Beatriz Quintella, 50 anos

Há uns anos um filho meu foi operado na Estefânia a uma coisa sem gravidade mas que implicava anestesia geral. Ele, pequeno, estava ansioso com o aparato (macas, enfermeiros, etc), tinha 3 anos, e o palhaço perguntou-lhe como se chamava, ele disse David. E o palhaço: cabide? Ele ficou irritado, David!, já disse. O palhaço: pevide? Ele cada vez mais irritado: sou o David!! A troca de galhardetes continuou e o David entrou na sala de operações com um nariz vermelho na mão, sem ligar nenhuma ao que se passava à volta concentrado no palhaço que fez pouco do nome dele. Quando ele entrou e eu, classicamente, me desfiz em lágrimas o palhaço encheu-me de abraços. Não é nada de especial, é uma pequena história da nossa vida, sem importância, mas num ambiente hospitalar pode fazer toda a diferença. É o princípio de cooperação social que diz que quando alguém está mal deve receber mais, porque todos, mais cedo ou mais tarde, temos momentos de fragilidade. Tanta associação de caridade que por aí existe tão hipócrita e servil, que mobiliza o atraso das pessoas, a transferência de fundos públicos para grandes instituições privadas e a compra de excedentes alimentares para evitar a queda do preço dos alimentos, esta, pelo contrário, dava inteligência, abraços e sorrisos. Tão generosos e bonitos como o sorriso da sua fundadora.

«A medicina meteu as máquinas e tirou as pessoas»

«A vida é uma doença terminal que sabemos que começa e que acaba. O que importa é o que fizemos no meio»

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Morreu hoje a fundadora da Operação Nariz Vermelho, uma organização que “receita alegria às crianças hospitalizadas”, através dos Doutores Palhaços. Beatriz Quintella tinha 50 anos.

Nascida no Rio de Janeiro, a atriz vivia há duas décadas em Portugal. Em 2002 lançou oficialmente a Operação Nariz Vermelho, o culminar do seu trabalho como “Dra. Da Graça”, depois de oito anos como voluntária em vários hospitais.

A ideia surgiu em 1993, inspirada por um artigo sobre o trabalho dos Doutores Palhaços que visitavam crianças hospitalizadas nos Estados Unidos. Como não havia nada parecido em Portugal, Beatriz ofereceu-se ao Hospital D. Estefânia para levar a sua personagem de palhaço aos meninos internados.

A Operação Nariz Vermelho conta atualmente com uma equipa de 22 Doutores Palhaços e oito profissionais nos bastidores e visita cerca de 40 mil crianças por ano, segundo o site da instituição.

Beatriz Quintella dividia o seu tempo entre a organização e o grupo de teatro para crianças Planeta Maravilha. A seu pedido não haverá velório nem qualquer tipo de cerimónia, segundo informou a família.

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4 respostas a Beatriz Quintella, 50 anos

  1. Pedro Pinto diz:

    Aconteceu o mesmo com o meu, tinha um ano e pouco. Um notável trabalho, de facto…

  2. imbondeiro diz:

    É de Seres Humanos assim que precisamos cada vez mais. É uma perda irreparável ver uma Senhora desta qualidade partir tão cedo e com tanto ainda para dar. Ficam a sua obra e o seu exemplo, o que será o mesmo que dizer que fica muito. Fica muitíssimo. Obrigado.

  3. Carlos Pratas diz:

    Belo exemplo. Bela história. Tantas coisas importantes que muitas vezes passam despercebidas. Bem hajam aqueles que sabem reconhecer o seu valor e significado. Carlos

  4. Bolota diz:

    Pessoas da dimenssão de Beatriz Quintella, deviam ser eternas.

    Onde quer que esteja um grande bem hajas.

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