Corte de salário a 60%. Portugal será um gigantesco bairro social?

Há 6 meses dissemos num debate da Apre que o plano era cortar as reformas para metade. Ouvi na altura um mmmmmna sala. Seria exagero? Aquilo que hoje é normal era há 6 meses difícil de acreditar. Dissemos, com  cuidado, que o plano era fazer descer todos os salários ao nível da simples possibilidade de comer e no dia a seguir ir trabalhar. Que quem ganha 432 vai passar a ganhar 300. E quem ganha 1500 vai ganhar 500.

O Governo anunciou hoje o que todos os estudos de académicos críticos sobre mercado laboral tinham escrito – um corte de 60% no salário dos funcionários públicos. Nos da mobilidade agora, depois em todos, é esse o argumento deste texto. 60% obviamente será o lema a aplicar aos trabalhadores do privado e às reformas. Recordo um dado técnico – o salário do funcionalismo público na Europa ocidental é um regulador de todo o salário nacional (e reformas).

Digo-o agora com a mesma certeza que disse que os salários iam cair abaixo do mínimo: sem uma revolta social, sem um conflito corajoso, isto é o princípio de uma vida que se resumirá a comer frango de aviário, ficar preso às terras ou ao bairro, sem dinheiro para transportes ou férias, beber zurrapa. Com o tempo ficaremos mais atrasados, por isso mais desinteressantes, de vistas curtas da terra ou bairro onde estamos presos, até menos inteligentes, porque a inteligência é um talento que precisa de ser regado todos os dias. Com alguns anos, estaremos mesmo mais baixos, com olhos encovados como quem tem pouca proteína e falta de ferro. Mais feios por isso. Mais incultos, mais infelizes e claro, mais brutos… Este país era pobre, e por isso feio, baixo, atarracado, com bócio endémico, atraso mental e outras maleitas. E triste, muito triste, antes do 25 de abril. Por mais duro que seja ler estas palavras a verdade é que sair da pobreza com dignidade é um conto de fadas, que só existe na mesma escala em que se fica rico vindo de uma origem pobre. Quase zero portanto.

Espera-nos a coragem ou estaremos todos num gueto daqui a uma meia dúzia de anos, Portugal será um gigante bairro  social. O nome dado aos lugares onde a sociedade abdicou de ser social e onde tantos lutam diariamente, desesperadamente, para se manterem humanizados, contra a barbárie da pobreza.

Excepto para aqueles, meia dúzia de intelectuais, que fartos, fugirem, como fizeram e bem em 1950-60-70, sabendo eles que uma sociedade pode entrar numa vertigem de retrocesso social por décadas.

Se isto for para a frente a direita fez o que lhe estava na alma, a culpa será por isso também da esquerda, e  de quem alimentou a ideia de que isto ia lá sem conflitos radicais. E claro, a culpa será também individual. De quem tem tanto medo de viver que acabará com medo na mesma, só que despojado de tudo, da vida, da dignidade, da felicidade, da possibilidade de ser melhor, de ver os filhos serem melhores. Sobrar-lhes-á o medo, nada mais.

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63 respostas a Corte de salário a 60%. Portugal será um gigantesco bairro social?

  1. Graza diz:

    Querida Raquel! – permite-me o tratamento e o sublinhado – (…) “Se isto for para a frente a direita fez o que lhe estava na alma, a culpa será por isso também da esquerda, e de quem alimentou a ideia de que isto ia lá sem conflitos radicais. E claro, a culpa será também individual. De quem tem tanto medo de viver que acabará com medo na mesma, só que despojado de tudo, da vida, da dignidade, da felicidade, da possibilidade de ser melhor, de ver os filhos serem melhores. Sobrar-lhes-á o medo, nada mais.”

    Vamos ter que escrever isto por aí em letras garrafais para ver se acordam. Têm tanto medo do radicalismo que outros lhes perderam o respeito e o medo e acabam por estar a provar o veneno da sua inação. Dizes bem: “Sobrar-lhes-á o medo, nada mais.” Tens razão: virão garbosamente para a rua, mas cheios de medo. Prepararam-se para tudo, menos para o medo.

    • Raquel Varela diz:

      Prepararam-se para tudo, menos para o medo…é isso, querido Graza.

    • libertaria diz:

      Cara Raquel,

      Raras vezes concordo tanto com o que escreve como agora.
      Só queria lembrar uma coisa a quem lê este post com algum entusiasmo, como eu.
      Adoptar esta postura é assumir uma declaração de guerra.
      Não só contra a “direita” – porque não se trata de uma batalha eleitoral – mas também contra a esquerda (ou pelo menos a sua expressão institucional e mediática): contra todos os sectores da sociedade que concorrem para a manutenção do status quo, da miséria. Incluindo a oposição interna ao regime.

