Um piropo à Ana Cristina Leonardo, com a devida autorização que por estes dias não arrisco a coima

“Querida Morgada, pela primeira vez na vida parece que discordamos. Há sempre uma primeira vez:)Primeiro, a conversa sobre a conversa de trolha parece-me que chega tarde: com a crise na construção civil já são muito poucos os representantes da classe. As traduções de Petrarca para vernáculo (para citar Lisboa) estão consideravelmente em baixa. Os apalpões nos eléctricos também, talvez porque há cada vez menos eléctricos (parece que agora é mais comum levarem a mão à carteira… e não ao rabo). Permito-me, pois, perguntar: onde estavam a Adriana Lopera e a Elsa Almeida quando precisávamos mesmo delas? Em 2º lugar, a questão é mesmo criminalizar. Equiparar o piropo a assédio sexual significa isso mesmo. Até porque o assédio sexual já é crime. Em 3º lugar, querer criminalizar o piropo significa, do meu ponto de vista, equiparar o roubo de um pêssego na mercearia ao assalto a um banco (abstenho-me de valorização dos exemplos dados). Uma coisa é o assédio em ambiente laboral (por exemplo) que significa um exercício de poder que pode ter consequências nefastas. Outra coisa é um piropo (estamos a falar dos ordinários, não estamos?) na rua que se fica pela poluição sonora sem mais. Acresce ainda que a ideia de “Engole o teu piropo” corre o risco de levar o bebé com a água do banho: então e os piropos simpáticos? Ou só se permite piropos aos falantes elaborados, inteligentes, capazes de frases cheias de wit? Não acho bem. Se começamos a mandar calar as pessoas que dizem coisas de mau-gosto, isto é capaz de ficar demasiado silencioso. Finalmente, proponho que em vez dos piropos dos trolhas que, como defendi aí em cima me parecem em risco de extinção, as proponentes do BE debatam o facto de os jovens, de todas as origens sociais, assinale-se, e de ambos os sexos, se tratarem entre si como verdadeiros trolhas. É vê-los à noite na rua e ouvir os pró-caralho que com tanta ternura se mimam eles e elas. O mundo pula e avança e não sei se na direcção certa. Quanto aos piropos, acho que se devem educar as pessoas para se defenderem autonomamente dos cretinos com quem eventualmente se cruzem na rua, em vez de andarem sempre a chamar a polícia. Dito isto, gosto de ver de novo por cá.”

E não deixe de ler o resto da conversa, muito superior a muitas que por ai proliferaram sobre o assunto: https://5dias.wordpress.com/2013/08/30/chamar-os-piropos-pelos-nomes/

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22 respostas a Um piropo à Ana Cristina Leonardo, com a devida autorização que por estes dias não arrisco a coima

  1. Raquel Varela diz:

    «Se começamos a mandar calar as pessoas que dizem coisas de mau-gosto, isto é capaz de ficar demasiado silencioso»
    «Quanto aos piropos, acho que se devem educar as pessoas para se defenderem autonomamente dos cretinos com quem eventualmente se cruzem na rua, em vez de andarem sempre a chamar a polícia»
    Duas excelentes frases que resumem o debate.

    • Teresa Castelo diz:

      Esta nem parece sua, Raquel. Se a mulher é quem tem de ser educada então a culpa é dela, certo? Se é para educar eduque-se quem humilha e intimida, ora essa.

  2. Don Luka diz:

    Bem!

