Piropa-mos

Lembro-me de um acampamento do Bloco de Esquerda em que tínhamos preparado um workshop de desobediência civil e como rapidamente e com alguma facilidade se gerou um grande polémica na comunicação social sobre como os jovens do BE iam aprender a assassinar polícias e fazer bombas.

Mudam-se os tempos, mudam-se os jornalistas, mudam-se os temas polémicos. Um debate que irá ter lugar no Socialismo 2013 sobre o piropo como assédio sexual rapidamente e facilmente transformou-se numa alegada proposta de criminalização do piropo. A diferença é que desta vez acertaram, só que não é uma proposta do BE. Já consta na lei, tal como a Andrea Peniche fez o favor de elucidar no Facebook:

Sobre o assédio

August 28, 2013 at 9:06pm

Cheguei tarde à discussão, mas a minha curiosidade foi aguçada depois das coisas que fui lendo. Pelo que li, a ideia com que fiquei foi a de que o Bloco de Esquerda se preparava para apresentar um projeto de lei para penalizar o piropo. Esta discussão estava tão acesa que sobre ela se podiam ler vários argumentos, dos mais palermas aos mais complacentes.

 

Decidi, no entanto, ir ler o texto que lançou a polémica e convido-vos a fazerem o mesmo. Podem encontrá-lo aqui: http://www.esquerda.net/artigo/socialismo-2013-engole-o-teu-piropo/29127

 

E, pasme-se, o texto é sobre assédio e não há vestígios de projetos de lei! As suas autoras defendem a tese de que o assédio deve ser enquadrado na violência contra as mulheres. Defendem uma série de argumentos que sustentam a sua tese e convidam toda a gente para o debate. Parece-me isto um procedimento bastante correto. 

 

As várias palermices que li recorriam, algumas, sem grande originalidade, a ridicularizações absurdas, parecendo revelar um certo mau-estar com o assunto «piropo». Outras resgatavam outros deserdados do mundo para tentar acantonar as autoras do texto num radicalismo incongruente, afirmando que as mulheres não são as únicas a quem são lançados piropos. Sobre os mais marialvas nem sequer me pronuncio. Acontece que as autoras do texto são claras na deimitação que fazem do assunto: Deve o assédio ser considerado violência contra as mulheres?

Perante tudo isto, a questão que me coloquei foi a seguinte:

 

– Reagirão assim as pessoas porque se pretende condenar uma prática a que recorrem? Será isto revelador de uma certa má-consciência? Têm as pessoas assim tanto medo de se verem ao espelho? A crítica é boa mas a autocrítica é devastadora?  Não sei nem posso adivinhar.

 

O que sei é que sobre o facto de o assédio ser considerado uma forma de violência contra as mulheres pouco li. Fui, pois, procurar mais informação e cruzei-me, no site da CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego), com as seguintes definições:

 

«Assédio é todo o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em fator de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional como objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.»

 

Mais abaixo, encontra-se a definição de assédio sexual:

 

«Assédio sexual é todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, nao verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.»

 

 (Cf.: http://www.cite.gov.pt/pt/acite/dirdevtrab005.html)

 

Não sei como é convosco, mas, perante isto, eu concluo: o piropo é assédio e o assédio é violência.

Obrigada Adriana Lopera e Elsa Almeida por trazerem para a praça pública a discussão.

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38 respostas a Piropa-mos

  1. Rocha diz:

    E que tal um país só com meninas queques e metrossexuais de gravata cor de rosa? É preciso proibir o povo de existir primeiro.

    Só uma achega: essa proposta devia vir acompanhada de grandes investimentos na construção de novos centros prisionais porque os temos não chegam para as encomendas.

    • alexmgomes diz:

      Tens a certeza que leste o post? Não é uma proposta, já é considerado assédio pela lei actual.

