Podemos mandar-te dar uma volta ao bilhar grande?

A resposta é SIM.

Não queria dar-lhe palco, mas não resisto.

Por um lado, por ser doutorado em Economia da Felicidade, coisa que desconheço – temos que ser poupadinhos para sermos felizes, é isso?

Por outro lado porque há muito, demasiado tempo, que não lia um texto tão xenófobo, tão inacreditavelmente preconceituoso, tão mau.

«Na realidade, o príncipe tem nojo da gata borralheira: da forma com ela se veste, fala, pensa e actua socialmente. O príncipe quer uma princesa. Ou, pelo menos, uma tipa sofisticada…». Para este autor um benfiquista não pode amar uma portista (oh céus que 5 anos da minha vida foram ao ar), um muçulmano não pode amar um hindu (e questiona de que religião serão os filhos!!!!), um capitalista não pode amar uma comunista (oh Philip Roth anda cááááááááá)…

Mas este bocadinho, oh este bocadinho: «Em termos de classe social, como pode uma beta da Lapa se interessar por um proletário da margem sul? Vão viver aonde, comer em que restaurantes, frequentar que ambientes juntos? Por que padrão de vida se guiarão? Ele não consegue sustentar-se no nível dela. Ela nunca aceitaria descer ao dele.» Tenho para mim que uma boa luta de classes na cama não há-de ser tão má assim. Podem sempre comer em casa para ninguém ver o proletário que, claro, só os existem na margem sul, são todos feios, burros e vestem-se mal, não gostam de música nem de livros, provavelmente nem sabem ler.

E num textinho (será que se pode chamar isto?) abundam todos os preconceitos do mundo. Capacidade de síntese tem, o doutorado em economia da felicidade. Mas quanto à argumentação, falha a objectividade. Ora, de acordo com as premissas, o que importa ao amor é a estética, o gosto, a religião e a ideologia. Até poderia concordar, não fosse o doutor da felicidade económica partir do (olha!) parti-pris de que o ser humano e a sua mente são tão tacanhos que apenas conseguem amar o que é feito à sua exacta semelhança. Esse era o Deus, e deu no que deu. Já dizer que qualquer pessoa se deixa limitar por preconceitos de classe, futebolísticos, de cor e assim tornar-se incapaz de se relacionar com outrem é passar um atestado de total e absoluta inimputabilidade. Dizer que ninguém é dotado de racionalidade que lhe permita ver para além do óbvio.

Já dizia o Einstein «duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.». E eu já não lia coisa tão repugnante há muitos anos. Nem aqui na baderna do 5 dias!

Pior que criminalizar um piropo é ninguém piropar este gajo. Depois dá nisto. Proletárias da margem sul e betas da lapa uni-vos. O doutor precisa de vós.

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23 respostas a Podemos mandar-te dar uma volta ao bilhar grande?

  1. Augusto diz:

    Por acaso conhece a Lapa e já agora a Margem Sul?

    È que na Lapa vive muita gente a contar os tostões para chegar ao fim do mês, e em certos Locais da Margem Sul há dinheiro que chegue, para fazerem compras nas lojas de Luxo da Av. da Liberdade.

    Nem tudo o que parece, é.

  2. Pedro Pinto diz:

    Feio, sujo, da margem sul, proletário: check (fiz o pleno).

    • Lúcia Gomes diz:

      Parabéns Pedro! É só encontrar uma feia, suja, da margem sul e proletária que temos casório. Ao fim ao cabo isto é o dating game eu é que não disse.

  3. Rocha diz:

    Mas camarada isto não é pior que o debate sobre a criminalização do piropo, isto é igual.

    Isto é precisamente o que as feministas da UMAR não dizem mas pensam. Não têm coragem de dizer, não têm latas para dizer, mas está subjacente ao debate que fala nos trolhas para não falar em toda a população pobre e explorada (onde o piropo é comum).

    Há para aí um documentário a circular sobre Bruxelas, como forma de justificar a decisão da autarquia de aplicar multas de 250 euros por dizer supostos piropos. O que se vê no video é mais assédio do que piropo com gajos a acompanhar mulheres pela rua a pedir o numero de telemóvel ou para ir para um hotel com as mulheres que passam, como se fossem pedintes daqueles que choram muito e vão atrás de ti pedindo a esmola. Os gajos são todos pretos e magrebinos, imigrantes.

    O problema aqui é que as betas do Bloco estão mais unidas com o grande capital do que com as proletárias da margem sul. O problema aqui é que as betas do Bloco só querem uma suposta unidade com as proletárias, com a subordinação das proletárias às betas. O problema é que a luta de classes dentro das mulheres sim existe mas as betas do Bloco querem fingir que o seu alvo são os homens mal-educados e “não-civilizadados” quando na verdade o alvo são as camadas pobres e exploradas.

  4. João diz:

    Muito bom. É bom estar de férias para te poder ler com a calma que mereces.
    Tens um novo fã (para além de mim, claro). O meu pai cruzou-se com um texto que adorou e mostrou-mo. Adivinha de quem era?
    Beijinhos

  5. minigordo diz:

    e pronto, não havia necessidade. vindo da comuna da Lúcia que por ela os burgueses levavam todos guia de marcha para o estrangeiro…

  6. Pingback: Economia da imbecilidade – Aventar

  7. Joaquim Carlos Santos diz:

    Parabéns pelo post.

  8. von diz:

    Não gosto do texto em causa. Acho-o pequenino, tendo em conta a permissa com que parte. Mas ainda assim, há um lado real, e repare que não digo um lado certo, na história. Na realidade, a tendência é um casal criar-se a partir de algo comum. Ou algos. Repito: não afirmo ser o correcto. Mas atendendo à vida real, muito do que o texto diz, acontece.

  9. von diz:

    Conseguiria a escriba, a título de exemplo, ser parte de um casal em que o outro(a) fosse monárquico impedernido, ou nacionalista convicto? Ou pelo menos, acharia fácil a convivência?

    • Lúcia Gomes diz:

      Certamente que as diferenças ideológicas, de todas, poderão ser as mais complicadas. Mas os exemplos mais fáceis são os extremos. E não foi de extremos que o texto falou.

  10. RX diz:

    Depois de tanto debate seria de esperar que fosse um dado adquirido do que piropo significa:

    “palavra ou frase lisonjeira que normalmente se dirige a uma pessoa bonita; galanteio; madrigal”
    (Do castelhano piropo, «idem»)

    Piropo In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-09-04].

    E não têm o sentido negativo com que foi utilizada na famosíssima palestra!
    É que a utilização incorreta da palavra já produz bastantes equívocos…

  11. JgMenos diz:

    «…tudo se atenua se cada um não for um verdadeiro exemplar do rótulo que ostenta»
    O texto falou de extremos, que naturalmente definem a tendência.
    Tudo pode acontecer, mas seguramente que será exigida uma aproximação de padrões…e minha linda, se comeres com a boca aberta, e com os cotovelos em cima da mesa, não tens a menor hipótese!!

  12. Nascimento diz:

    Proletários? Na margem sul?Mas o bronco,não sabe que hoje em dia somos “todos” COLABORADORES!!!!

  13. Respública diz:

    Fico bastante satisfeito por haver algum bom senso por parte da Lúcia ao, na frase “pior do que criminalizar o piropo”, deixar entender que é má a criminalização do piropo.

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