No caminho para a escola, era certo como dois e dois serem quatro: um grunho qualquer havia de me rosnar “ah, boazona! fodia-te aqui já toda!” ou “que boa boquinha pró meu caralho” ou outra delicadeza semelhante. Nos dias piores vinham em grupo e riam-se muito, noutros chegavam mesmo a tocar-me. Que mal tem uma mão a roçar o meu braço? O mal suficiente para me deixar com vontade de lixar a pele até sair todo o asco.
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Anos mais tarde, em conversa com um amigo a propósito de um ksssssss! que me fora ciciado demasiado perto do ouvido, ele achou que eu estava a exagerar. Mas depois foi conversar com a sua mulher, que atravessara a adolescência com copa C, e ficou inteirado. E chocado. Nem durante a gravidez a respeitaram, e muito menos com um recém-nascido ao colo. O marido não se dera conta de nada disso.
A nossa sociedade não repara no que fazem às raparigas mal o seu corpo começa a ganhar formas de mulher. E prefere ignorar que, no espaço público, as mulheres são repetidamente sujeitas a frases humilhantes e intimidatórias. Diz que são piropos, fazem parte do folclore nacional, dão mais colorido à rua – e quem não gostar, que se defenda.
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Pergunto-me porque é que algumas pessoas (por cuja seriedade na discussão de ideias tenho, e mantenho, o maior apreço) estão a bagatelizar e a ridicularizar este tema, perguntando “que mal tem fazer um elogio a uma desconhecida?” como se fizessem questão de ignorar que o que está em causa são atitudes de intimidação das mulheres.
Mais: a que propósito se tenta deslocar a questão para um eventual problema que as mulheres terão com o seu próprio corpo, ou para os guetos ideológicos (serão marxistas compulsivas…), e sabe-se lá que mais?
Também não percebo porque é que, em nome do feminismo, se afirma que este é um problema que cada mulher saberá resolver, e que fazer dele tema de debate chega a ser ofensivo para as mulheres. Equiparo estes ataques aos das frases racistas e homofóbicas – porque é que não havia de ser um problema tematizado pela sociedade? E alguém se lembraria de dizer que uma frase racista largada na rua contra uma pessoa de pele escura é um problema que aquela pessoa tem de saber resolver sozinha, ou ignorando, ou metendo o agressor na ordem, nem que seja com uma bofetada? Vá, não brinquem comigo.
(o resto do post também é muito recomendável, e pode ser lido todo aqui)