Sem sentimento de pertença – histórias da precariedade da vida

Nasces e cresces na pequena rua da tua cidade. Todos te conhecem, acarinham. Os professores sabem quem são os teus pais, passas hoje pelas pessoas na rua que se espantam por não te reconhecerem porque ainda se lembram de quando eras pequena.

Para estudares no ensino superior, que tanto custou aos teus pais e tanto os orgulha, tens que mudar de cidade. Universidades só em cidades “grandes” e quase todas no litoral. E lá vais, com a casa às costas. Uns anos fora de casa, com trabalho pelo meio para pagar as despesas. Saudades de casa, muitas, mas este fim de semana não podes ir porque não tens dinheiro.

Acabas o curso e agora? Voltas para casa dos pais, claro. Não há trabalho. É estranho depois de tantos anos fora, embora estejas contente de voltar à tua casa, voltar ao quarto partilhado, aos horários, perder a autonomia que pensavas ingenuamente já ser tua. Arranjas uns trabalhos enquanto procuras o maldito estágio não remunerado.

Um dia recebes uma boa notícia e o estágio é teu e é remunerado (um num milhão). Mas claro, é longe de casa. Recomeças a fazer contas para saber se entre o que gastas em transportes e comida compensa o que gastas a arrendar um quarto. E lá vais, desta vez compensa ficar em casa dos pais. Arranjas um carro em vigésima mão (porque já ninguém aguenta ir buscar-te ao comboio tão tarde), acordas todos dias às 6 da manhã por causa do trânsito. Chegas a casa, na melhor das hipóteses às onze da noite. Comes depressa e vais dormir depressa. Deixas de estar com os amigos porque estás sempre a trabalhar e não podes perder o teu salário. Deixas de ver a tua família. Deixas de ter tempo para descansar, para te distrair, para a politiquice. Toda a gente deixa de te ver e é quase como se deixasses de existir. Deixas de receber telefonemas para sair porque a tua resposta é sempre «não, estou cansada».

Acaba-se o estágio. Estás novamente sem nada. E agora?

Felizmente tiveste sorte e um mês depois já tens outro trabalho. Lá vais tu de casa às costas, partilhar casa com mais 4 pessoas que não conheces, para uma cidade onde não conheces ninguém, um trabalho onde não conheces ninguém. Ficas feliz porque tens um salário, mas as saudades do que te é familiar embrulham-te as entranhas. Cada vez vais menos a casa, não dá para pagar as viagens, são demasiado caras. Entre rendas, comida, água, luz e gás ficas quase sem dinheiro. A vida social é absolutamente regrada porque os tostões são poucos e estás sempre a contá-los. Negas-te a ter uma vida só de trabalho e decides que tens que conhecer e estar com as pessoas.

Começas a dormir cada vez menos porque queres ser activista e rouba-te o pouco tempo que tens, mas não interessa. Sabes que é preciso. Começas a dormir ainda menos porque o mundo pesa cada vez mais. Estares longe dos teus amigos e da tua família é cada vez mais custoso porque sabes que se precisarem de ti, não vais conseguir estar.

Tentas estar com os amigos que entretanto fizeste e a vida que foste construindo, mas não é fácil entre o trabalho e as manifestações. Mudas de trabalho outra vez. Tens que mudar de casa, entretanto conseguiste viver sozinha um ano, mas foi o suficiente para perceber que o dinheiro não chega. E lá vais dividir casa outra vez como fazias na faculdade.

O dinheiro, curto, começa a ser cada vez mais curto porque agora são os teus pais que precisam de ti. Roubaram a pensão à tua mãe e o teu pai está desempregado. A tua irmã quer ajudar mas, sendo doutorada, nunca teve outro trabalho que não abaixo dos mil euros com falsos recibos verdes.

Dormes menos porque já não sabes o que hás-de fazer.

Queres sair, ter o teu canto, ter a casa a que chames tua (arrendada, comprada, é igual, desde que seja tua). Nem pensas em ter filhos porque simplesmente não há orçamento nem consegues organizar o teu tempo como qualquer criança merece.

Chegas aqui e pensas: até quando? Até quando a minha casa vai ser ditada pelo capital que nos comanda? Até quando o teu contributo para o teu país vai ser tratado como descartável, substituível e dispensável?

Descansas um pouco e a única coisa que te faz andar sempre de cabeça erguida é a certeza de que aquilo que defendes para todos é o mais certo, e que, pelo menos, ninguém te derrotou e te atirou para um sofá. Olhas o mundo com os olhos de quem o quer transformar. Leve o tempo que leve. E sabes que um dia, esse sentimento de pertença que hoje é o da luta, um dia, mesmo que não no teu tempo, será uma raiz.