  3. Morgada de V. diz:

    A Ana Cristina Leonardo merece todos os piropos, e levanta uma preocupação que me parece importante: a identificação das bocas ordinárias com uma classe, a dos trolhas e menos instruídos, e o perigo que haveria de serem os principais visados, a criminalizar este tipo de comportamentos – à semelhança das acusações de estigmatização dos imigrantes suscitadas por um documentário sobre assédio sexual nas ruas, filmado num bairro de Bruxelas em que a maioria da população é magrebina (http://www.dailymotion.com/video/xsknaq_femme-de-la-rue-sexism-in-the-streets-of-brussels-english-subtitles_webcam).
    Sucede que sou contra a criminalização, por razões que já expus no post linkado (sem prejuízo de alguns dos comportamentos constituírem crimes já tipificados), e que não é verdade que só os trolhas o façam. É transversal a todas as classes sociais e idades, e comum sobretudo em grupos de homens, como forma de demonstrar poder perante os amigos, uma espécie de ritual de masculinidade – o que demonstra que está em causa, mais do que o desejo ou a pulsão sexual, o exercício do poder.
    Lamento é que a discussão sobre um problema que a generalidade das mulheres enfrenta a partir da adolescência, e que limita de facto a sua liberdade e segurança nas ruas, seja objecto de uma “reductio ad absurdum”, piropo agradável versus boca ordinária. E não, não concordo que seja “só” ruído sonoro: porque se com a idade se ganha distância (e a quantidade de ataques verbais, convenhamos, diminui imenso), não é aceitável que miúdas de 13 anos sejam molestadas onde quer que vão com comentários ao seu corpo, e que tenham de ouvir o que desconhecidos gostariam de lhes fazer, ou que ser analisada nas ruas, medida, comentada, seja o percurso normal das combatentes, com comentários que têm uma carga de violência sexual inegável, fazendo temer que da violência sexual verbal se passe à violência sexual física. Como é que daqui se passou a discutir a liberdade de expressão e quejandos, ó da guarda que querem acabar com o piropo, é uma coisa que me escapa.
    Finalmente, a sugestão de que as mulheres têm de aprender a defender-se inverte mais uma vez a responsabilidade para a vítima, para mais quando, como quem experimentou terá verificado, a resposta origina muitas vezes um escalar de violência (o silêncio também: “Não respondes? Estou a falar contigo!”, acompanhado de vários mimos).

    • Teresa Castelo diz:

      “comum sobretudo em grupos de homens, como forma de demonstrar poder perante os amigos, uma espécie de ritual de masculinidade – o que demonstra que está em causa, mais do que o desejo ou a pulsão sexual, o exercício do poder.”

      Exactamente, e regra geral dirigido a mulheres sem companhia masculina, de preferência sozinhas.

  4. Antónimo diz:

    Mas aquela rapariga e enfermeira espanhola do BE tem razão. Pq raios tem alguém de levar com outro que lhe vem dizer sem o/a conhecer de lado nenhum que é muito bonito ou bonita? Pode não ofender, mas é instrusivo e não foi solicitado.

    • Logo, quando acontece?

      • Antónimo diz:

        e o certo é que acontece, mesmo sem que desconhecidos venham manifestar por nós/elas aprovação física. quanto aos trolhas talvez possa haver uma excepção, pois julgo que até virá especificado e salvaguardado nos Contratos Colectivos enquanto actividade tradicional e correlativa – embora já há muito tempo não passe junto a obras ou tenha colegas e amigas a queixarem-se.

      • Antónimo diz:

        Ainda agora, na passadeira, uma miúda gira mas não excessivamente entregou-me um papel daqueles de supermercado cheio de produtos, mal cheguei ao passeio apercebi-me do que estavam a dizer os dois fulanos a quem ela tinha entregue os folhetos. Possivelmente já o estavam dizendo antes quando ela bem os ouvia: “Contigo, era na cama, era no chão”.

        Ainda se guardassem os comentários para quando a rapriga não os ouvisse.

  5. Carlos Almeida diz:

    Se optássemos por debater o assunto em apreço, mereceria subscrição o texto de Renato Teixeira, com a seguinte nota óbvia: uma eventual proibição dos piropos teria de abranger tanto os “ordinários” como os “civilizados. Ora, como é sabido, faz parte da natureza feminina (mulher-mulher e não mulher-fufa) gostar dos tais piropos “civilizados” e ficar vaidosa com eles, pelo que a tal proibição seria contra-natura.
    Agora, numa altura destas em que há Portugueses a passarem fome e a tentarem simplesmente sobreviver, a morrerem nos hospitais porque lhes é recusado tratamento ao abrigo do SNS, a verem-se impedidos de constituir (ou expandir) família, a serem sobreexplorados, chantageados e humilhados no trabalho com salários de miséria e horários de trabalho da idade média, a serem despedidos arbitrariamente e ao abrigo do terrorismo de estado que pulula, etc, etc, etc, surge uma “rapaza” (em nome do BE) a fazer um papel ridículo para desviar as atenções e as energias dos verdadeiros problemas dos Portugueses.
    E a coordenação do BE não se demarca inequivocamente da “iniciativa”? Se o não fizer, só vem confirmar a sua prática (inaceitável) em várias ocasiões: O BE GOSTA DE FAZER O JOGO DA DIREITA…

    • Morgada de V. diz:

      “Ora, como é sabido, faz parte da natureza feminina (mulher-mulher e não mulher-fufa) gostar dos tais piropos ‘civilizados’ e ficar vaidosa com eles, pelo que a tal proibição seria contra-natura”.

