A Arte da Arte do Poder. Notas já “póstumas” sobre a exposição de Joana Vasconcelos na Ajuda.

Maria Cavaco e Joana Vasconcelos

Há um e um só ponto em que Joana Vasconcelos merece todo o meu aplauso: é que se a arte é a expressão da sua época, então o seu trabalho é o mais brilhante e genial hino não só ao nosso tempo presente, mas ao que estamos em vias de nos tornar. Na “arte” de Vasconcelos o regime actual encontra o espelho encantado das suas próprias ambições. Estão aqui inscritos todos os valores mediáticos da actualidade: a «arte» como puro marketing (nacional a exportar rapidamente), o «artista» como dedicado empreendedor (que trabalha com empresas e bancos) e, por último, nós, os «espectadores», como burros em frente ao palácio (da Ajuda, neste caso) olhando, pasmadamente, o carnaval de desfiles com que se veste a nobreza política. É que, afinal de contas, o badalado vestido de Joana Vasconcelos não é mais que o glorioso traje com que essa nobreza política há muito sonha recobrir-se, mas que uma última réstia de pudor democrático ainda lhe impede. Ou, dito de outro modo, ele, o vestido, é o inconsciente reprimido da actual classe política. Nele, esta projecta todos os seus desejos de grandeza e toda a sua mediocridade.

Por isso é que se poderá dizer que as democracias actuais são essencialmente religiões politeístas, não se dedicam a um só culto como nos regimes totalitários (o caso da Coreia do Norte e do seu “querido” líder Kim Jong-Un), mas consagram-se a vários rituais e deuses (o conceito de estrela, não poderia ter em si uma formulação mais teológica: deus-futebol, deus-artista, etc…) através dos quais o regime exerce não só o seu poder, mas expressa os seus mais íntimos recalcamentos – aquilo que ele quer verdadeiramente ser, mas (ainda) não pode ou não consegue. A história, aliás, ensina-nos que devemos estar particularmente atentos a esses pequenos hieróglifos à espera de serem decifrados.

Mas, tal como as danças barrocas eram já a expressão, segundo alguém, da psicose e esquizofrenia de uma nobreza impotente, perante a ascensão de uma nova classe (a burguesia capitalista), também a esquizofrenia colorida de Vasconcelos parece ter o amargo perfume de um drama trágico latente, onde o actual regime procura, a todo o custo, esconder a sua miséria e a iminência do seu fim. Talvez possamos ver com uma certa ironia histórica, o facto do palco de todo este espectáculo ser o desafortunado Palácio da Ajuda, obra de cunho real para sempre inacabada e fatídica última morada da família real portuguesa. A ironia não salva mas ressalva, já escrevia Herberto Hélder.

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10 respostas a A Arte da Arte do Poder. Notas já “póstumas” sobre a exposição de Joana Vasconcelos na Ajuda.

  1. João Pedro diz:

    Lá faltava a coreia do norte a borrar a modernidade da crítica à artista do regime. Deve ser o apelido Bismark que alimenta imperialmente esse conceito e esse preconceito. Pois é, Bismark, a Coreia te 3.000 mil anos, a Sul e a Norte, não é uma nuvem passageira, como a Joana

    Saudações anti-imperialistas, caro Pedro.

    Do João Pedro.

    • Pedro Bismarck diz:

      Não percebo bem a pertinência do seu comentário relativamente ao argumento central do texto, muito menos a relação com o meu apelido, que já agora se escreve Bismarck e não “Bismark”. De qualquer modo, aconselho-o a ler o texto uma segunda vez, se é que o chegou a ler.

  2. Anónimo diz:

    O Palácio da Ajuda não foi a última morada da família real, foi o Palácio das Necessidades.

    • Pedro Bismarck diz:

      Em boa verdade, penso que ambos partilharam essa condição. Sendo que a Ajuda ficou até ao fim como lugar das cerimónias oficiais da Monarquia.

  3. Herberto diz:

    Parabéns pela fotografia. Ali, está o patético aliado ao mau gosto.

  4. Bolota diz:

    Bismarck ,

    Uma pergunta me ocorre, o que tem a Vasconcelo que Saramago não tivesse??? Já agora, quem é a Vasconcelo ao pe de Saramago para que ela tenha tudo e ele nem o conseguiram propor ao premio nobel da literatura que acabou por ganhar???

  5. Zé Carioca diz:

    E se trocassem…de vestido(s)?