      • CausasPerdidas diz:

        Qualquer metalúrgico lhe explicará que malhar em ferro frio é perder tempo. Já leu o que por aí vai? Para “marxistas” como estes a Rosa de Luxemburgo era uma mulher de tomates.

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Para que fique claro, nunca disse um piropo a nenhuma mulher. Acho os piropos pirosos e, por vezes, ofensivos e inconvenientes. Acho que os piropos, quando insistentes e desregrados PODEM ser assédio. Mas não se pode afirmar, urbi et orbi, que o piropo é necessariamente assédio e muito menos violência. Mas também acho que a maioria das mulheres, com um bocadinho de bom senso, podem evitar as situações em que o piropo – e sobretudo o piropo ordinário – pode aparecer. O sexo existe e nós estamos biologicamente condicionados para responder, hormonalmente, a certos estímulos visuais do corpo de uma mulher, sobretudo de uma mulher jovem e atraente. As mulheres que acham que podem ignorar essa realidade acabam por poder ser cúmplices das situações desagradáveis em que por vezes se vêem. Algumas mulheres gostam de ser o centro das atenções e gostam de sentir que são sexualmente atraentes, e depois ficam muito incomodadas quando essa atração – por elas deliberadamente reforçada – acaba por ter consequências indesejadas. Mas na maior parte dos casos uma mulher inteligente tem sempre uma saída airosa, que é a de ignorar totalmente o piropo e o seu agente. Porque nada irrita mais um homem do que ser paulatinamente ignorado… Quem não é inteligente e gosta de imitar a minhoca no anzol, acaba por vezes por ser abocanhada… Conheço muitíssimas mulheres e raparigas, e nunca ouvi nenhuma queixar-se de ser alvo de piropos ordinários. Será por serem inteligentes e saberem gerir as suas vidas de forma a minimizar os riscos?…

  3. djugashvili diz:

    Vão bardamerda mais os piropos.Está-se a preparar uma guerra a sério e,andam aqui a falar de lana caprina.Seus tótós úteis…
    http://www.eutimes.net/2013/08/putin-orders-massive-strike-against-saudi-arabia-if-west-attacks-syria/

  4. tatiana diz:

    fico satisfeita por ver outra opinião no 5dias…
    todavia, há ainda um acrescento que gostaria de fazer: o assédio sexual é crime sim, mas dentro do contexto laboral.
    este, e infelizmente!, não existe na nossa legislação enquanto crime no tal espaço público de que a Adriana Lopera e a Elsa Almeida falam.

    • Francisco diz:

      Não, Tatiana. O assédio sexual é crime. Não só em contexto laboral mas em qualquer contexto.

      • tatiana diz:

        não, não é.
        apesar de existir no código de Trabalho (artigo 29º), o assédio sexual não tem correspondência no penal.
        neste último poderemos encontrar sim, alguns (poucos!) dos comportamentos que correspondem aos de assédio sexual, a saber: o artº 143º e seguintes relativos às ofensas à integridade física, simples ou agravada; o artº 163º relativo à coacção sexual e que está próximo do 164º que diz respeito à violação; e o artº 170º sobre o exibicionismo.

  5. um anarco-ciclista diz:

    o argumentário dos prós-piropos… é um decalque farsola do discurso(?) dos praxistas: dizem que há o bom e o mau piropo, tal como os praxistas falam nas boas e más praxes…

    Triste marialvismo de esquerda!

    • CausasPerdidas diz:

      Mesmo na “mouche”!

    • filhos da diz:

      essa comparação absurda deixa-te descansado?
      triste pseudo-revolucionarismo dos activistas profissionais…

      • um anarco-ciclista diz:

        pois eu acrestava: “tristes onanistas” que por aqui ejaculam… Gostava de saber se achariam tanta gracinha aos piropos se fossem dirigidos às vossas namoradas ou irmãs…?

        • É perguntar ao ao irmão ou à irmã, ao namorado ou à namorada da Inês, Pedrocas.