      Estamos prontos nós? os que temos filhos, os que trabalhamos tanto que não nos sobra espaço para conversar e pensar? os que ainda temos um quarto numa casinha calma partilhada com amigos ou namorados? os que conseguimos ir para a praia no verão? os que bebemos uns copos à noite na rua enquanto nos rimos divertidos e cínicos dos insultos e violências repetidas diariamente contra todos nós?
      Estamos prontos a trocar um presente de confortável mediocridade que conhecemos por um futuro de incerteza, aventura e desconhecido?

      Estaremos prontos para organizar entre os próximos a autonomia: a produção e a distribuição dos bens básicos essenciais à nossa vida? a saúde de todos? a educação? Se achamos que sim, se alguém tem um plano que pode resultar (se houver mil planos, experimentemos todos, há braços que sobram), então está na hora de avançar!
      Vamos sair à rua com pedras, paus e facas do pão, bloquear tudo, barricar as ruas, destruir os bancos, cortar as auto-estradas e pontes, ocupar as emissões televisivas, assegurar a distribuição de electricidade, juntarmo-nos em grupos para defender os mais fracos, roubar as armas dos que insistirem em ficar do lado dos poderosos…

      Acabar garantida e definitivamente com o Poder centralizado e exercido na vertical de baixo para cima para o distribuir aos bocados pelas ruas, pelos bairros, pelas comissões de trabalhadores, pelos pares de namorados, pelas escolas, pelas assembleias, pelos individualistas e dissidentes, pelas cantinas cooperativas, pelos hospitais.

      Vão ser uns dias duros sem dormir, umas semanas sem tomar banho, uns meses sem saber exactamente o que será o dia seguinte, um par de anos de vida extrema e cansaço, mas no final disso, no mínimo, seremos outras pessoas, a história contar-se-há de maneira diferente, poderemos olhar para esta terra como um lugar feito por nós (numa experiência colectiva e numa aventura), para a Europa não como um cangalheiro decrépito e moribundo, mas como um lugar de experimentalismo de ideias e práticas, de mudança, de evolução e de humanidade.

    • Os ordenados tem ser aumentados para a melhoramento dos condições de vida e dos condições de trabalho aos trabalhadores e aos todas as pessoas o que está a viver e que esta a trabalhar em Portugal, pois os funcionários portugueses, que tem grande poder, da Comissão da União Europeia tem tratar este assunto muito importante para a desenvolvimento e crescimento da Economia Portuguesa.

  2. isbel santos diz:

    Esta tudo dito….. estou numa tristeza agonizante. So quem viveu o passado negro do antes 25 de Abril, sabe o que significam, os dias que estamos a viver. Porque estao todos tao calados? Havera, assim tantos ricos? Ou as pessoas, simplesmente se estao a ajoelhar, perante estes carrascos? Vamos para a RUA!

    • Raquel Varela diz:

      Mas ainda estamos a tempo Isabel!

    • Mafalda Dias diz:

      Estamos a tempo mas está tudo calado! Eu também tenho medo do futuro, tenho 24 anos, sou precária mas ainda tenho trabalho (por enquanto)… Tenho medo não por mim num futuro próximo mas temo por este país onde quero viver, ser feliz e morrer. Não tenho medo de ser pobre, não quero é viver ajoelhada, e isso é que não! Mas há um silêncio ensurdecedor… Vivemos a proletarização da classe média e está tudo calado… Trabalho na baixa…a miséria aumenta de dia para dia! Cada vez mais pedintes, cada vez mais gente a dormir na rua! Tristeza nas pessoas que passam. Cresci num país sem fome, e hoje vivo num país onde existe a fome. Não foi isto que sonhei para o meu país. E este silencio é ensurdecedor! Quando é que nos vamos levantar, como um todo, como um povo que somos?

    • Graza diz:

      É um misto de muita coisa Isbel, mas sobretudo esta nossa dificuldade de pensar autonomamente. Já vem lá de trás e ficou patente com o desaparecimento de D. Sebastião. Substituímo-lo sempre por uma outra coisa, agora são os por partidos. Sem eles dizerem, não avançamos. Um dia destes lá estaremos enfileirados e obedientes que eles hão-de prover qualquer coisa. Temos uma enorme dificuldade em arriscar por nós próprios, medo de decidir diferente do vizinho. Fazemos do censo comum o nosso pensamento, com medo de ficar nus na praça.
      Enquanto não vamos para a rua, mantem a tua inquietude para não soçobrares também, e vai divulgando os pensamentos e os escritos como este que nos possam fazer sair disto.
      Saudações revolucionárias!

