O Delfim da Extrema-Direita

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Se alguém quiser fazer o favor ao primeiro-ministro de considerar que isto é “apenas” ignorância histórica, pois que o faça. Se alguém quiser considerar que isto é “só” imbecilidade, lapso ou declaração «infeliz», pois esteja à vontade. A verdade é que se não quisermos optar pela ingenuidade, veremos que não há ponta de arbitrariedade, irreflexão ou precipitação naquilo que foi dito por Passos Coelho. Estas declarações não surgiram por acaso. Elas são uma inequívoca e perfeita manifestação intencional de raiva – ou de ódio – face à própria democracia, não apenas à Constituição.

Há muito que não só o governo como a própria nata do PSD – não esquecer que há poucos meses Fernando Negrão expressava toda a sua repulsa pelo ensinamento da lei fundamental nas escolas – se vêm mostrando em conflito, em guerra aberta e declarada, com os princípios norteadores da democracia no nosso país. Há muito que toda esta gente fanática, cega e radical se debate com a incompatibilidade entre a sua política de ditadura financeira e o estado de direito democrático. E é, por isso, hoje perfeitamente escusado procurar nas entrelinhas o que está exposto limpidamente aos olhos de todos. Escusam de interpretar as palavras – muito bem reflectidas e propositadamente proferidas – de Passos Coelho sobre a necessidade de uma «União Nacional». Já se perdeu a vergonha, acabaram as subtilezas. Está tudo às claras.

Toda a gente sabe que há uma esperança rançosa a medrar nos subúrbios da política nacional desde 1974. E com este posicionamento cada vez mais extremado do governo e do próprio PSD, Passos Coelho não se transforma – se é que alguma vez o foi – no delfim dos iludidos sonhadores da social-democracia. Passos Coelho está a transformar-se, isso sim, no delfim e na grande esperança da extrema-direita que há 39 anos anseia pelo regresso à ditadura fascista.

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Sobre Ivo Rafael Silva

Mestre em Tradução e Interpretação Especializadas; Licenciado em Assessoria e Tradução; Investigador de História e Etnografia; Investigador do Centro de Estudos Interculturais (CEI) do ISCAP; Tradutor freelance; Secretário administrativo; Militante do PCP desde os 18; Membro da JCP desde os 16.
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14 respostas a O Delfim da Extrema-Direita

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Há uma coisa que deve ser levada em conta: Pedro Passos Coelho é muito estúpido. Muito do que ele diz não é malevolência, é apenas estupidez…

  2. Mas também é certo que ao longo dos séculos tem vindo muito mais mal ao mundo da estupidez do que da malevolência.

  3. c diz:

    A razão que esteve na base da emigração da minha família – a emigração é o nosso «prato do dia» – foi exactamente um país como Portugal entregue às «famílias». A emigração dar-se-á novamente pela mesma razão, não tenho dúvida alguma.

    Não me parece que nada do que Passos Coelho diga seja ingénuo ou disparatado: exerce o poder da palavra de uma forma ambígua. e ofuscante. Esse é um dos velhos truques do exercício do poder: jogar na ambiguidade da «palavra», discurso etc., porque nós, esses, somos os verdadeiros estúpidos.

    Não podemos dar a esta gente «delfinada», nem um milímetro de conversa.

    • c diz:

      Eu faço parte da opinião pública deste país. Não sou nem nunca fui militante de nenhum Partido. As pessoas que conheço desde jovens a idosos (com mais de 80 anos), neste momento, já decidiram o seu voto nas autárquicas. Acontece que há muitas pessoas que, pela primeira vez, mudaram o seu voto: os jovens estão desempregados, os idosos estão com os filhos desempregados e todos estão fartos de ser insultados pela máquina mediática do CDS/PSD/PS.
      Mas eu faço parte só da opinião pública deste país.

      A democracia de Passos ficou «queimada» desde o episódio da TSU. As pessoas sentem-se traídas por tantas mentiras: a traição não é muito bem vista no que toca a partidos políticos, nem tão pouco está a ser desculpada. Mesmo que haja campanhas mediáticas a favor da alteração da Constituição: o problema é que são sempre as mesmas pessoas a falar contra a Constituição: sempre, sempre as mesmas e os mesmos Partidos que não gostam de Leis (CDS/PSD/PS). Peço desculpa, mas o BE tornou-se num partido híbrido.

      É por isso que estou convencida que esta manobra de distracção de Passos não vai ter eficácia práctica: é mais uma tentativa da política/espectáculo. Os portugueses na generalidade são moralistas e conservadores dos seus valores: Passos Coelho não ficou bem visto com mais este episódio e a Comunicação Social também não.

  4. sem-abrigo diz:

    Mas esclarecam-me então. que fez a constituição pelos desempregados? que faz a constituiação pelos sem-abrigo? mas eu digo-vos o que a constituição fez. criou um regime merdoso. um regime que, da direita à esquerda, forjou uma elite que se foi mantendo à tona. e o resto? os outros que vivem debaixo da ponte, das arcadas, numa qualquer entrada de um prédio? que fez a constituição por esses? de que vale a “democracia”, o estado de direito, se vivemos na rua e comemos aquilo que uma ou outra associação nos vem trazer à noite? deixem-se de demagogias e ide beber os vossos copos e ide comer bem este fim-de-semana para a festa do avante.