      Eis a demonstração prática de uma variante da Lei de Godwin (aquela das analogias nazis, também conhecida por argumentum ad Hitlerum), adaptada às discussões sobre as mulheres (chamemos-lhe Lei de Morgada): numa discussão sobre direitos das mulheres, à medida que a conversa avança, a probabilidade de alguém sacar da acusação “histéricas” ou “fufas” é igual a 1 (ie, a cem por cento) – tendo como corolário lógico que quem usa falácias deste tipo perde, claro.

      • Carlos Almeida diz:

        D.Morgada de V.
        Queira fazer o obséquio de me explicar quando é que eu fiz a acusação de “histéricas” ou “fufas”. O que eu afirmei, em suma e para pessoas inteligentes, reafirmo e você também saberá que factos são factos, foi que a natureza feminina só pode ser representada por uma mulher-mulher e não por uma mulher-fufa. Gostaria, igualmente, que me explicasse como é que a Lei de Godwin pode ser aplicada ao que eu escrevi.
        Para terminar: é capaz de me explicar porque é que não se pronunciou sobre o cerne da minha intervenção, ou seja, sobre a total inutilidade e inoportunidade da discussão em causa face aos reais problemas dos seus (talvez) concidadãos e sobre o facto do BE fazer o jogo da direita? Será exactamente devido à confirmação daquilo que eu disse, só lhe interessando questões marginais na conjuntura actual e que não conduzam a raciocínios para a defesa da cidadania?

        • Morgada de V. diz:

          A decorrência do que diz parece-me óbvia: se uma mulher não gosta de ouvir um “comia-te toda” a sair de casa pela manhã, só pode ser fufa, porque todas as mulheres que não são fufas gostam – uma clara fálacia ad feminam. O “histérica” é outra variante destes ataques pessoais que tinha sido usada no post linkado.

          Sobre a oportunidade e a importância deste debate, três coisas. Ao que parece, o assédio sexual nas ruas era só um dos temas das mais de duas dezenas que o BE discutiu no tal fórum de ideias (http://www.esquerda.net/artigo/fórum-socialismo-2013-regressa-lisboa-no-fim-de-agosto/29036); ainda que assim não fosse, não vejo que debater este problema nos impeça de discutir ou de encontrar soluções para outros; e registo finalmente um paradoxo saboroso: para um tema que é “marginal”, que não tem importância nenhuma e não merece ser discutido, há uma profusão de artigos em jornais, de posts em blogues (só o 5dias publicou 15 – o Renato leva a palma, com seis ou sete posts) e uma avalanche de comentários. Imagine-se se fosse de facto importante.

          • Carlos Almeida diz:

            D.Morgada de V.
            Dado que a conversa westá a resvalar para aquilo que eu não quero, isto é, alimentar o debate, em concreto, sobre o assunto focado, terminarei a minha participação com o presente comentário o qual terá de ser um pouco mais longo.
            Apenas lhe deixo aqui 2 comentários:
            1 – Você está a fazer uma grande confusão sobre o que eu afirmei, a tirar ilações erradas e está a recusar-se seguir o meu raciocínio. Talvez por isso não consiga discernir que os meus textos não pretendem traduzir o que eu penso sobre o assunto (com já disse, não quero alimentar um debate com cuja existência não concordo), mas apenas demonstrar a inoportunidade e a esterilidade do debate que foi lançado e o quanto ele prejudica os Portugueses que sofrem; sempre lhe digo, contudo, que eu próprio era incapaz de me dirigir a uma mulher com um “comia-te toda”, pura e simplesmente porque, a propósito deste exemplo, interessa-me mais praticar do que apenas verbalizar, porque considero qualquer tipo de piropo gratuito e inútil (mesmo sabendo que as mulheres-mulheres gostam dos tais “civilizados” embora digam que não) e porque, a meu ver, o exemplo que dá e outras situações do género constituem sim uma total cobardia que o verdadeiro homem não pratica.
            2 – Dou-lhe razão quanto à inusitada atenção que este tema, marginal, tem merecido. Quanto a mim, isso tem uma explicação que só vem consubstanciar o que eu afirmei no meu 1º “post”, e que é muito comum nos Portugueses: trata-se de mais uma manobra de diversão com um não assunto, para assim se poder enterrar a cabeça na areia e não ter de enfrentar/discutir as reais dificuldades que afligem a grande maioria dos nossos compatriotas e até mesmo os que utilizam essas manobras de diversão, antes desviando as atenções.

            Terei de concluir mediante um novo “post” (já de seguida), pois o “blog” não me deixa prosseguir.