          • um anarco-ciclista diz:

            Renas… depois do teu bloqueio no facebook, muito me espanta que queiras agora novas inter-acções. até porque tu plos vistos e comprovadamente, piropos só se for com a namorada alheia.

            Contudo, tendo em conta a cruzada que empreendeste e como sei que não tens nenhum fetiche com “protagonismos”, deixa-me endereçar-te os parabéns pela campanha anti-bloco de esquerda que lançaste servindo-te dos instintos mais baixos do ser humano.

          • Obrigado pelo piropo ciclista mas a tua causa, comigo, está mesmo perdida.

        • anjinho de purezinha diz:

          se ninguém tivesse andado a FODER A TUA MÃE se calhar não andavas por aqui a escrever parvoíces…

  6. Tima diz:

    Alex! Agradeço seres a única pessoa que publicou aqui até agora uma espécie de desmentido e ao mesmo tempo uma espécie de crítica ao que se vem escrevendo aqui nesta espécie de blogue de esquerda! Os “marxistas/estalinistas” aqui do burgo andam com ódios trocados. Para eles o lema é: CONTRA O BLOCO DE ESQUERDA, MARCHAR, MARCHAR!
    Pois é. Já fizeram contas e sem os quase 8% de votos do BE a CDU (PCP mais um partido que deveria estar no BE o PEV) impedem o PCP de ser a grande alternativa de Esquerda em Portugal!
    Mas o que acho particularmente lamentável que em tempo da chamada época parva nada mais parvo do que andar aqui aos piropos com bocas parvas ao BE. Mas este blogue já há muito encontrou o seu verdadeiro inimigo. Qual PSD, qual CDS, nem os traidores do PS. Qual troika, qual austeridade, quais swaps, quais PPP. O grande mal do ano e quem sabe do milénio é falar de uma “notícia” que afinal nem é verdadeira mas que tem o aval do BE. Para estes “rapozolas e raparigolas” que por aqui andam o aversário até pode ser eventualmente a direita mas o verdadeiro inimigo é o BLOCO DE ESQUERDA!

  7. imbondeiro diz:

    E, se num belo e quente dia, me sentar numa esplanada frequentada por lindíssimas mulheres, lendo “A Filosofia na Alcova” do Sade, será considerado assédio? Serei processado?
    Depois da judicialização da política, só nos faltava a judicialização da expressão do desejo. E, vendo nós como tem corrido a judicialização da primeira, só podemos esperar coisas boas do facto de o mesmo processo ser aplicado à segunda. Pelo sim, pelo não, passarei a andar sempre com um “termo de responsabilidade no bolso” e a todas as senhoras que comigo mais do que dois minutos privarem pedirei o obséquio de mo assinarem antes mesmo que eu profira sequer um inócuo “Boa tarde!”. É que ele há poucas coisas mais lixadas do que a Língua de Camões ( ele próprio um eminentíssimo piropeiro de
    génio ), ele há momentos do Diabo, e posso ter o magno azar de ficar afónico antes de proferir o “tarde”.

  8. imbondeiro diz:

    Lamento dizê-lo mas o debate do BE já vem tarde. O problema do piropal assédio já foi em grande parte resolvido. « E por quem?»- perguntar-me-ão, curiosos, alguns de vós. E eu, de bom grado, vos esclarecerei: pois por nem mais nem menos do que pelos génios que compõem este competente Governo PSD/CDS ( ou será ao contrário? ). Com efeito, ao destruir, sem apelo nem agravo, a construção civil deste país, o nosso avisado Executivo desferiu um golpe de morte na piropal arte do bem apreciar a pedonal moça em toda a altura. Sem obra não há andaime; sem andaime não há trolha; sem trolha não há piropo. Et voilá… case closed!!! Por estas horas, já os nossos poetas do andaime andarão de crista murcha, maldizendo melancolicamente as complexidades do Alemão, as desnecessárias virtualidades polissémicas do Francês, a falta de riqueza semântico-piropal do Inglês. E, quais passarinhos numa gaiola de Babel, já se lhes terá desgraçadamente murchado a veia lírico-piropal. A economia do país está de rastos? A malta, para pôr um naco de pão na boca dos filhos, viu-se obrigada a fazer a mala e zarpar? Isso agora não interessa nada… Alegrem-se as melindradas almas bloquistas, pois o país está acusticamente muito mais asseado.