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8 respostas a Sem sentimento de pertença – histórias da precariedade da vida

  1. José António Jardim diz:

    Excelente post” Camarada Lúcia.Bom Domingo.

  2. RVP diz:

    Obrigado. Fazia falta.
    Os retratos do quotidiano tal como ele é, humanizado, e não como o pinta a imagem idealizada das coisas, são o que mais rareia na blogosfera.

  3. José Sequeira diz:

    Lúcia, e?

    Nasces e cresces na grande cidade; os teus pais não têm dinheiro e sais da escola para trabalhar onde calha, onde aparece. Continuas a estudar à noite. Felizmente vives numa ditadura de brandos costumes onde o trabalho é respeitado e podes sair 1 hora mais cedo para não chegares tarde às aulas. Isso com a contrapartida de ires mesmo às aulas e teres aproveitamento. Esqueceste a tua vocação e o que “querias ser” e estudas de acordo com o trabalho que tens. Se é no comércio é isso que estudas, se é na indústria idem aspas, aspas. Tens a sorte de não existirem trabalhos precários e podes contar com o emprego para a vida.
    É tudo muito cansativo; praticas, nas poucas horas vagas, desporto na FNAT e, enquanto esperas no banco de suplentes para entrar, aproveitas para rever umas coisas de matemática; o mesmo no intervalo do cinema, nos transportes ou até quando estás sentado na sanita (se a tiveres) ou a comer a sopa e o guisado frio que a tua mãe te deixou embrulhado num jornal.
    Estudas muito, discutes problemas e teses ao almoço com outros colegas nas mesmas circunstâncias. É imperioso conseguires pelo menos passar na aptidão à Universidade, com a consequente matrícula e frequência do 1º ano para assegurares que vais para a guerra como “Aspirina”. Sempre é melhor que ir como furriel ou soldado.
    Depois da tropa, casas, com casa ou sem casa, ou arrendada ou na casa de pais ou sogros; tens filhos porque faz parte, nem pensas bem em carreiras antes disso ou coisas do género. Depois, tens dois ou três empregos, todos mal pagos mas dão para manter a família. Não são aquilo que querias, nem se coadunam com o que estudaste mas paciência. Consegues terminar aos pontapés a licenciatura e assumes que o resto dos estudos fica para a velhice. A vida vai evoluindo, começas a ver algum fruto do que labutaste, até a tua licenciatura tardia tem valor; a ditadura já lá vai; agora até podes ser comunista, se trabalhares num serviço público podes fazer greve na boa, sem consequências e começas a ver que os teus filhos, por quem tu te sacrificaste, a quem tu deste orgulhosamente um curso, com benção das fitas e tudo se enquadram no que a Lúcia escreve.
    Democracia, em que é que falhaste?
    Cumprimentos.

  4. Se não fosse trágico era belo.
    Com esta gentalha que nos governa,
    é o preço a pagar quando se quer
    estar de corpo inteiro!

  5. Rocha diz:

    Estou desempregado à 3 anos e há milhares e milhares de pessoas na minha situação. Não tenho nada a perder. Por mim a revolução pode ser amanhã.

  6. Respública diz:

    Apoiando tanto os trabalhadores, continuo a não perceber o crónico ataque que fazem a quem tem aquilo de que precisam os trabalhadores: os criadores de emprego. Que há coisas a melhorar na relação? Certíssimo. Que há empregadores que são uns exploradores? Certíssimo também. Agora que são todos uns exploradores e que todo o capital é vil…

    Vocês ainda não perceberam que uma das grandes soluções para a crise que os trabalhadores hoje sentem passaria exactamente pela vossa mudança na relação. Passar de uma relação antagónica para uma simbiótica, como não podia deixar de ser, continuando sempre a lutar pelos vossos interesses mas percebendo que sem empregadores e capital não há trabalho que vos valha.

    Sem querer, estão a prestar o pior serviço do mundo àqueles que querem proteger.

    • Rui Viana Pereira diz:

      Cheira-me a Corporativismo e Paz Social, tal como estão definidos na Cartilha do Estado Novo [ed. 1940]. Sorry, já demos para esse peditório.
      Já agora, um pequeno detalhe: quem cria o trabalho e toda a riqueza donde provém o famoso «investimento» são os trabalhadores, não são os empregadores. Estes limitam-se a apropriar-se duma parte da riqueza criada pelo trabalho, para poderem continuar a deter e controlar os meios de produção.

  7. Ritita Catita diz:

    Obrigada!

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