas vezes por alunos e professores coniventes com o que é a praxe: EXERCÍCIO DE PODER DOS ALUNOS SOBRE OUTROS ALUNOS, FUNCIONÁRIOS E PROFESSORES*, PURO E DURO. As praxes regressam mais como sintoma de que os alunos têm mais poder, NADA MAIS.

          Quanto a esta educação de esquerda, laxista, de fraca qualidade, que constroio aprendizagens em vez de TRANSMITIR CONHECIMENTOS, é um crime porque “os meninos” que têm livros em casa, bons filmes em casa, e papás a levá-los a museus serão elite tranquilamente nesta educação de esquerda!
          Agora uma pergunta:
          Mas se esta é uma educação construtivista que favorece a perpetuação das elites porque lhe chamamos de esquerda?

      • imbondeiro diz:

        Continuo pacientemente à espera que publique a minha resposta ao seu comentário do meu comentário: ter-se-á ela perdido na internética “nuvem”, ali para os lados da Covilhã? É uma possibilidade que deixo em aberto…

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