A quadratura do círculo

Muito resumido, isto a modos que funciona assim: há os paramilitares (portanto, extrema-direita não institucional), as FARC e o ELN (portanto, guerrilheiros, ou extrema-esquerda não institucional) e os narcotraficantes (portanto, a malta da droga e tudo o que orbita à volta). E a violência gratuita, como assaltos e afins, que não importa muito discutir aqui. E digo isto desta forma, com a mesma leviandade com que Bogotá me moldou no que toca à morte. (Não vem ao caso o feliz que lá fui, porque fui. Como aqui não sou.)

É um caso curioso. Por um lado, temos os camponeses que, numa espécie de sistema máfio-feudal, pagam parte daquilo que produzem – o que quer que seja – a todos os grupos acima mencionados, em troca de… segurança. Ou seja: não serem mortos a tiro ou sequestrados pelos outros. Por outro, há a questão de os paramilitares, os guerrilheiros, os políticos que permanecem no poder e os próprios narcotraficantes (no shit) viverem do dinheiro da droga. Mas isto ninguém o diz. É uma espécie de quadratura do círculo. Importa, mesmo muito, dizer que os guerrilheiros estão com o povo, defendem o povo. A todo o custo. Mas também têm de comer. E comprar armas (a quem, a quem?). Estão a ver a quadratura?

Para ajudar à festa, os EUA também metem o bedelho. “Ajudam” o governo de turno a “combater o narcotráfico”. Como? Armando paramilitares. E espalhando gilfosato nas selvas (e no que lá houver, pelo caminho). É conveniente para que o presidente em funções possa ajudar a perpetuar a passagem do poder de “boa família” em “boa família”. Com os paramilitares armados, fazem o que lhes apetece. Catalogam os guerrilheiros de narcotraficantes e matam-nos. Impede-se assim que estes possam mudar o regime. Uribe vulgarizou a ideia, ao estilo western, de pagar aos paramilitares em função dos guerrilheiros que matavam. Arrepio na espinha? Pois. A mim só me faz ranger os dentes de raiva.

Há uns anos, ainda eu lá vivia, os traficantes, pressionados e perseguidos, começaram a exigir ainda mais aos camponeses. A situação tornou-se insustentável e os camponeses fugiram para a cidade (o desplazamiento interno forzado). O desemprego aumentou e o preço da força de trabalho desceu exponencialmente. A vida ficou, naturalmente, cada vez mais cara. Mais fome. Mais miséria. Mais violência. Gradualmente, o estado “militarizou” a cidade, umas vezes através da polícia e outras dos militares, argumentando que a população tinha de ser protegida. As zonas mais pobres passaram a ser mais patrulhadas do que o normal, o que nem chegou a fazer comichão a grande parte da população. É fácil compreendê-lo, mesmo que não se goste… eu saí de lá, aos 8 anos, porque a minha família estava cansada da guerra. Mas lembro-me bem de ver militares (ou seja exército, não confundir com paramilitares) a patrulhar as ruas e de, em determinadas partes da cidade, não se poder andar em grupos maiores de 3.

Sei que parece que Bogotá está agora mais segura, mais inovada. Mas a vida está muito mais cara. Os salários são muito baixos. A cidade está mais bonita, mais moderna, mas… para gente que tem dinheiro. E para quem vem de fora. Não se esqueçam que o progresso, quando baseado no rico-que-fica-mais-rico-e-pobre-que-fica-mais-pobre, mata gente.

Esta última militarização oficial, que nem nos chegou como notícia na comunicação social, não é nova para quem lá vive. Nem é que altere consideravelmente a vida do grosso das pessoas na cidade. (No campo é diferente, muito diferente.) É precisamente essa indiferença que mais me assusta.

Cá, como lá, cozemos em água como rãs. Mas há esperança. Os camponeses colombianos dão o exemplo e, mesmo correndo risco sério de vida (e à custa de muitas vidas também), fazem quase duas semanas de greve. Porque levam em cima o peso e a experiência de não ter nada a perder. Não sei vocês, mas eu não espero até lá. E cada vez somos mais a não esperar.

Adenda #1: Rendi-me ao mundo bloguiano. Levei tempo, mas vá. Cá estou. Não planeio despejar-me aqui em intervalos regulares, digo desde já, e tenho pouca paciência (se não nenhuma) para entrar em longos discursos e/ou discussões virtuais. Convidai-me para um café, caso vos chegue a mostarda ao nariz. Reservo-me o direito de dizer que não. Aprovo comentários por defeito e aviso (a abanar o dedo em tom acusatório e moralóide) que, por defeito também, se me sentir insultada, o comentário desaparece.

Adenda #2: Dado que é o primeiro post, e num plágio descarado à Gui: ó pai! Estou no 5Dias!

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7 respostas a A quadratura do círculo

  1. Rocha diz:

    Entre as guerrilhas e o terrorismo de Estado oficial e oficioso de militares e paramilitares, a pequeno-burguesia lava as mãos. Parece que tudo estaria bem se vivesse num país não só sem burgueses fascistas mas também sem camponeses revolucionários. Ai que maçada esta luta de classes…

    Os problemas não são o capitalismo, o imperialismo e a oligarquia fascista da Colômbia. Não, não… o problema é a quadratura do círculo.

  2. JgMenos diz:

    «Sei que parece que…»!!!

  3. Francisco d'Oliveira Raposo diz:

    Não entendo bem o comentário do Rocha. A luta de classes está espalhada ao longo do texto… mesmo na quadratura do circulo.

  4. Emerson Almeida diz:

    Muito bom artigo 🙂
    Pensei está lendo sobre o Brasil…

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