          • Carlos Almeida diz:

            CONCLUSÂO DO “POST” ANTERIOR

            É, portanto, uma postura que não é nada nobre, que é condenável e que é a principal causa de termos o governo que temos, de a maioria estar na miséria enquanto uns quantos tubarões estão cada vez mais gordos, de mesmo os que se dizem de esquerda e revolucionários se limitarem a participar em manifestações (que, está mais do que provado, não são e jamais serão ouvidas) em vez de juntarem a isso acções concretas que levem os militares (ou seja, aqueles que dispõem dos meios) a agir (correr com o governo “à paulada”) em prol do seu povo que eles juraram defender, das sondagens (mesmo que manipuladas) continuarem a atribuir mais de 20 % ao PPD/CDS, etc, etc.

  6. Rocha diz:

    Tive a oportunidade de participar numa conhecida experiência de activismo assembelário e social em defesa dos jovens de um bairro pobre (um dos chamados problemáticos) numa das cidades deste país. Não vou revelar onde e qual para evitar discussões maçadoras sobre detalhes e vírgulas e para evitar eventuais juízos de valor e estigmas que recuso apoiar.

    Vou directo ao assunto. Assisti em assembleias e no dia à dia do projecto, ao revelar de situações que levaram a bocas dos jovens do bairro do género (mas não textualmente, não posso precisar): vê lá se queres levar nas trombas (dirigidas a gajos) e comia-te toda (dirigidas a gajas). E aqui também está uma coisa que me irrita nesta discussão que é enquadrar o problema das bocas desagradáveis, ofensivas ou de mau gosto como um problema exclusivo das mulheres.

    Seguindo a lógica do debate do piropo no BE (que iniciou toda esta discussão), o que há a fazer é aumentar a repressão sobre estes bairros, que ainda é pouca, vejam lá!!!

    Além disso posso afirmar que algumas das ofensas e ameaças verbais que referi acima partiram de putos de 12 anos ou talvez menos.

    Acho que há uma ideia subjacente ao mote das pessoas que iniciaram o debate que me provoca a mais profunda repulsa que é a ideia de esterilizar a miséria. E é isso precisamente que fazem os países nórdicos que exploram a miséria alheia sempre com a preocupação de isso acontecer o mais longe possível da vista dos seus civilizados cidadãos.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      “…esterilizar a miséria…”

      Expressão que merece ser retida e que terá aplicação em muitas mais situações. Obrigado.

  7. von diz:

    Felizmente, as mulheres na sua generalidade, não vão ligar nenhuma a esta palhaçada. As que gostam de piropos, e que estão no seu direito, vão continuar a gostar. As que não gostam, muitas vão continuar a ignorá-los, e outras tantas a responder-lhes à letra. Só um pormenor: a palhaçada de dizer que, se não há uma relação entre duas pessoas, o simples facto de um homem, por exemplo numa festa, dirigir-se a uma mulher que deseja conhecer e dizer-lhe “és muito bonita”, ser considerado assédio sexual ou derivado, levanta uma dúvida – deve então dito homem pedir autorização à dita mulher para a interpelar, por carta ou requerimento reconhecido notarialmente? Como se regulariam então os momentos e situações de conhecimento entre pessoas?

    • Antónimo diz:

      Eu estou a ver várias de maneiras de falar com a pessoa sem ter de fazer considerandos físicos a abrir as hostilidades ou mandar papel timbrado.

      • von diz:

        Admito que sim, mas entrar nesta lógica do piropo ser crime, implica a decisão subjectiva do que é piropo ou não.

        • Antónimo diz:

          parece que de acordo com o dicionário “piropo” é sempre agradável e há nisso muito de subjectividade, mas atendendo a que há quem independentemente do teor se melindre ou ache inadequado, parece que o melhor será evitar fazer às pessoas comentários que oscilarão sempre entre o despropositado e não solicitado (mesmo que de teor positivo) e o grosseiro.

          claro que cada pessoa é uma pessoa, mas não vejo que por causa de muitas pessoas que nem sequer se melindram se possa entrar no espaço de outra que se melindre.

          tornar crime é forte (e já existe de certeza moldura para isto), mas também não percebo muito bem nem a urgência, nem a inteligência, nem a necessidade da abertura deste debate nos termos feitos. Até por ser óbvio que feito agora ia esmagar tudo o resto.

  8. operation wolf diz:

    Carlos Almeida, um exemplo do machismo e do patriarcardo presente no assedio sexual verbal; 1. ele sabe do que as mulheres gostam; 2. Não só sabe do que as mulheres gostam como sabe distinguir uma verdadeira mulher (a mulher heterossexual); 3. Ele não usa piropos como “o comia-te toda” porque ele prefere comê-la toda.
    São este tipo de intervenções do sr Carlos Almeida que nos dizem da urgência e pertinência do debate lançado por ests actvistas..

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