Vivemos aquele que é historicamente o maior processo de proletarização de Portugal

Deixo aqui a segunda parte de uma entrevista sobre trabalho e economia que dei ao Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. Creio que hoje – e ao contrário das teses já «velhas» do fim do trabalho  – há mais proletários, em Portugal, do que no século XIX ou nos anos 60. Não estou só a falar da Índia ou do Brasil, mas de Portugal. Os trabalhadores não se vêem a si como proletários nem como trabalhadores, mas o seu grau de dependência da venda da força de trabalho – por via do abandono rural e da destruição da empresa familiar, artesanal – é muito maior. E o facto de uma parte desse trabalho lidar com o conhecimento em nada muda esta estrutura. Acho mesmo que, no sentido rigoroso do termo, hoje, até profissões como médicos, advogados, professores, foram proletarizada. Com as políticas executadas desde 2008 vivemos aquele que é historicamente o maior processo de proletarização de Portugal. Maior do que aquele que se verifica no século XIX com a privatização da propriedade, maior do que aquele que se dá nos anos 60 do século XX com a mecanização agrícola.

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2 respostas a Vivemos aquele que é historicamente o maior processo de proletarização de Portugal

  1. José Luís Moreira dos Santos diz:

    Raquel, não posso estar mais de acordo consigo, como é facto corrente. Porém, façamos uma pequena reflexão: estamos a reunir, ainda que de forma forçada e a contra-gosto, as condições para uma revolução proletária, ou será que muitos destes novos proletários se acham bem em tal situação. Há campo para recrutamento? Há oportunidades novas? Há discursos a ponderar? Há lutas a desenvolver, para além daquelas que já ativas? Como devem agir, nós, os que acham que têm respostas para a tenebrosa situação atual? Estamos diante de uma situação tão grave que independentemente de involuntária, é uma oportunidade para a luta ou para nos envolvermos na construção de uma capela onde todos vão rezar e lamentar a sorte do destino?
    Quem fica à espera do melhor momento, costuma perde-lo; quem só age com a garantia da perfeição do que se prendende, não age; quem quer trazer para a luta gente de canga, não sabe o peso da canga.
    José Luís Moreira dos Santos

  2. Luis Moreira diz:

    Na ex-URSS que eu visitei mais que uma vez a proletarização de todo o povo era evidente. Em Berlim Oriental quase que doía fisicamente ver a diferença com a parte ocidental.

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