Do anonimato enquanto derradeira possibilidade de ser alguém

“You Can’t Win”, a autobiografia de um vagabundo, por vezes ladrão, que vagueia pelo sudoeste norte-americano era supostamente o livro preferido de William Burroughs, provavelmente por desenhar de um modo tão simples quanto belo uma cosmogonia de liberdades e personagens marginais à deriva na vastidão norte-americana, hoje evidentemente eclipsada. Não seria a menor dessas belezas a facilidade de escapar da prisão. Jack Black, o autor, encontra-se frequentemente atrás das grades de pequenas cidades, detido por um qualquer crime menor ou simplesmente por vaguear sem destino ou entre trabalhos de miséria. Frequentemente também consegue escapar. Sem um documento de identificação único e com a deficiente difusão dos registos fotográficos Jack viaja nos vagões de comboio duas ou três cidades e pode de novo dedicar-se ao seu exproprio proletário de tempo, maçãs e roupa no estendal.

Nesta semana o Estado do Rio de Janeiro no Brasil activou um dispositivo legal que proíbe a utilização de máscaras em manifestações, chamando-lhe, num grato cinismo, a “proibição de anonimato”, ironicamente, o facto de ter sido uma figura pública, Caetano Veloso, a ter publicamente desafiado a lei trouxe o assunto à ribalta nas redes sociais e nos media.  A intenção repressiva é despudoradamente clara, não só cria à partida critérios legais para impedir e reprimir manifestações preventivamente como também assegura a possibilidade de uma potencial identificação de todos os presentes, o que revela contornos mais profundos: ao poder não assustam tanto as manifestações e os eventuais confrontos como não saber quem nelas participa, ou seja, é a partir do momento em que o manifestante se torna efectivamente “qualquer um” que as capacidades do aparelho repressivo começam a ser postas em causa, precisamente por ser impossível encontrar sujeitos dispostos a mediações ou expostos à repressão. O argumento aparentemente contrário a esta reflexão é imediato: são sujeitos concretos com vidas concretas que dão textura e corpo a um movimento, é a coragem de dar a cara por uma ideia que torna palpável essa ideia, os contornos de uma acção política são dados por pessoas e não por abstracções etéreas, congregadas momentaneamente numa acção difusa e dispersa. E o argumento é apenas aparentemente contrário porque é verdadeiro, ou seja, é a multiplicidade de formas de vida implicadas nesse “qualquer um” que o enche de potência e não as estrelas emergentes em bicos de pés.

Veja-se a iconografia artística produzida pelos movimentos operários, do neo-realismo ao realismo socialista, das vanguardas do séc. XX à fotografia documental, por exemplo, da revolução mexicana. Apesar da frequência dos personagens carismáticos, são representações percorridas por abstracções metafóricas e nos casos mais ousados literais. São as próprias caras, anónimas, que funcionam enquanto máscaras de uma potência revolucionária. As tecnologias modernas de controlo foram criadas precisamente para que as caras deixassem de ser símbolo do que somos e poderemos ser para se tornarem um registo estatístico. É do modo mais perverso possível que a proibição do anonimato nos transforma num ninguém numerado.

Signatários da Revolução Mexicana, na foto tirada antes de subirem ao palco. O homem de pé no canto direito viria a escrever um livro sobre a revolução mexicana chamado "Revolução Mexicana"

Signatários da Revolução Mexicana, na foto tirada antes de subirem ao palco. O homem de pé no canto direito viria a escrever um livro sobre a revolução mexicana chamado “Revolução Mexicana”

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5 respostas a Do anonimato enquanto derradeira possibilidade de ser alguém

  1. De diz:

    Muito, muito bom

  2. E... diz:

    Como tudo no Brasil está sendo controlado pela ditadura e pelos 16 bilhões (5 mil milhões de euros) gastos com publicidade ano passado, o desespero da população é geral, as manifestações continua diariamente apesar de menores.
    Aquelas de Junho sufocadas pela truculência e ilegalidade da policia e caladas pela imprensa (beneficiada com os 16 Bilhões), tais como um policial militar com microfone de cima de um caminhão determinando (ato próprio de policia judiciaria) a prisão de cidadãos além de insultos como “esse tem cara disso está preso”, aquele é “subversivo” esta preso, simplesmente porque caminhavam na rua em direção de casa.
    Seu artigo é um dos mais imparciais que já li sobre o Brasil no exterior, só peca quando diz “Brasil ativou um dispositivo legal”, esse dispositivo ou inexiste, ou é secreto ou perdi alguma coisa pelas tantas do desgoverno brasileiro.
    O Art.º. 5º da Constituição garante que, É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Pensamento pode se entender por ideologia política, religiosa, filosófica, mas se configura numa manifestação coletiva dissociada de preceitos pré-estabelecidos ou para estabelecer.
    A mesma Constituição até ontem em vigor garante que, É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.
    Ou seja o desejo de participar da manifestação em nenhuma hipótese pode se entender como manifestação do pensamento, por esse ser subjetivo e abstrato, nas manifestações no Brasil podemos entender como iniciativa Intelectual, ou seja da capacidade do individuo em julgar e acreditar que matérias verossímeis como atuação politica dos governos ou imprensa.
    Em maio de 2012 numa conversa de café com 3 ativistas portugueses, R.T, B.C, L.C tive a oportunidade de ser chamado de maluco e sentir um gozo escrachado na lata porque “adivinhei” cada acontecimento em junho de 2013, agora não é preciso exercício de adivinhação, o Brasil esta vivendo uma ditadura e até gostaria de ser mais ingênuo, mas como não sou escreva ai, não vai mudar. Não sou advogado, a interpretação portanto é subjetiva.

  3. E... diz:

    Correção: mas NÃO se configura numa manifestação coletiva dissociada de preceitos pré-estabelecidos ou para estabelecer.

  4. JgMenos diz:

    «…é a coragem de dar a cara por uma ideia que torna palpável essa ideia,» «É do modo mais perverso possível que a proibição do anonimato nos transforma num ninguém numerado.»

    O português é uma língua difícil…!

    • De diz:

      Uma língua díficil para quem o não compreende ou sinta dificuldades em.

      Talvez uma nova leitura?
      Ou umas explicações avulsas?

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