O «outro» como inimigo

Há pouco tempo estive no Brasil na casa de uns amigos, cuja empregada, da favela Rocinha, disse-me com naturalidade que tinha 3 filhos, um era um órfão da favela que ela em conversa comigo dizia ter ficado com ele, como alguém fala da ida ao cinema. Ver o facebook cheio de notícias sobre uma criança de 8 anos violada, com o consentimento dos pais, do Iemen, do atraso, da barbárie e mais umas descrições de vomitar sobre o animal que a violou e sei lá mais que galeria de horrores, serve para quê?
O impacto desse tipo de notícia é meter-nos medo do próximo, ver no outro a barbárie e pensar que isto é uma sociedade de lobos que se comem vivos até à medula. Ora não é. Por cada animal destes há milhões de pais todos os dias a trabalhar de sol a sol para dar o melhor aos seus filhos, há crianças abandonadas resgatadas pelos vizinhos, há pais em Portugal – retrato das ONGs – a não comer à noite para deixar para os seus filhos.
É mau ignorar a verdade mas é péssimo fazer do horror excepcional o padrão. O «outro» pode ser um bárbaro mas em princípio é alguém que ou não nos faz mal ou nos lança uma mão. E quando as televisões o fazem sabem a mensagem que estão a passar: não se mexam que isto é tão mau connosco (Estado) imaginem sem nós!

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2 respostas a O «outro» como inimigo

  1. JgMenos diz:

    Enfim uma luz…
    Efémera!
    À primeira notícia de bondade, logo os analistas diriam que tal acontece porque o Estado não cumpre o seu dever, porque o PM disse ou não disse, e que se há infelicidade no mundo há que encontrar um culpado.
    Porque é sempre disso que se trata, encontrar culpados!
    Deve haver uma qualquer teoria do pecado na base deste romance.

  2. J diz:

    obrigado Raquel, é tão difícil desmontar a super estrutura

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