Os filhos dos outros

Não raras vezes nos últimos anos recebo telefonemas da minha Mãe, confusa com o recibo da CGA, porque, mais uma vez não sabe quanto e porquê estão a roubar na sua pensão, mais uma vez.

A minha mãe, nasceu numa aldeia, mesmo perto de Bragança. De sete irmãos, foi das poucas que pôde estudar. Era assim, escolhiam-se os filhos que podiam ir à escola e os que tinham que desistir. Como era (e é, felizmente estão todos vivos) a mais velha, tomava conta dos irmãos, tratava do pequeno-almoço, vestia os mais novos, ia à escola (a pé, claro), voltava, ajudava nas tarefas de casa, quando chegava mais cedo no campo e a dar de comer aos animais e o dia já ia longo.

Foi para Angola, com os irmãos, quando o fascismo os empurrou para a guerra. Ali ficou, a cuidar dos filhos deles e a dar aulas até que pudessem voltar. Depois, saiu da aldeia e foi trabalhar para os CTT. A minha Mãe, que trabalhava desde pequenina no campo, que tirava boas notas, que emigrou por ordem fascista, que voltou e muito nova entrou numa empresa pública, usava calças e fumava. Sempre excelente trabalhadora e acabou por se sindicalizar.

Trabalhou quase quarenta anos e reformou-se por invalidez. De acordo com a lei vigente. Nunca deveu nada a ninguém, pagou sempre as contribuições à CGA, esteve de baixa uma vez (que me recorde) e entrava às seis da manhã. Fazia horas suplementares sempre que podia para que eu e a minha irmã pudéssemos estudar e ir para o ensino superior. Às vezes só havia dinheiro para sopa, a minha Mãe tomou conta de nós sozinha até aos meus 16 anos.

Nos últimos tempos, ficou sem subsídio de férias e de Natal. Cortaram-lhe a pensão em 2011. Voltaram a cortar com a sobretaxa em 2013. Obrigaram-na a receber duodécimos quando ela não queria. Subiu de escalão de IRS e baixou os rendimentos. Tomou conta da minha avó nos seus últimos anos e o dinheiro para pagar os medicamentos de alzheimer e as consultas quando se descobriu o cancro não chegavam (precisavam de se deslocar a Vila Real, em Bragança não se faziam exames oncológicos). Agora também não pode meter despesas de saúde no IRS por ter o subsistema dos CTT.

Na semana passada liguei-lhe para lhe dar a notícia: vais receber menos 10% na tua pensão. No mínimo. Isto porque a tua reforma é anterior a 2005, se fosse posterior era de 11% o corte.

Expliquei-lhe que a alteração do fator de sustentabilidade é em relação aos futuros reformados e aposentados e vai representar a duplicação do corte nas suas pensões, devido a este fator aumentar de 4,8% para 9,6%.

Que o recálculo do “P1”, que o governo pretende fazer em todas as pensões de aposentação atuais e futuras, ou seja da pensão correspondente ao tempo de serviço até 2005, determina um corte nesta pensão de 11%, e não entre 7,8% e 9,8% como diz o governo.

Que a que a pensão de aposentação da Administração Pública, no geral, passará a ser inferior à da Segurança Social, do mesmo período, entre 8,5% e 12%.

A minha mãe disse-me que já não sabia onde cortar mais. Carne quase não compra e não pode deixar os medicamentos.

É este um tempo em que os filhos voltam a casa dos pais, porque estão desempregados, porque entregam a casa ao banco, porque têm que tratar dos seus filhos. Um tempo em que a escola se vai tornando para os filhos dos ricos e os pobres voltam ao trabalho antes do tempo.

É um tempo em que os pais ajudam os filhos, os filhos ajudam os pais na sobrevivência que se pode. Um mês porque é preciso mudar os óculos da Mãe, outro porque a filha não consegue pagar a renda de casa e as contas. Deixa-se de ver a família quando se está longe, porque já não se pode pagar a viagem.

E escreve-se na primeira pessoa porque esta é a história de todos os filhos dos outros.

E os filhos deles, dos governantes? Dos grandes capitalistas?

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10 respostas a Os filhos dos outros

  1. Herberto diz:

    Muito bom texto, Lúcia. Toma lá o meu aperto de mão invisível que é para te dar mais força nos próximos que vais escrever.

  2. Carlos Carapeto diz:

    Lúcia felicito-a por ter conseguido expor um drama familiar com tamanha clareza.

    Mas a Lúcia sabe certamente melhor que eu que a situação que relata atinge cada vez mais famílias, coloca no desespero diariamente mais pessoas.

    Esse sufoco que mergulha milhões de seres humanos em dificuldades de toda a ordem, tem causas existem responsáveis são esses que nós temos o dever de denunciar e combater.

    Nunca na história da humanidade se produziram tantos bens e a tão baixo custo como atualmente, no entanto a 1/3 dos seres humanos é-lhes negado o acesso a muitos desses bens.

    A culpa é do sistema que controla a produção da riqueza e impede que se faça uma distribuição justa dessa mesma riqueza por aqueles que a criam.

    As causas das assimetrias sociais são criadas por o sistema capitalista. E é contra esse sistema déspota, desumanizado que não respeita nada nem ninguém, que nós temos que dirigir a nossa luta, apontar as nossas armas sem lhes dar tréguas.

    Com o evoluir da presente crise é cada vez mais nítida a concentração da riqueza numa percentagem ínfima de um grupo restrito de cidadãos, enquanto os números da miséria e da exclusão alastram vergonhosamente.

  3. Excelente texto. Sentido e contido ao mesmo tempo. Bem haja.

  4. Francisco d'Oliveira Raposo diz:

    Excelente.

  5. E é assim que se matam as pessoas. Eu digo que isto é fascismo.
    Parabéns pelo texto, fico é triste que tenhas escrito com o novo acordo ortográfico.

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