Nem Assad, nem Obama, auto determinação

Não escrevi nada aqui sobre a Síria porque a coisa chegou a um ponto em que grassa por aí a teoria bárbara – pobre e sem história – de que ou estamos com Assad ou com Obama. E o debate à esquerda sobre se usou ou não armas químicas é significativo da pobreza da discussão – é preciso Assad usar armas químicas para ter a nossa repulsa? Um ditador só será condenado se usar métodos genocidas? Por outro lado, com armas químicas ou não, com capacetes azuis ou não, a invasão norte-americana é sempre injustificável. Injustificável.

A qualidade do debate que por aí grassa seria mais ou menos o mesmo que Portugal ser invadido pelo exército norte-americano em 1960 e sermos convencidos a escolher entre estar ao lado de Salazar ou de Kennedy. Extraordinário esse pensamento – apoiado classicamente pelos partidos comunistas ex estalinistas – que contra o imperialismo norte americano apoiamos um ditador. Não conseguem esconder porém que um ditador, pró ou anti americano, é sempre um ditador e portanto um horror para qualquer povo.

Como se um povo evoluído, moderno e urbano como o sírio estivesse resumido ao apoio ao ditador Assad ou a defender as bombas norte-americanas da democracia liberal de Obama que de democracia tem o nome, nada mais. Não haverá por lá, pela Síria, uma resistência, ainda que agora seja minoritária, mesmo que muito minoritária, que defenda a auto-determinação e que essa sim deva ser por todos nós apoiada? Confesso, nem Assad nem Obama. Se em Portugal houver manifestações contra esta invasão lá estarei, contra a invasão de Obama, contra Assad e pela auto determinação do povo sírio. Se me disserem que é impossível, porque o povo não se consegue auto determinar – facto em que obviamente não acredito, não estamos a falar de macacos pré históricos – , então prefiro nem tomar posição, porque essa conversa do mal menor foi chão que deu uvas. Podres.

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23 respostas a Nem Assad, nem Obama, auto determinação

  1. João Carvas diz:

    Raquel,não é difícil haver autodeterminação quando se luta contra um ditador que está disposto a gazear os seus concidadãos. Acho que estivesse na resistência síria, gostaria de ter uma mão do ocidedente. Não arriscaria a vida dos meus familiares por orgulho revolucionário.

    • A.Silva diz:

      Quem gazeou populações sirias foram os chamados rebeldes, como afirmou a representante da ONU Carla Del Ponte

  2. Eva Santos diz:

    Tal como o PSR nos tempos da Jugoslávia: Nem NATO nem Milosevic. Uma posição cobarde q.b. para não ser acusado de absolutamente nada. Pior é que também não serve para nada. Autodeterminação? Sem dúvida. Mas ela passa, neste momento, por travar a agressão externa e de vencer internamente aqueles que, pagos pelos mesmos que se preparam para intervir, servem os mesmos interesses: o derrube daquele que é objectivamente um entrave aos planos dos EUA e de Israel para a região. Ninguém mais do que os comunistas tinham razões para odiar o Saddam: mas como está o Iraque agora? Mais «autodeterminado»? Auto pressupõe «por si mesmo» e não há NATO nem falsos rebeldes (pagos precisamente pela NATO) que garantam essa autodeterminação.

    Na síria há uma resistência, pois. Que combate a agressão! Que luta pela Paz e por uma pátria independente e soberana! E que neste momento apoia o governo e as forças armadas sírias.

    • CausasPerdidas diz:

      Só para lhe lembrar que na Sérvia havia uma oposição política de Esquerda a Milosevic, que sempre se manifestou contra os ataques imperialistas da NATO – se pensa que as manifestações contra a NATO na Sérvia que viu (pouco) na TV eram todas de apoio a Milosecic, desengane-se. Era com esses que o PSR estava, e tê-los-á visto na manifestações contra a NATO em Portugal, ao seu lado, sem se preocuparem se “estavam a “fazer o jogo do Milosevic” como diriam os outros do outro lado do preto e branco.
      Tal como a União Soviética, a desagregação da Jugoslávia foi uma derrota do movimento operário mundial. E creia no que digo: começou bem antes da explosão dos “nacionalismos”, da sabotagem ocidental e dos ataques da NATO.
      O amor à Jugoslávia, vindo da corrente política que perseguiu e assassinou os “traidores titistas” (com a mesma inclemência dedicada aos “trostkistas”), não deixa de ser curioso.

  3. Nuno Ruas diz:

    Muito bem. Então QUEM apoia a Raquel? Uma suposta resistência «autónoma» e «independente», mas que – ups! – não existe? Grande servicinho!