      • João diz:

        Graza, num tempo em que todos somos poucos, desperdiçar munições é um erro estratégico que se pagará caríssimo. A ideia, generosa mas ingénua, de que podemos avançar sem um projecto, sem uma ideologia, sem um propósito e sem que estejam criadas condições objectivas para tal efeito, será o mesmo que avançar com paus e pedras contra canhões e blindados. Venceremos quando nos predispusermos a rasgar todo o preconceito e a alicerçar a nossa acção em propostras concretas, venham elas de partidos, de movimentos ou forças sociais de outra natureza. E já agora quanto “aos partidos”, esse tratamento de homogeneização só favorece quem quer amalgamar a realidade sob um único manto disforme e opaco.

      • João diz:

        Só para não deixar passar a coisa em claro: cá veio este triste fim-de-semana de Setembro, confirmar tudo o que eu sugeri no meu comentário anterior.

  3. Gambino diz:

    Infelizmente, parece que merecemos tudo aquilo com que a escumalha neoliberal nos pretende brindar.
    Um povo que demonstra a sua indignação em passeatas ordeiras e diz, orgulhoso, que não parte uma montra só merece chicote. Um povo que é alvo de medidas de empobrecimento generalizado, às mãos de um governo que serve meramente a elite financeira, e que acha que o Verão é para ir para a praia e não para manifestações merece que o tratem como o escravo que é.
    Enquanto esperamos que a nossa indignação transbordante abra o coração dos nossos algozes e esquecemos que mesmo a resistência passiva pressupõe levar uns tabefes, os nossos governantes agradecem à providência terem sido colocados à cabeça de um rebanho de cabras que marcha alegremente, ainda que carregada de indignação, para o matadouro.

    • Nascimento diz:

      100% ,certeiro mesmo…mas, sempre fomos assim.Aliás,basta haver uma pedra no ar, e a nossa estimada esquerda da treta, foge a demarcar-se. O que a malta gosta mesmo,é dumas manifs,e no fim contar os presentes.
      Em França, por exemplo,em certas regiões( Bretanha), fecham-se salas de aulas, amontoam-se crianças do pré escolar.Como se faz actualmente no nosso ensino publico.
      Sabem o que é que os pais fazem?Nem precisam dos sindicatos,aliás, estes aparecem depois….OCUPAM A ESCOLA E MONTAM TENDA!!!E não há aulas pra ninguém, até o caso se resolver,é vê-los, directores regionais e outros manhosos do regime .Parecem umas baratas tontas…..isto é só um exemplo.E já agora, a policia aparece, empurra, ameaça,mas,tá bem abelha…até porque, quem se mete com putos sai cagado,né???

    • Filipe diz:

      eu com orgulho não parto montras… shhhh fale mais baixo…

  4. Rocha diz:

    Será isso tudo e muito mais com repressão fascista e regresso ao estatuto de colónia. Não é só por essa medida mas por todas no seu conjunto e todas as que ainda não anunciaram mas já estão na manga e sobretudo pela auto-confiança de uma entidade imperialista que permanece impune.

    Eu também sinto que não há já nada a perder e que se se devia contra-atacar com as forças todas e com objectivos revolucionários rompendo com todas as ilusões de melhoramento do regime democrático-burguês ou de regresso ao cumprimento de uma constituição progressista que na prática é irrelevante. Não são os papéis que mandam no país mas sim as armas!

    E a verdade é que esta ideia que não há nada a perder e que devemos atacar este regime oligárquico com todas as armas que temos à mão está muito mais generalizada do que certos personagens filhos do revisionismo pós-soviético (a velha desculpa para estar à defensiva) querem admitir.

  5. Luis Moreira diz:

    Mas onde é que está o corte de 60% nos salários? Esqueceu-se em que situação.

    • Raquel Varela diz:

      O que eu argumento no texto é que todos isto vai acontecer a todos os salários, todos. Infelizmente estarei cá dentro de pouco tempo para saber se acertei. Ja Agora, o salário real dos portugueses desde a Troika já caiu 30%. Cump

      • Raquel Varela diz:

        Lamento os erros, estou num teclado estrangeiro…

      • David Fernandes diz:

        Sim, sim, pois, bla, bla, mas e o número 60 vem de onde? Segue-se o link que fornece e vamos para a um artigo do DN onde diz o mesmo sem nada esclarecer: 60%. De onde vem o número?

