O BE é um partido de líderes e figuras públicas com escassos dirigentes políticos

Esta é uma entrevista excepcional. Discordo de muito. Mas é uma entrevista de um dirigente político que pensa. Ocorre-me apenas perguntar a Cabral Fernandes, se me permite, que foi um dirigente revolucionário da LCI – uma coisa rara que não se forma de um dia para o outro -, e que afirma que Louçã está hoje no papel de comentador político e que acabou com o PSR, onde é que anda o Cabral Fernandes há 40, 30 anos? Ou seja, não é onde estava no 25 de Abril, que isso eu sei, mas onde estava depois do 25 de Abril, quando fazer política junto dos trabalhadores ficou difícil? A história está cheia de exemplos de revolucionários que desmoralizaram, quebraram, ficaram-se pelo possível e, finalmente, remeteram-se ao papel de comentadores.
O BE é um partido de líderes e figuras públicas com escassos dirigentes políticos e conseguiram chegar a 2008, à maior crise do capitalismo do pós guerra em Portugal, sem ter um programa político anti capitalista, mobilizador e vencedor, sem ter quadro dirigentes (basta ouvir os seus jovens líderes para tristemente o concluir), que tragam esperança e que devolvam aos trabalhadores – aqui entendidos num sentido amplo, do operário ao professor – a crença de que podem inverter a regressão social.
A ruptura esperada com o PCP não se deu nem ao nível de criar uma cultura democrática, que falhou totalmente dentro do BE, nem ao nível da construção de um programa político contra a concertação e o pacto social. Um programa, digamo-lo, de conflito e ruptura social com esta «gente» que nos governa há 40 anos.
Entre piropos patetas e coisas realmente sérias como defender a renegociação da dívida pública em vez da sua suspensão, o BE é hoje um partido com uma política realista, cuja efeito mobilizador é zero. Eu acho que é porque as pessoas precisam de utopia, a realidade e a sua gestão são uma tristeza. Este é o meu pequeno comentário aquele que é hoje o assunto mais sério de toda a política portuguesa – a ausência de um partido democrático e de ruptura com o capitalismo.

http://www.ionline.pt/artigos/portugal/joao-cabral-fernandes-cultura-estalinista-esta-presente-no-be

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4 respostas a O BE é um partido de líderes e figuras públicas com escassos dirigentes políticos

  1. Manuel diz:

    Ei lá… até já ao bloco chegou a “cultura estalinista”. Qualquer dia até já o PS é estalinista.
    Esta gente da gauche “cata-vento” aínda é mais repetitiva do que a da esquerda “fóssil”…

  2. RG diz:

    Raquel,

    Defina-me lá o que é um partido democrático e de ruptura com o capitalismo.
    É um partido que incorpora na sua natureza os princípios do cretinismo parlamentar burgués, de discutir, discutir e discutir, sem agir (a exemplo do que propõe o MSP em registo de fuga para a frente da rotura revolucionária)?
    Eu ainda sou do tempo em que se distinguia a discussão da acção revolucionária, sendo que uma antece a outra.
    Acredite, por experiência sei (e acho que a Raquel também sabe) que para a acção é muito melhor uma discussão com ordem de trabalhos do que sem ela.
    Saudações amigáveis,
    RG

  3. XXI diz:

    Sonha-se muito pouco e pede-se autorização para entrar em “REM”.

  4. Pedro Pinto diz:

    Mas quem é o Cabral Fernandes, afinal? E, nisso concordo com a Raquel (alguma vez teria que ser), que ser dirigente da LCI é «uma coisa rara»…. Quantos eram? Dois? Três? Que patetice.

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