  4. Mário diz:

    era melhor kennedy

  5. José António Jardim diz:

    Vá lá,não se faça de neutra neutra Srª.Doutora Raquel…aposto que tem um “fraquinho” pelo Obama..ele é prémio Nobel e causa fascínio a pessoas do seu género.Aposto que está disponível para abrir o “espaço aéreo” da Siria á ação humanitária da nato tal e qual os “outros” “esquerdelhos” em relação á Libia.Aposto!!!!!!

  6. Rocha diz:

    Eu só queria perguntar à Raquel se tem noção que a Síria já está a ser agredida à 2 anos? Tem noção que os chamados “rebeldes sírios” já impõem a ditadura medieval da al qaeda a vastas regiões da Síria? Tem noção de que o Exército Árabe Sírio comandado por Al Assad é a única linha de defesa nomeadamente das minorias alauitas, xiitas, cristãs e druzas mas também de sunitas que não adoptam o fundamentalismo? Tem noção que os “rebeldes sírios” adoptaram a doutrina da punição colectiva contra “os colaboradores de Al Assad” (assim consideram regiões inteiras, cidades, bairros, vilas e aldeias)? Já viu o que a Líbia é hoje? Quem se não Al Assad e o Exército Árabe Sírio impede a Síria uma vez tomada pelos “rebeldes” se transforme numa nova Líbia?

    São apenas dúvidas que eu gostaria que esclarecesse nessa sua posição.

  7. Ash diz:

    A questão não é, de todo, se estamos com Assad ou com Obama. É, se da actual correlação de forças no terreno, pode sair, caso o regime de Assad for derrubado, algo que possa assemelhar-se remotamente a um caminho de auto-determinação (tipo “nem NATO nem pacto de Varsóvia”) . “Não haverá por lá, pela Síria, uma resistência, ainda que agora seja minoritária, mesmo que muito minoritária, que defenda a auto-determinação e que essa sim deva ser por todos nós apoiada?” Muito bem, Raquel Varela, e quem é que vai armar e treinar essa minoria, que de facto existe, (eu? vc? o PCP e o Bloco de Esquerda? os capacetes azuis da ONU?) para combater simultaneamente o Exército Sírio e os fundamentalistas islâmicos (que funcionam como proxy dos interesses americanos, sauditas,israelitas etc)? Por outro lado, sendo minoritários, que condições teriam para travar uma guerra civil desta magnitude sem se aliarem a qualquer um dos players dominantes, no que seriam previsivelmente instrumentalizados e descartados assim que o seu apoio se tornasse dispensável? A Síria neste momento é um atoleiro sectário – e não é por serem “macacos pré históricos” – mas porque os macacos modernos que compõem este ramalhete de interesses histórico-culturais locais profundamente enraizados (religiosos, tribais, etc) e geo-estratégicos (USA, Rússia, Israel, etc,etc) não têm nenhum interesse numa saída “progressista”, não nos termos em que a Raquel Varela, ou qualquer esquerdista ocidental bem intencionado, a colocam.
    Portanto, um pouco de humildade não faz mal nenhum neste caso, e admitir que estamos a falar de uma situação em que a Esquerda mundial não será tida nem achada, não para além de um sentimento humanitário-universalista de repúdio à guerra, e ao envolvimento nela das potências, que pode ser gerado na opinião pública através do activismo e de manifestações.

  8. M.Almeida diz:

    Não se consigue entender é a falta de mobilização nacional e mundial , como houve em 2003, para se fazerem marchas pela PAZ. É estranho e não se entende Ou será porque na Casa Branca está Obama e não Bush? Estranhíssima falta da mobilização, principalmente de uma esquerda que normalmente nestas coisas nunca falha. Foi o que se viu com o Iraque, foi o que se viu com o a flotilha da Palestina. Até a comunicação social que é tão dada a apoiar estes movimentos nada diz. Parece-me bem que o facto de ser Obama a tomar esta decisão tem muita influência!

    • Rocha diz:

      A comunicação social costuma apoiar estes movimentos????????? Olhe é tão absurdo que nem consigo responder.

      Claro que devíamos organizar protestos contra mais esta guerra e contra as potências imperialistas ocidentais. Mas francamente, que a comunicação social faz parte da máquina de guerra já devia ser um facto conhecido por todos os activistas anti-guerra.

  9. Argala diz:

    Raquel,

    Como é que essa posição se traduz, de forma concreta, no terreno. Isto é, imaginemos que a Raquel é a SG do PC Sírio, e tem à sua disposição um Exército. Que vai fazer com ele? Combater os dois lados da barricada ao mesmo tempo? Ou, como me parece ser o mais correcto, fazer uma aliança táctica contra o mais perigoso dos inimigos (o imperialismo) e derrotar depois a burguesia nacional.