  6. Sérgio A.S. Franco diz:

    Joana Vasconcelos e o fluxo crítico,

    Desde há alguns anos que a artista plástica Joana Vasconcelos tem sido o alvo preferido de alguma crítica de arte do nosso País. Este texto é apenas mais um exemplo. O texto em causa enforma-se, na minha perspectiva, em elementos pouco consistentes num contexto analítico, no seu conteúdo, e na sua forma, recorre a idiossincrasias (cujo exemplo mais paradigmático será, porventura, o facto da palavra “arte” aparecer entre aspas como uma sugestão de conceito ilegítimo em relação ao criador em causa…). O texto oferece-se, evidentemente, a pelo menos duas leituras interpretativas, e a mais se tivermos em consideração a eventual inexistência de limites à interpretação.

    O texto diz pouco… mas sugere muito. Existe, criticamente, mas não assume explicitamente uma postura. De modo seminal, cresce na margem do “para bom entendedor mais palavra basta”. O que me parece mais criticável no seu conteúdo é uma nítida avaliação do trabalho da Joana Vasconcelos à luz da Teoria do Gosto como se esse facto bastasse, de modo vinculativo, para legitimar qualquer obra de arte. A Arte não depende do gosto, como se sabe, e legitima-se por outros fenómenos.

    A primeira impressão que o texto me transmite é de um estado aparentemente angustiado do seu autor face ao sucesso (também mediático…) da Joana Vasconcelos como criadora reconhecida. Como se o sucesso dos outros, neste Portugal historicamente mesquinho, fosse a primeiríssima causa de mal estar de quem “fica do lado de fora”.

    Parece-me grave que quase cem anos após a Fonte de Marcel Duchamp muitas pessoas ainda insistam em interpretar a Arte e os fenómenos artísticos quase exclusivamente pelos caminhos da cartografia do reino do gosto. Pior… que assumam, como que estimulados por um patológico impulso narcisista, que o seu gosto é aquele que deve ser o padrão de julgamento. Isto é que me parece perversamente perigoso se visto dentro de uma suposta dicotomia cuja metáfora fosse representada por regimes fascistas versus democráticos. Em democracia cultiva-se o pluralismo, para além do Bem e do Mal, de qualquer exercício de valor sobre a estética, assente no gosto dos “espectadores”. Democracia significa então espaço para se exercer, responsavelmente, a liberdade de expressão.

    Se um criador nos oferece um discurso estético que não nos agrada. Se, institucionalmente, o Poder se cola a esse criador e, se pelo caminho, reforça a sua promoção. Se ele gere a sua actividade em premissas de gestão empresarial. Se, no limite, o que veste é também uma extensão da sua poética. Tudo isto me parece acessório.

    Exigir que o verdadeiro artista é aquele que se impõe como contra-cultura, o solitário incompreendido, à frente do seu tempo (porque todos aqueles que são incompatíveis com a sua contemporaneidade serão, claro, sempre compatíveis num determinado intervalo de tempo algures no futuro…)… não faz sentido… é apenas um reflexo do imaginário romântico do que é a condição de se ser artista.

    A Joana Vasconcelos não é a “artista do regime”… apenas está no sítio certo à hora certa! E, como pessoa inteligente, sabe identificar (e criar) o momento, aproveitando as condições que se lhe oferecem.

    A arte que Joana Vasconcelos faz não deve ser estigmatizada apenas porque encontra aceitação e respectiva promoção política. Uma análise crítica que se queira impor com credibilidade não se deve enformar em elementos que se limitam a relacionar um determinado criador com o eventual desfile de vaidades que a ele se cola sobre determinadas condições. E quando os ventos mudarem não se deve também promover espaço para se sanear quem apareceu em certas fotografias com certas pessoas, como por vezes é hábito da natureza humana.

    Vivemos, efectivamente, tempos irónicos… mas estes são também tempos que devem estar abertos a liberdade da diversidade.

    • Caro Sérgio Franco,
      Não faço nenhuma consideração do trabalho da Joana Vasconcelos nem à luz nem à sombra da Teoria do Gosto. Não estou a impor o meu gosto a ninguém. O que está em causa é o inconsciente da relação entre o poder e o trabalho artístico da Joana Vasconcelos. Isto é, a razão pela qual (à margem de qualquer avaliação artística) a Joana Vasconcelos chegou à condição de artista de “regime”. O que a arte de Vasconcelos mostra é que o que está em perigo é precisamente essa diversidade e pluralidade democrática de que fala e de defende. Ao reduzir-se o apoio às artes, aos pequenos projectos culturais e a vestir andrajosamente de gala apenas um projecto, um artista, um projecto. Para além disso, não estigmatizo a senhora. Ela estará muito bem, não terá problemas de autoestima certamente. Ela escolheu um caminho para o seu modo de fazer arte, e a nós cabe-nos também o direito de criticar esse caminho: compreender as suas razões, causas e sobretudo consequências.
      Aconselho-o a ler novamente o texto.

  7. Alzira Relvas diz:

    O texto é simplesmente brilhante.

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