  6. JgMenos diz:

    Nada como um ‘conflito radical’ para pôr as coisa no seu lugar!
    Vamos a isso Raquel, e já!
    Estou cheio desta lenga-lenga de que há outra via!
    Apareçam os obreiros dessa via, e já!
    Ou vão pregar a outra freguesia…

  7. E claro que nada melhor para acabar com o medo do que fazer as pessoas crer que se trata de um corte geral e indiscriminado ao salário de todos os funcionários públicos quando, obviamente, não é de todo disso que se trata.
    Mas afinal não é só à direita que interessa manter o povo ignorante…

    • Raquel Varela diz:

      Pedro Cadeira, o que eu argumento no texto é que todos isto vai acontecer a todos os salários, todos. Infelizmente estarei cá dentro de pouco tempo para saber se acertei. Ja Agora, o salário real dos portugueses desde a Troika já caiu 30%. Cump

      • henrique pereira dos santos diz:

        Venham de lá as fontes de onde tirou esse número de queda de 30% nos salários reais desde a troika. Onde aconteceu qualquer coisa parecido (mais de 40%) foi na Islândia, não foi aqui. Aqui quase duplicou a taxa de poupança das famílias, desde 2008, apesar de uma perda relativamente marginal dos rendimentos (escusa de vir com os desempregados, que têm o seu peso nessa perda de rendimentos, claro, especialmente os de mais longa duração, porque os desempregados não ficam sem rendimentos, sendo que até às últimas alterações até ficavam com rendimentos semelhantes aos que tinham, porque a remuneração baixava mas a isenção de impostos e contribuições repunha o poder de compra).
        henrique pereira dos santos

        • Raquel Varela diz:

          Bom dia, caro Henrique,
          Nos cálculos do Indíce do Custo Unitário do Trabalho desde do iníco do empréstimo, como sabe massa salarial inclui impostos, costes no salário social (saúde, escola, seg social), na qualidade dos mesmos (se aumenta o número de alunos ou a qualidade da saúde cai o salário social real e sobretudo na variável salário mais horas trabalhadas mais aumento do número de tarefas. Na verdade 30% fica abaixo da real queda da massa salarial. Sobre a dramática queda do ICT ver o INE.

          • henrique pereira dos santos diz:

            Percebo. Por exemplo, se a TSU deixasse de existir, isso significaria uma diminuição do custo unitário do trabalho brutal. Mas ao mesmo tempo, uma aumento real de rendimento, embora moderado. A Raquel pelos vistos equivale custo do trabalho a rendimento. Estou esclarecido quanto à qualidade de análise. Não tenho é a certeza de que toda a gente considere o que desconta para o Estado, mais o que desconta o patrão para o Estado, como um rendimento seu. Quanto ao outro comentário, foi censurado. Faz sentido.

      • Nascimento diz:

        Ai acerta,acerta….parece é haver pessoas, que ainda não viram o filme.Custa-lhes a acreditar que tal seja possível na era da net.
        Mas como dizia o outro: há muitas maneiras de matar pulgas!!Daqui a um aninho,vai ser GREGO ou pior, e,nos fim, fomos todos tão em comportados!!!que o digam os opinadores,que, desde o inicio desta crise, têm cantado loas á CGT ,ao PCP,até mesmo ao Bloco,por “enquadrar”, tão bem a malta.
        Veja-se a ultima manif,em frente a Belém…foram todos manifestar-se para os PASTEIS DE BELÉM…mas, pró lado dos Jerónimos….foi lindo!!!O palhaço lá conseguiu beber o chá das 5, mais a ladra dos presépios.

  8. imbondeiro diz:

    Isso que a Raquel Varela aqui muito bem escreve, já eu penso e digo, passe a imodéstia, há muito tempo. Quando, há uns anos – não muitos – o afirmava de viva voz em grupos de amigos ou de colegas de trabalho, toda a gente ficava a olhar para mim como se para um marciano acabadinho de chegar do seu planeta olhasse. E, agora, aqui chegados, penso que essa boa gente já não verá essas minhas explosões de prospectiva indignação como simples devaneios de um lunático. Não há como a dura realidade sofrida na pele para convencer as pessoas. Sofrida na própria pele, pois, como diz o ditado, “Pimenta na vista do outro é refresco”. O pior é que, quando a rapaziada tentar esboçar o mínimo gesto de revolta, vai ser tarde: o grosso da população deste país não comparecerá à chamada de tão ocupada que estará a desencantar uma mísera côdea de duro pão que seja para enganar a fome aos filhos. Saúde? Educação? Cultura? Direito a uma vida minimamente decente? Nada disso contará quando o que estiver em jogo for a existência ou a inexistência do almoço do dia seguinte. E, aí sim, o círculo que alguns querem ver fechado fechar-se-á deveras, e poderemos ver e ouvir, novamente e desta vez a cores, o bom “pater familias” luso orgulhosamente afirmar “A minha política é o trabalho!” Não faltará, certamente, o Benfica aos Domingos e a porradinha de criar bicho no coiro de mulher e filhos, caso o goleador de serviço esteja em dia não. Numa simples frase: sonho dos Joâo César das Neves desta vida tornado realidade. Que bom que vai ser!