  5. Silva diz:

    Embora não tenha partido verifica-se que ainda existe muita gente com orgulho no BPN , BPP , SLN , na Tecnoforma , dos Desvios dos fundos comunitários , nos Swap´s , nos empossados das ” PPP’s ” , nos Submarinos e em campanhas Fraudulentas como na Destruição do Pais e a escravização do povo. Por outro lado as ruas vão se enchendo de satisfeitos idolatrando os políticos do pote sempre que aparecem. Parece que afinal o crime compensa. Toda a oposição deveria talvez passar mais vezes em Cabo Verde ou tentar a tal formação para reconhecer melhor as vacas que riem enquanto o povo foge, ou ainda arranjar um emprego de peludo comentador de jornais online em campanhas fraudulentas e de desinformação execrável a favor do Governo de ladrões. A farsa continua, o estado é o maior provocador de desemprego, desde logo pelos organismos que nada fazem ou defendem, basta ver o despedimento coletivo ilegal do Casino Estoril de 112 trabalhadores que unicamente foram substituídos por outros em regime de outsourcings. Passam já mais de 3 anos em que a justiça atrasa a verdade e faz criar nas pessoas um desequilíbrio moral e emocional. Não acreditamos em Europa nem justiças, acreditamos mais em pobreza e morte. Os governos não produzem nada e ganham mais e enriquecem à custa de quem trabalha…….Disse.

  6. Respública diz:

    Como sempre, um artigo cheio de fleuma e ataque mas que, espremido, apresenta zero soluções para o País. Não é por nada mas começa a cansar, até mesmo para quem vos apoia, o facto de nunca terem nada de concreto para dar ao País onde vivem. Criticar? É fácil. Fazer? É muito mais difícil. Que a Esquerda opte sempre pelo caminho mais fácil é algo que nunca entenderei.

    • kur diz:

      Cumprimentos ao dias loureiro,ao fantasia(sic!) ,ao Duarte lima e a tutti quanti que dão este ‘concreto’ ao país!Vaitafiudare

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Às vezes pode parecer, mas não é absolutamente verdade. Apenas para exemplificar:

      Políticas alternativas

      1. Equilibrar urgentemente as contas externas, nem que seja com recurso a medidas que limitem o valor das importações ao valor das exportações;

      2. Em vez de tentar esmagar o défice orçamental, garantir o seu financiamento com recurso apenas à poupança interna, nem que para isso se tenha de recorrer à poupança forçada junta das empresas com mais lucros;

      3. Decretar unilateralmente que a taxa de juro sobre a dívida externa não pode ultrapassar a que é exigida à Alemanha;

      4. Prolongar unilateralmente o período de maturidade da nossa dívida externa sempre que não haja quem queira aceitar o roll-over da dívida à taxa de juro indicada no ponto 3.;

      5. Elaborar um plano de investimento e modernização das empresas dedicadas à produção de bens transacionáveis, com base no montante obtido a partir de uma moratória de um ano no pagamento dos juros da dívida pública (cerca de 8 mil milhões de euros), sendo esse montante disponibilizado a juro zero ou até a fundo perdido;

      6. Conversão progressiva de todas as empresas capitalistas em empresas cooperativas, detidas e geridas pelos seus trabalhadores;

      7. Expropriação e nacionalização de todas as PPP’s;

      8. Transformação de todas as empresas do sector financeiro em empresas sem fins lucrativos, obrigadas a devolver aos seus clientes, pro rata, quaisquer lucros derivados da sua actividade.

      Isto seria apenas para começar. Mas reconheço que os partidos de esquerda não têm apresentado propostas neste sentido. É altura de os forçar a isso.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      A esquerda é criticada por nunca apresentar medidas alternativas. Quando alguém faz um esforço para mostrar que tais alternativas são possíveis – independentemente delas serem mais ou menos adequadas – faz-se um silêncio ensurdecedor. Os que dizem que a esquerda não tem alternativas, calam-se porque afinal essas alternativas existem. Os que dizem que as alternativas existem, calam-se porque há alternativas que os incomodam. Resultado: não se debatem essas alternativas, procurando-se que o silêncio as mate. Mas se fosse uma questão tão candente como a criminalização dos piropos, e já teríamos ultrapassado a centena de comentários… E ainda nos admiramos de ser a direita a governar em Portugal…

  7. 5ª Coluna diz:

    Esta organização criminosa que se encontra no poder, já teria caído se não tivesse uma direção, A cabeça da Organização mafiosa como já sabemos, é Cavaco Silva. Considerar estupido o sicário Passos coelho, é não ver que toda esta cantilena se trata de um ataque á democracia já antes tentada pelo golpe de estado falhado de Cavaco na anterior remodelação. entretanto para entreter com inteligência vou discutir se posso ou não dar um piropo.

  8. Bilioso diz:

    O artigo tem uma visão clara dos acontecimentos, mas eu acrescentaria uma nota: é um erro atribuir as declarações e a propaganda de Passos Coelho e quejandos à estupidez. Bem pelo contrário, elas são de uma habilidade invulgar. Não quero saber se a sua autoria se deve à inteligência de Passos Coelho ou do seu gabinete de marketing político – objectivamente (e infelizmente) é brilhante. A frase vai, com toda a certeza, pegar em largos sectores da população que, por razões que não vou discutir aqui, estão completamente desnorteados e decapitados de um projecto político alternativo e revolucionário. A frase de Coelho faz parte duma campanha minuciosa, inteligente, que prepara a opinião pública para a «necessidade» duma revisão constitucional (ou mesmo de regime) consentida.
    Para que frases destas não corram o risco de pegar com tanta facilidade, talvez fosse bom rediscutir os programas escolares e o que por lá se ensina.

  9. Lanca diz:

    Ingenuidade? parece mais um Silvio Berlusconi “à portuguesa”, se conseguir alterando a Constituição ficar com TODO o poder teremos um ditador “democrático” porque eleito.

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