    “A qualidade do debate que por aí grassa seria mais ou menos o mesmo que Portugal ser invadido pelo exército norte-americano em 1960 e sermos convencidos a escolher entre estar ao lado de Salazar ou de Kennedy.”

    Pois Raquel, mas há aqui um problema. Salazar não financiava e armava movimentos de resistência e de libertação nacional contra o imperialismo. De Salazar não dependia a sobrevivência do Líbano, nem a resistência palestiniana. A analogia é barata e não colhe.

  10. Cara Raquel,

    O seu raciocínio é muito bonito, mas há uma guerra por lá. Portanto, ficamos diante das seguintes opções:

    1 – Escolher o lado dos rebeldes.
    2 – Escolher o lado de Assad.
    3 – Cruzar os braços.

    Porém, convém que numa guerra cruzar os braços significa tomar o partido dos mais forte.

  11. kur diz:

    Drª Raquel,estamos no limiar dum Guerra, à pala do Imperialismo
    Se calhar já está na altura duma guerra,uma vez q há tantas cabeças ôcas q fazem o servicinho da Wall street.Leia ,s.f.f. http://www.eutimes.net/2013/08/putin-orders-massive-strike-against-saudi-arabia-if-west-attacks-syria/

  12. Herberto diz:

    As minhas desculpas, mas é preciso escolher e entre um e outro, prefiro o regime de Assad. Não o conheço, mas muito sinceramente qualquer coisa é preferível aos “takfiris” que comem os corações dos seus inimigos e cortam as cabeças de padres com pequenas navalhas.

  13. Caxineiro diz:

    este seu post poderia ter sido escrito para a “revolução Líbia”
    O que temos na Líbia?

  14. patilhas diz:

    Penso que esta poderá ser uma resposta, entre outras que possivelmente nunca ouvimos falar, aquilo que a Raquel V. fala no seu texto:

    [Siria] Vida y obra del anarquista Omar Aziz, y su impacto en la autoorganización en la revolución siria

    Omar Aziz (cariñosamente apodado Abu Kamal por sus amigos) nació en Damasco. Regresó a Siria de su exilio en Arabia Saudí y los Estados Unidos en los primeros días de la revolución siria. Intelectual, economista, anarquista, marido y padre, a los 63 años se comprometió con la lucha revolucionaria. Trabajó junto con activistas locales para recaudar ayuda humanitaria y distribuirla en los suburbios de Damasco que estaban bajo ataque del régimen. A través de sus escritos y de su actividad, promovía el auto-gobierno local, la organización horizontal, la cooperación, la solidaridad y el apoyo mutuo como las formas mediante las cuales la gente puede emanciparse de la tiranía del estado. Juntamente con sus camaradas, Aziz fundó el primer comité local en Barzeh, Damasco. El ejemplo se extendió a través de Siria y con él han surgido algunos de los más prometedores y duraderos ejemplos de autoorganización no jerárquica en los países de la Primavera Árabe.

    Para ler o resto: http://www.alasbarricadas.org/noticias/node/26064

    Saudações libertárias

  15. Vanessa diz:

    Tem esquerda que é cega….

    O regime do Assad e do pai, reprimiram brutalmente ao longo dos anos qualquer revolta, e houve muitas, a Siria é uma manta de retalhos, constituida por muitas comunidades que se odeiam, os alauitas minoritários para se manterem no poder, instalaram um regime de terror, isso é público, todos o sabem.

    É por isso incompreensivel a defesa dos ditadores Assad e pai.

    Para onde vamos se a Esquerda se põe a defender toda a escumalha.

    Onde ficaram os principios, na gaveta?

    Se a dita oposição são um bando de pulhas, os Assad não lhe ficam atras.

    Pobre povo sirio, entregue a esta gente.

    • Herberto diz:

      O povo sírio já foi chamado a responder a um inquérito e preferem Assad como presidente. São cerca 70% de sírios.
      Entre a chamada “escumalha” que designa como defensores de um tirano que está casado com uma síria britânica, a quem a comunicação social acusa de várias coisas, estão muitos políticos americanos. Creio que o melhor é mesmo estar com atenção e não optar pela banalidade do discurso, sob pena de também se tornar uma pessoa banal.

  16. João diz:

    Raquel, lamento que na sua idade – é uma jovem – esteja já num estado físico em que não consegue dar um passo sem bengala: a cada dois parágrafos, lá se agarra ao ódio de estimação (para não ficar desamparada e suspensa no ar de ideias inconsequentes) e atira huma bojardas em direcção a lado nenhum. Gente assim faz muita falta: não aqueles de quem diz ser aliada, mas aqueles de quem objectivamente o é.