  9. Mário J Heleno diz:

    Mais que o medo em ir à luta predomina o desinteresse/alheamento. Claro que o desinteresse dos outros pelas nossas propostas/concepções/perspectivas é difícil de digerir ( não conseguimos demonstrar-lhes a nossa razão, ou sequer chegar até eles) , enquanto que considerar os outros medrosos é auto-elogioso ( eles sabem que temos razão, não são é corajosos como nós ), mas reduzir ao medo a apatia generalizada não me parece nem lúcido nem eficaz.

  10. «Não Temos Medo!!!» diz:

    «Não Fazemos Parte de uma Coutada!!!»

    A nossa «Resistência» é a «Palavra de Ordem».

    Já para a RUA!!!

  11. Miguel Cabrita diz:

    O seu mmmmmmmm na sala de há seis meses é de audiência amiga. Em 2007 dizer que caminhavamos em direcção ao buraco dava direito a no minimo ser epitetado de zandinga ou profeta da desgraça. 5 anos passaram, a política de assalto foi assumida, mas ainda há quem tenha dúvidas, dizer hoje que sim, que tudo está a correr bem e conforme o planeado, levanta dúvidas, mmmmmmmmmmmmm.

  12. lj diz:

    As pessoas (muito particularmente as da FP) andam a votar no PS, PSD e CDS, há 38 anos e agora vêm-se queixar? Outro aspecto é que só vejo as pessoas (muito particularmente as da FP) a queixarem-se quando a crise os começa a afectar, até aí assistem impávidos e serenos aos cortes nas reformas, RSI e sub. de desemprego. Sabe o que lhe digo? Agora que se fod*#*#… “Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, calei-me. Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, não protestei. Então, vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, calei-me. Então, eles vieram buscar os católicos e, como eu era protestante, calei-me. Então, quando me vieram buscar… Já não havia ninguém para protestar. – Martin Niemoller

  13. Herberto diz:

    Vamos ser um país feio e triste, como fomos antes do 25 de Abril. É verdade. Já estamos a ser.
    Julgo que já é tempo de outra manifestação de protesto, mas sem narizes de palhaço.

    • David Fernandes diz:

      Ontem, quinta-feira, eu, um habitante de subúrbio pouco ou nada dado às noites da cidade, saí do trabalho um pouco mais tarde do que o costume e pude testemunhar, na baixa do Porto, uma tal multidão de tristeza que mal conseguia acreditar no que via. Atirei ao calhas: tudo malta muito progressista que até simpatiza com blocos e que tais. Groovy!

  14. Natália Santos diz:

    O que escreveram é tão sinistro como os discursos oficiais. Sempre todos a malhar no povo, no qual não se revêem e o qual desprezam. Não sei qual é a solução, mas não passa por vós, pelo menos com essa atitude.
    Afinal de onde vos vem a superioridade ? Vivem a vida do povo, só que em melhor. Mais acesso à educação, melhores salários, posições de família que não são recusadas etc.

    Estão de fora a olhar para dentro, de cima a olhar para baixo, mas não estão cá, não estão aqui.

  15. Martinho diz:

    Credo! Portugal vai acabar transformado na Coreia do Norte ou numa ex-república soviética!

    • Herberto diz:

      Pode também acabar como os Estados Unidos da América, onde 20% dos adultos não têm como e onde comer. Esta coisa de olhar para a Coreia do Norte e ex-República Soviética como exemplos de miséria é estranho. Porque não se fala de outros casos, como em alguns países da América Latina ou em África? Enfim, será um caso para o detective Colombo esclarecer.

      • Estranho que a maioria dos pobres nos EUA sejam obesos. Deve ser por não terem o que comer…

        • Herberto diz:

          Obesidade é uma doença, meu caro.

        • imbondeiro diz:

          Essa sua afirmação é, em si própria, uma insanável contradição: os pobres… são obesos. E a contradição não está na clara evidência de muitíssimos deles, desses pobres, serem, efectivamente, obesos mórbidos. A contradição está na subliminar mensagem de que esses pobres têm dinheiro para comer de forma saudável e opípara. Não têm. O que eles comem é aquilo que está ao alcance da sua magríssima carteira de desapossados da sociedade: tóxica comida de plástico. Todos os dias. Trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Essa mesma comida de plástico que é um lixo gastronómico que os manterá vivos e obesos a curto prazo, mas que inexoravelmente os matará a médio e a longo prazo. Os outros, a minoria constituída pelos muito ricos e pelos milionários, não vai ao MacDonalds nem ao KFC: vai às lojas “gourmet”, contrata dietistas, faz o seu “jogging” matinal, tem um “personal trainer”, tem bons seguros de saúde e, consequentemente, é magra, com bom aspecto, “sexy” e terá uma longa vida.

      • Eu ganho mais de 2 salários mínimos. Um pobre a viver do wellfare nos EUA ganha mais que eu.

