Duas notas sobre uma obsessão

1. Achar um assunto estúpido e despropositado é normal. Acontece. Achar um assunto estúpido e despropositado e dedicar-lhe sete posts em seis dias não pode ser normal. É só obsessivo. E bastante mais despropositado do que o que quer que seja que achemos despropositado. Combater a «meia dúzia fanáticos fundamentalistas que saiu em defesa da criminalização do piropo» com um superior número de postas indica, ainda, que esta escassa meia dúzia dá algum trabalho.

Durante seis dias não houve uma palavra para os desempregados, para os milhares de professores que se lhes estão a juntar, para as ameaças de Passos Coelho à Constituição e àqueles cuja tarefa é zelar pelo seu respeito e cumprimento, para o pré-anúncio do segundo resgate, para quase nada. Mas para uma coisa que foi discutida durante uma hora num evento onde muitas outras coisas foram debatidas, houve todo o tempo do mundo.

Imagem  2. Quem é o Cabral Fernandes?

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Sobre Carlos Guedes

Um dia nasci. Desde então tenho vivido. Umas vezes melhor, outras pior!
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20 respostas a Duas notas sobre uma obsessão

  1. Nos dois post wue fizeste sobre o assunto perdeste entre os cometas de uns e capacidade de sintese de outros. Argumentos: zero. Espero que a campanha esteja a ser mais variada que a tasca e o socialismo 2013. 😉 Já agora, o Pedroso falou bem?

    • Carlos Guedes diz:

      Façamos um exercício. Imaginemos que alguém, no BE, se tinha lembrado de, digamos, vetar a proposta de discussão que duas militantes haviam feito e, assim, impedir o debate. Quantas postas terias dedicado a isto, clamando por justiça contra mais duas vítimas do estalinismo reinante?

    • Carlos Guedes diz:

      E não sei se o Pedroso falou bem. Não assisti.

  2. Aukan diz:

    O Paulo Pedroso, que o Renato tanto critica, foi só o melhor ministro da segurança social que este país alguma vez teve. Foi ele que criou o RSI. e isso diz tudo.

  3. Bilioso diz:

    É verdade. O assunto já enjoa. E eu até contribuí para o enjoo. Mea culpa.
    O problema é o seguinte: eu não considero o assunto uma questão de lana-caprina; não acho que seja menos importante (ou mais, já agora) do que o desemprego e o roubo aos reformados. Acontece que há décadas que estou à espera que surja o momento certo para acender uma discussão (de género, de cultura, de ideologia) que está inteiramente por fazer e que *podia* ter sido despoletada agora – mas que infelizmente foi inquinada à nascença.
    Mata-se assim à nascença uma discussão que considero indispensável à libertação da escravatura a que a maioria dos homens está sujeita. Eu não posso avaliar plenamente o sofrimento que é ser mulher assediada na rua. Inversamente, ela não pode avaliar o sofrimento e a amputação da individualidade e da personalidade que é nascer e ser criado em certos bairros e ser obrigado a certos comportamentos *sob pena de exclusão social* – aliás, de exclusão social com requintes de crueldade. É precisamente esta amputação que torna a discussão do tema tão importante e que faz com que ele tenha de ser posto ao mesmo nível de importância de qualquer outro tema – toda a amputação e repressão da personalidade ou da individualidade de um ser humano está a montante da maioria dos assuntos que os politiqueiros e pseudo-revolucionários gostam de ventilar, incluindo a exploração capitalista.
    As mulheres constituem cerca de metade da humanidade. A luta feminista (bem como a de algumas minorias) é comparável a uma vanguarda que, se for levada na direcção certa, libertará toda a humanidade. Há lutas e debates que parecem separados mas que de facto constituem uma unidade – são a mesma coisa. Dirigir a vanguarda de luta na direcção errada implica condenar a outra metade da humanidade.
    Há um ano, perante a hipótese de eu ir participar num debate entre militantes em Madrid (ou Barcelona, já não recordo), fui avisado por uma militante espanhola aqui em Lisboa: «Cuidado, quando lá chegares nem te atrevas a olhar para as pernas duma mulher – podes ser imediatamente expulso». Luto por poder viver num outro mundo, talvez uma utopia – mas não é de certeza esse mundo dos olhares censurados; pelo contrário, esse é o mundo donde eu quero fugir a sete pés.

    Nota à margem 1: Devo dizer que o vídeo aqui divulgado («O vídeo do debate sobre o piropo») me ajudou a esclarecer algumas ideias erradas que eu tinha acerca das circunstâncias iniciais desta polémica. É compreensível que uma pessoa proveniente de outra cultura não entenda bem o sentido de «piropo» em português, e que por causa desse mal-entendido faça uma apresentação ou uma proposta que dão cabo da discussão. A colagem entre «assédio» e «piropo» foi uma grande desgraça que aconteceu ao debate ideológico este ano em Portugal – serve objectivamente a travagem da discussão, fornecendo a arma do ridículo e do enxovalho. À pessoa em questão, que tirando alguns pormenores um pouco absurdos, como o referido, está carregada de razão na exposição das suas ideias sobre a situação da mulher, aconselho que estude melhor a cultura a que se dirige antes de usar conceitos correntes na sua própria cultura de origem.
    Nota à margem 2: Durante um ano documentei a construção de um prédio e privei com os operários aí presentes. A questão das bocas às mulheres por acaso foi directa e frontalmente abordada pela nossa equipa durante as filmagens – acho que vocês ficariam surpreendidos com o resultado dessa confrontação. E sobretudo posso garantir-vos uma coisa: a simples ideia de imaginar um deles a dizer para o outro: «Manda aí um piropo a essa senhora», faz-me rebolar no chão a rir. É que eles, esses macacos aparentemente descerebrados que se balançam nos andaimes, faça sol ou faça chuva, e que ao meio-dia comem de cócoras de uma marmita, sem por isso se revoltarem nem tomarem consciência da sua própria situação, sabem apesar de tudo a diferença entre um piropo, um chiste e uma boca (ou qualquer outra forma mais ou menos violenta de assédio) – ainda que não discutam o conceito em congressos com grande pompa, arrogância e circunstância.