  9. Don Luka diz:

    É ténue a linha que separa um piropo de um elogio.
    É ténue a linha que separa a assumpção acrítica de um piropo como assédio, e a definição de uma cartilha da idiotice.
    Se para a lei os conceitos são equivalentes, ou um deles implica o outro, então … legaliza-mos!

  10. JP diz:

    Caro Alexandre, vai-me desculpar mas creio que o seu post está a tentar branquear a iniciativa e as suas intenções, senão repare:

    1) Se o que a iniciativa pretende é debater a criminalização do assédio então é desnecessária porque o mesmo já se encontra previsto (e bem) na lei. Nessa medida não se percebe porque razão se está a desperdiçar tempo e dinheiro com uma matéria já “arrumada” (no sentido legal). Aliás, até é contra-producente porque volta a colar o BE ao estigma de ser um partido virado para as ultra minorias e que só se preocupa com “causas fraturantes”, vivendo desligado do mundo “real”;
    2) Se pretende sugerir que as pessoas que se insurgiram é que não leram bem e que confundiram piropo com assédio, então creio que foram os próprios autores a promover essa confusão… no próprio TÍTULO da iniciativa. Não se refere assédio mas sim piropo!
    3) Olhando para a esmagadora maioria das intervenções femininas defensoras da iniciativa verifica-se que o que elas referem como incomodativo são as bocas de que são alvo na rua, ou seja, os piropos e não o assédio sexual (por natureza agressivo, violento e continuado).

    Creio, por isso, que deverá dar a mão à palmatória e verificar que existe muito mais bom senso na defesa de uma sociedade educada e livre do que no reforço da repressão e esforço de normalização e “assepticismo” que esta iniciativa demonstra.

    Já agora, como curiosidade, gostaria de saber a posição das pessoas que promovem esta iniciativa (e a sua) em relação possibilidade de um estado proibir o uso de Burka.

    Cumps
    JP

    • Ana GB diz:

      Muitos dos piropos equivalem a assédio sexual. Digo eu, mulher, que já passei por isso. Nenhuma pessoa que não tenha passado pela situação o pode contrariar. Tenho dito. E leia o artigo original antes de responder. Não é a criminalização que está em causa mas sim o seu enquadramento no assédio sexual. 😉

  11. tatiana diz:

    caríssim@s, antes de mais, relembro que o assédio sexual não se encontra previsto na legislação portuguesa, mas apenas no actual código de trabalho, portanto: NÃO É CRIME!
    por outro lado, o assédio engloba um conjunto de comportamentos e que, considerados num continuum, poderão ser mais ou menos graves, ocorrendo não raras vezes concomitante e repetidamente.
    pois é!, o assédio começará muitas vezes pelos referidos piropos, inócuos (?!), mas que numa relação de poder mais ou menos óbvia (sendo portanto mais fácil reconhecê-la em contexto laboral) e quando persistentes são ofensivos e degradantes, constituindo um abuso por parte de quem os realiza, podendo escalar e terminar na agressão sexual.
    e daí sim, ser importante trazer à baila tal tema (leia-se também e neste caso: criminalizar o assédio sexual)… pena é que a discussão não evolua e se trave apenas no conteúdo desses mesmos piropos!!!
    votos de um debate mais proveitoso…

    • UMAR MELO diz:

      e então mariana?
      para a discussão evoluir não seria importante que te retratasses da tua afirmação que o assédio sexual só é crime no contexto do local de trabalho?

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