        • imbondeiro diz:

          Ganha mais do que o senhor e, pelos padrões de custo de vida lá do país, vive na miséria. Foi só isso que o senhor se esqueceu de dizer. Aliás, “viver” do “wellfare” é exactamente isso que significa. Também, humildemente, o aconselho ( e conselhos segue-os quem os quer seguir, como é óbvio ) a estudar mais a fundo o que é a “segurança social” e a “assistência na saúde” na pátria de Abraham Lincoln. Vai ver que esse seu entusiasmo se transformará, num ápice, num esgar de puro horror. Um último dado lhe deixo: na fronteira dos EUA com o Canadá, existe uma epidemia de cidadãos estado-unidenses que movem terra e céus para terem a oportunidade de se casar com um cidadão canadiano. Sabe porquê? Por uma única razão: com a cidadania canadiana obtida pelo matrimóno vem o automático acesso à assistência na doença e no desemprego que o Estado Canadiano disponibiliza aos seus nacionais. Dá que pensar, não dá?

  16. JgMenos diz:

    Isto vai ficar pouco interessante!
    Esta selectividade, de ora uns ora outros irem vendo o empobrecimento a aparecer, diminui a solidariedade de classe e dificulta a Luta.
    Bom mesmo era sair do euro. A cada desvalorização da moeda tinha-mos as lutas por aumentos de salários, as greves dos transportes, e todas as regeneradoras lutas onde se constrói a unidade na acção.
    A miséria seria maior, mais duradoura e para mais gente, mas a Revolução avançava, e a sua vanguarda viveria em permanente exaltação, o que é essencial!

    • Herberto diz:

      Isso, o senhor já disse e esclareceu no seu blog “A Chispa”. Só uma pergunta: para quê o disfarce com o nome de JgMenos?

  17. HMagalhães diz:

    Odeio ouvir falar em culpa, conceito bem ao jeito da moral judaico-cristã em que nos fizeram e nos fizemos!
    A Direita, esta direita que é igual a todas as direitas de sempre, com as suas flexibilidades táticas, quer o mesmo de sempre: roubar o mais que pode a quem trabalha e a quem trabalhou. É o que sempre fez e fará. E só o movimento organizado dos trabalhadores é que poderá inverter a situação. Mas estamos longe dessa resposta organizada. Longe? às vezes temos surpresas! O que falta saber é se seremos capazes de ter resposta para esse tempo, que tanto pode vir a breve trecho, como daqui a anos, Se teremos a coragem, a sagueza e a capacidade de avançar.
    Mas meus caros, as respostas fazem-se com as pessoas quie existem, não com “aquelas” ideais, que não existem. As respostas fazem-se organizando pacientemente, humildemente, demonstrando mas ouvindo, explicando mas percebendo! Ou como dizia um “teórico” que trabalhou para uma revolução, que foi vitoriosa, é preciso estar ligado umbilicalmente às massas populares e estar dotado de uma teoria revolucionária que responda ao tempo e momento concreto que se vive. O resto é palha para encher chouriços, que por tal razão nunca prestarão para nada!

  18. PL diz:

    Dentro de 15 dias temos eleições. Aquele dia em que todos podemos colocar uma cruz num boletim de voto e participar na escolha das políticas que defendemos.
    Pela lógica da Raquel, não vejo como será possível que CDU+BE não tenham 2/3 ou 3/4 dos votos. Cá estarei para verificar essa votação no próximo dia 29.

  19. Paulo Jorge diz:

    E o conflito é possível?
    Aquilo que mais me confrange é um certo fatalismo que existe neste “ser português”. As coisas são como são. A instituição do caos deu lugar à autoridade. Há mais decisão do que discussão. Já ultrapassámos todos os limites do razoável e permanecemos como a rã a aquecer em lume brando… Há muito que “chocamos os ovos dos outros”, Já nos retraímos no essencial. A mentira e a vergonha (ou falta dela) são coisas “naturais”. Já não há moral. Já vivemos de forma indigna, porque já vivemos mentalmente encarcerados.
    Veja-se os cortes. Em nome de quê? Duma suposta igualdade, claro! Corta-se para se ser justo, para repôr a igualdade… A direita usa este discurso socializante, mais como elemento de retórica do que como princípio/valor. Mas a falta de ética já é tal que não se percebe até onde é que vai a nossa tolerância e capacidade de sobrevivência…
    A esquerda nunca ganhou em Portugal. Nunca governou. Tenho pena, mas é assim. O centrão é um vazio ideológico. Alguma vez serão capazes de ganhar? Há espaço para a revolta? Acho que enquanto o “português” lidar bem com a pequena imoralidade, com o jeitinho, com o informal… jamais serão bem sucedidos. Enquanto não perceberem que a fragilidade humana cria disfunções nos sistemas – esta tese Smithiana de que o dinheiro português na Holanda é bom para o interesse nacional – continuaremos a chocar os ovos dos outros na mira de que será bom para nós.