  17. Num outro contexto tive ocasião de escrever algo como «são tão poucas as nossas divergências»… Pelos vistos algumas dessas (poucas) divergências são de fundo.
    Se me permite, neste caso, o erro da Raquel (e de todos aqueles que se colocam na posição de «ou isto ou aquilo», mas erro estranho numa historiadora…) será talvez o clássico erro das dicotomias (aqui poderíamos também falar de maniqueísmo), erro esse que passa de lado em relação à dialéctica da vida. Do devir permanente de todas as situações humanas… De onde vimos e para onde podemos estar a ir.
    No caso concreto aqui em causa, a guerra de agressão à Síria (tal como na guerra de agressão ao Iraque…) os comunistas em especial podem estar particularmente à vontade para condenar esta agressão até na medida em que os partidos comunistas do Iraque e da Síria viveram por vezes conjunturas e ocasiões de repressão por parte dos Partidos Baath.
    Na minha modesta opinião estas coisas todas da política – da espuma dos dias – têm mesmo que ser vistas com a distância de décadas. Daí o meu espanto com a sua opinião dado o facto de que, sendo a Raquel uma historiadora, esperava da sua parte que visse a coisa com a distância temporal adequada à evolução histórica de décadas. Para não falar mesmo de «ondas temporais» ainda mais extensas… Poderiamos falar aqui de uma «onda secular», quer no sentido de ter uma amplitude de séculos, quer no sentido de que, tal como acontecia com o regime de Sadam Hussein, o regime de Hafez/Bashar al-Assad ser claramente um regime laico, ou seja «virado para o mundo secular».
    Assim sendo trata-se clara e literalmente de um regime progressista. No sentido em que procura «marchar para o progresso laico e republicano».
    Que o regime de Hafez/Bashar al-Assad seja uma ditadura é algo que não discuto sem também discutir a ditadura do Marquês de Pombal (por exemplo) ou de Kemal Ataturk. Ou seja, o que mais me importa é a direcção histórica prosseguida por essa «ditadura»… Até porque todos nós vivemos sujeitos (alguns mais insubmissos do que outros) à ditadura (cada vez mais visível) dos «mercados». Ou seja, a ideia de «ditadura» e de «democracia» tem muito que se lhe diga.
    Tendo em linha de conta todas estas coisas acho que todos os que se reclamam do Progresso e da Paz devem estar claramente do lado daqueles que – prosseguindo os mesmo objectivos históricos – estão a ser atacados, ainda que em alguns casos esse apoio possa (eventualmente ) ser «a contragosto», ao estilo «do mal o menos»…
    Saudações cordiais.

  18. Carlos Carapeto diz:

    Raquel.

    Já que está a colocar o problema dessa forma, também tinha o dever de apontar o caminho para a sua solução.

    Enredou-se numa confusão de tal ordem que não vai conseguir sair dela de maneira nada airosa.

    Para uma historiadora não é nada dignificante.

    Não pretendo dar-lhe lições, não tenho conhecimentos e ainda menos estatuto para tal.

    Aconselho-a a consultar quem está mais habilitado.

    Pode começar por Halford Mackinder, Alexandre del Valle; Brzezinski, Yves Lacoste, Ziuganov, Pezat Correia.
    Consulte as opiniões destes especialistas em geoestratégia que fica a conhecer as origens do conflito na Síria e não só.

    Ignora que as proporções que o conflito tomou, neste momento teoricamente só existem dois lados?

    A Raquel com o seu comentário está a pretender dar um ar romântico a uma guerra de proporções dramáticas que extravasa as fronteiras do Médio Oriente.
    Inteire-se conhecer primeiro as teorias do Heartland de Mackinder, são muito velhinhas.

    Era muito lindo a meio da “cena” aparecer alguém impondo a voz, dizendo, vocês estão todos errados, vamos lá tomar outra direção.

    Nas condições atuais só existem dois caminhos. Sentam-se à mesa para negociar, como pretende o governo Sírio, ou então peleiam até destruir o país completamente e uma das partes for vencida.

    Sabe quanto pagaram os Americanos para promover a deserção de oficiais do exercito Sírio? Quinze milhões de dólares!

    Não serviu de nada o exemplo da Líbia, onde uma parte da população já tem as piores condições de vida de África.

    Aqueles que apoiaram a agressão à Libia agora remeteram-se ao silencio.
    Que é o caso da Raquel.

    Estranho?

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