  4. Pingback: A psiquiatrização da divergência | cinco dias

  5. Augusto diz:

    Carlos Guedes utilize seu tempo em coisas mais uteis, como a campanha em Almada, e deixe aos Teixeirinhas e outros grandes ” revolucionários ” de sofá, a discussão de lana caprina em que se tornou o piropo.

    É lógico que o que está aqui em causa, não é saber se o tema tem algum relevo, ou é um puro fait-divers., mas sim mais uma forma de ataque gratuito, de certos ressabiados, contra o Bloco de Esquerda, mas como diz o povo , é gastar cera com ruim defunto.

    O artigo do Daniel Oliveira hoje no Arrastão, penso que responde com clareza, a esta gentinha.

  6. Augusto diz:

    Já agora quanto a essa revolucionária de pacotilha , que dá pelo nome de Raquel Varela, e está muito preocupada com a cultura “estalinista” do BE, é a mesma que CENSURA TODOS os comentários aos seus textos que ponham a causa a sua sapiência,.

    E mais uma, que como diz o povo ” Arrota postas de Pescada”

    • Carlos Guedes diz:

      Só lhe peço que modere a linguagem quando se refere aos meus colegas aqui do tasco. Podemos discordar sem epitetar. E eu não quero censurar comentários, mas também não permitirei que o Augusto ou quem quer que seja utilizem os meus posts para mandar recados a outros escribas. Um abraço.

  7. Miguel diz:

    Um post necessário e que vem tarde demais. Já agora, poderia dizer que o assunto do “piropo” serviu também para esquecer o ataque à Síria. Houve desenvolvimentos que a todos interessa saber, mas que aqui neste blog foram esquecidos. O “tasco” precisa de melhorar o nível da argumentação, com a pena de ser reconhecido como “tasco”, devido ao desperdício do tempo dos seus autores e também, o desleixo. A certa altura, o blog mais pareceu uma turma infantil do secundário que quando acha graça a uma palavra, continua a repetir a mesma até à exaustão.

    Em relação à sua colega Raquel Varela, não consigo moderar a linguagem. Estou do lado do Augusto, como também está muita gente censurada nos textos da Raquel (nos comentários). O seu artigo “Nem Obama Nem Assad” foi uma autêntica vergonha (no entanto esquecido pelo tema do piropo).

  8. Tima diz:

    Carlos! O Augusto não é certamente a ser o único com reais críticas à Raquel Varela. Para que não fiquem dúvidas, sim ela corta comentários fundamentados como já a mim me aconteceu. Uma coisa é a tua lealdade bloguista outra é cegueira institucional.
    Quanto ao maior ataque anti-bloquista e campanha difamatória aqui montada pelo 5 dias tenho a dizer que é pena só te ter visto a ti e a o Alex com discurso lúcido sobre a matéria. É uma vergonha no meio de matéria gravíssima para o país, 40h semanais para a função pública, mobilidade forçada da função pública (maior despedimento colectivo em curso na história de Portugal), no meio da vergonhosa posição do PCP sobre os “dinossaurus autarquicus” e esta gente marxo-estalinista do PCP que por aqui polulam se preocupem seriamente com piropos! É duma canalhice e de uma falta de honestidade política e intelectual. Esse teu colega Renato é um ressabiado desonesto, desleal e já publicou mais sobre não-assuntos como o piropo como de outras coisas realmente graves nem se atreve a escrevinhar. É lamentável ver um blogue que se diz de esquerda com uma tanta falta de coluna vertebral para com um partido que de momento para o bem ou para o mal é o único partido socialista no Parlamenteo português. Pessoas deste blogue dizem do Bloco de Esquerda o que nem se atrevem a dizer do Passos nem do PSD/CDS. Pura canalhice! Pura inversão total de objectivos políticos e de procura frontal e combativa dos reais problemas da democracia portuguesa. Uma palhaçada pegada esta estória do piropo! Ataque de pura cobardia e política rasteira.

    • um anarco-ciclista diz:

      foi uma vergonhosa campanha anti-bloco de esquerda a que o blog 5 dias deu cobertura, deitando os seus promotores (seus da dita campanha) mão aos instintos mais baixos do ser humano.

  9. Pingback: Os piropos | cinco dias

  10. Respública diz:

    Haver palavras sobre os desempregados, houve. O Bloco de Esquerda é que roubou espaço a isso lançando uma discussão pública sobre algo tão importante como o piropo.

    • Carlos Guedes diz:

      Ao fim de tanto tempo torna-se cansativo repetir tantas vezes a mesma coisa. O Bloco não lançou qualquer discussão pública sobre o assunto. E o que não é importante para si pode sê-lo para outras pessoas. Mas lá está, é uma questão de respeito por opiniões diferentes das nossas. Quem não consegue isso dificilmente conseguirá perceber o alcance desta ou de outras questões.

      • Miguel diz:

        Boa resposta. É ler os comentários que este “Respública” deixou no último post de Renato Teixeira. Para além de difícil entendimento é limitado de testa.

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