    • HMagalhães diz:

      O “centrão” não é nem nunca foi um vazio ideológico! O “centrão” é a expressão orgânica possível da Burguesia Portuguesa no pós 25 de Novembro. Hoje já é menos “centrista”, amanhã poderá voltar ao fascismo, como poderá abraçar a social-democracia, tudo dependerá das circunstâncias. O que foi, é e será sempre uma constante é a sua vontade indómita de não perder o Poder de Estado! E as mais valias que rouba aos trabalhadores!!!!!!!

    • Rafael Ortega diz:

      A esquerda tentou governar pela força nos idos de 75. Na altura não correu bem.

      Agora governa com os sindicatos, as associações de utentes, a comunicação social, e mais recentemente o tribunal constitucional.

      Qualquer medida que a esquerda veja com maus olhos (avaliação dos professores, por exemplo) nunca chega a lado nenhum porque é sabotada.

      Isso da esquerda nunca ter governado é como a velocidade, é relativo. Eu acho que a esquerda governou sempre, porque do PCP ao CDS a diferença é o grau mais ou menos radical com que defendem o socialismo. já o caro amigo acha que nunca governou. Depende do observador.

      • Paulo Jorge diz:

        … e do que cada um entende como esquerda e do que cada um entende por “governar” 🙂

      • Exactamente caro Rafael, a grande maioria das políticas implementadas em Portugal e na Europa tem uma matriz claramente Socialista. E não esquecer que muito do rendimento perdido pelos trabalhadores foi parar ao Estado. Se os trabalhadores querem ganhar dinheiro, o estado deverá ser mínimo.

        • Khe Sanh diz:

          ” Se os trabalhadores querem ganhar dinheiro, o estado deverá ser mínimo.”

          A modos, como no Bangladesh. Não se apresse que para lá caminhamos.

      • Khe Sanh diz:

        Isso mesmo; os juízes que fazem parte do T C foram nomeados por o PCP e BE.

        São os sindicatos que fazem e impõem as leis?
        A comunicação social está toda debaixo da pata dos partidos de esquerda. Até porque o Avante é o jornal com maiores tiragens.

        Um observador colocado no lugar do Ortega de certeza que só consegue vislumbrar Salazar e hordas de fascistas preparados para assaltar o poder.

  20. Zé Carioca diz:

    Com que então julgavam que o voto era gratuíto? Os milhões de eleitores portugueses, autenticos analfabetos politicos, que elegeram as “castas destruidoras” que nos governaram e governam ainda agora, não se sentem culpados? Então entregaram o “ouro” aos ladrões e agora ai Jesus que estou roubado? E só o último ladrão é que conta? E não é suposto estar alguém em Belém, pois…é igualito, e está reformado.

  21. Zé Carioca diz:

    E já agora sempre a mesma discussão de esquerda e direita, que se lixem ambas, o que nós precisamos é de gente SÉRIA E COMPETENTE (não é de competir é mesmo de saber).

    • Herberto diz:

      Tenho uma vizinha no meu bairro que diz a mesma coisa que o senhor e que no próximo dia 29 vai votar num dos partidos da direita. Estranho, não é?

  22. PBarros diz:

    Simplesmente assustadora e cruel a análise/previsão da Raquel Varela para o nosso país. Infelizmente, a ação governativa e a nossa história estão-lhe a dar razão.
    Estamos cegos por ainda não nos termos revoltado a sério. Somos culpados em parte do que nos vier a acontecer. Somos egoistas, só olhamos para o nosso umbigo. O país a esvaziar-se, jovens talentosos a emigrar, a demografia baixissima, o desemprego crescente. Tudo a desmoraronar-se. E ainda não fomos capazes de uma rebelião a “sério”. Cegos, egoístas, individualistas que somos!

    • imbondeiro diz:

      O caro PBarros tocou no ponto. Isto de os culpados serem sempre “os outros” é coisa que, neste país, é multissecular. Mas há uma outra coisa que aqui também é velha de séculos: a inveja. Que dizer do vizinho da professora que, subitamente, se viu no desemprego, vizinho esse que mal pode esconder o seu sorriso de contentamento pela desgraça alheia? Que dizer daqueles que se congratulam por ver aqueles que, outrora, viveram com desafogo passarem a mais negra das misérias? Que dizer dessa gente? Que há a dizer desse singular e generalizado conceito de “justiça”, muito próprio de muita gente deste país, que acha que justiça não é elevar os padrões de vida dos pobres, mas sim condenar aqueles que não eram pobres à mais sórdida miséria? Há gente que não come? Pois, pelos padrões dessa boa gente, o que há a fazer é pôr os poucos que vão comendo a passar fome. É desta estupidez atávica e alarve que se alimenta a desgraça colectiva. Dessa estupidez e da inata queda deste nosso povo para a imediata e fácil “solução” do apontar do conveniente bode expiatório para o absentismo intelectual, cívico e político da grei. Foi assim que o inenarrável Passos Coelho ( mais a sua pandilha ) chegou ao “pote”: apontou um “culpado” das desgraças do país – o anti-Cristo Sócrates – e a malta mordeu o isco, pois era fácil, rápido e não era necessária a maçada de pensar. O que a malta se esqueceu de ler foram as letras pequeninas do programa político do Messias de Massamá… A malta, a ler alguma coisa, só lê as “gordas” do “Correio da Manhã” … E não faltaram, para compor o ramalhete, as pinceladas de parolo nacionalismo: não, nós não somos a Grécia!!! Pois não, concordo eu: já a Grécia havia há muito criado a matriz da cultura ocidental, ainda andavam os nossos antepassados a atirar carne crua à tromba uns dos outros. E a parolice de laivos nacionaleiros continua a ser a pródiga banha da cobra com que este grupo de mentecaptos que nos governa engoda a estupidez nacional: de um momento para o outro, transformámo-nos numa “potência exportadora”. Ah valentes, assim é que se mostra a raça e a fibra de um povo! E a malta engole a patranha, cheia de fé na incontível gula do Mundo pelo azeite nacional e pelas alheiras de Mirandela, enquanto uma simples e mais do que evidente questão nem sequer lhe passa pela cabeça: como é que um país que não conseguiu competir num limitado mercado como o da UE vai agora conseguir competir num mercado gigantesco que é o inteiro Mundo? Mas se a malta não se questiona, também, a julgar pela sua bovina passividade, não vê: não vê a sangria de gente qualificada que, todos os dias, se põe a andar daqui para fora; não vê a miserável taxa de natalidade deste país; não vê o envelhecimento brutal da população nacional; não vê os negócios a falirem; não vê os prédios vazios; não vê as crianças e os jovens a chegarem à escola cheios de frio e cheios de fome. A malta não vê. Pior: a malta não vê que não vê. Quando abrir os olhos ( se alguma vez o fizer ) vai ser tarde. Muito tarde.

  23. rui bento diz:

    Cara Raquel, para além da inteligência, do realismo e da lucidez política tão inspiradores, há uma imensa sensibilidade e afecto neste texto. Resta-me concluir mais uma vez que estamos do lado certo da barricada. Obrigado.

  24. Pingback: Corte de salário a 60%. Portugal será um gigantesco bairro social?

  25. Silva diz:

    Raquel, admito a sua realidade, mas cá para nós, após o resultado destas ultimas eleições parece-me que ainda não estamos ao nível de a entendermos. bora tuga ber o big brother

  26. Juliano Valente diz:

    Quer deixar aqui o meu bem haja por este texto que de facto tem tudo a ver com um pensamento que se está a tornar muito comum no nosso povo. Hoje temos todos uma responsabilidade que é tornar mas forte a nossa nação e não deixar que meia dúzia de pessoas governam e opinam sobre aquilo que tem de ser o nosso futuro sem mesmo saber o que estão a fazer.
    Embora queira aqui também efectuar uma pequena correcção: os salários não irão ser cortados em 60%, mas sim o seu valor que não poderá ir além de 60% do indexante de calculo, pois o objectivo foi sempre cortar 40% aos salários além dos 1300€ mensais (melhor dizendo ao valor superior aos 1000€) afim de ter salários nunca superiores aos 1000€ mensais. O problema nunca será só o baixo valor que se dá a força laboral portuguesa, (que também sabemos ser com esforço tão boa ou até melhor que a mão de obra qualificada de qualquer outro país desenvolvido), mas sim a falta de seriedade como é tratada essa mesma força, pois tentam fazer acreditar que o que se ganha é suficiente para viver bem, mas na realidade, o custo dos produtos e serviços são extremamente elevados relativamente ao verdadeiro poder de compra. Pior é que os nosso (des)governantes pedem para que haja mais consumo pois senão não conseguem pagar a divida que eles proprios criaram, quando roubaram a riqueza de um povo que nunca se queixou e sempre acreditou…

    Por isso, acredito que sim, temos de fazer, temos de mexer, temos de dizer… Temos de “acontecer”… Pois só um “acontecimento forte” é que poderá alterar o (des)rumo do nosso país!

    Muito obrigado pelo seu texto!

  27. LB diz:


    O medo vai ter tudo
    quase tudo
    e cada um por seu caminho
    havemos todos de chegar
    quase todos
    a ratos
    Sim
    a ratos

    Alexandre O’Neill, O Poema Pouco Original do Medo

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