«Estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo»

Ao cuidado do quem não distingue uma chapada de um abraço, a rudeza da beleza 🙂

A palavra piropo deriva do grego pyropos, significando flamejante, diz um senhor desta casa, António Paço:

«Bem aventurados os bêbedos porque te vêem a dobrar»

«Acreditas no amor à primeira vista ou tenho que passar por aqui mais uma vez?”

E este que disseram a uma colega minha e às irmãs quando estavam de luto: ” Quem terá morrido no céu para os anjos vestirem de negro”.

Um homem para uma criança «Queres trocar a tua mãe pela minha?»

O clássico: “Ainda dizem que as flores não andam”.

“A tua mãe só pode ser uma ostra para cuspir uma pérola como tu”

Via Ana Rajado, Paula Varela, António Paço, Cleusa Santos

Uma dúvida minha: é pior para a emancipação das mulheres uns piropos ou passarem a vida a militar em partidos dirigidos por homens onde às mulheres ficam reservados os lugares de figuras públicas e as «pastas» dos assuntos femininos? É que em Portugal, sem qualquer excepção, vou repetir, sem qualquer excepção, todos os quadros dirigentes dos partidos políticos – dirigentes a sério, que conduzem a política das organizações – são homens. A elas fica reservada a passerelle do parlamento, umas organizações de luta pela igualdade e porta vozes de alguma coisa – quem dirige, ao lado, por baixo da mesa, ou nos bastidores, são homens. A culpa é da sociedade machista? Também. Mas também é, porventura, por as mulheres andarem tão preocupadas a dirigir-se a si próprias, tão entusiasmadas com a luta contra a sua opressão, em vez de agarrarem o mundo, todo (feito de homens e mulheres), nas mãos.

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8 respostas a «Estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo»

  1. Estou inteiramente de acordo. Só discordo da desvalorização das razões que levam qualquer pessoa ou grupo social a dizer que se sente excluído ou marginalizado – e não me refiro à Raquel mas a muitos comentários que tem surgido no facebook cheios de um machismo primário. Só por isso a estupides que é debater se o piropo deve ou não ser enquadrado legalmente na área da violência contra as mulheres já passa só por si a deixar de ser assim uma ideia tão estúpida e passa a ser necessária. Não porque eu ache que o piropo não possa ir do saudável, agradável e prazeroso até à ofensa, uso de autoridade ou abuso de poder, mas porque ainda remos muito caminho a percorrer até que as mulheres possam ser autónomas. Até que possam apropriar-se dos espaços, do seu corpo e da sua vida sem serem avaliadas por isso enquanto grupo – idem para LGBT, prostitutas, ciganos, emigrantes não qualificados.
    E isto não acontece só nas pastas do parlamento e do poder, acontece nos movimentos sociais e de intervenção onde pessoas como a Raquel ou como eu lutamos todo o dia – os protagonismos que contestamos na luta social, tem eles em si, também as marcas da classe, do género, do elitismo simbólico – os exóticos são os assistentes, os iletrados são os soldados.
    E isso não se consegue com “feminismos da treta”, pois não, mas também não se consegue sem uma posição crítica de todas pessoas que não se enquadrando no grupo da militância “feminista da treta”, assumirem que querem exactamente que as mulheres, tal como os homens ou as crianças se possa dirigir a si mesmos numa sociedade mais igual – isto é que não considere as diferenças individuais características que limitem um grupo, e que as mesmas não impliquem a convivência saudável na sociedade. Do mesmo modo que um “feminismo da treta” que não ouça o que tem a dizer a crítica das relações de trabalho, desigualdades no acesso aos recursos e estratificação social nunca se tornará um feminismo crítico mas simplesmente um alento de histeria de um grupo de classe média branca.

  2. imbondeiro diz:

    Completamente de acordo, cara Raquel Varela.

  3. JP diz:

    Num bar…

    Ele: Desculpe mas estava do outro lado da sala e reparei em si. Gostava de vir comigo para discutirmos o marxismo dialético e a sua relação com a soberania dos povos africanos?
    Ela: SEU PORCO!

  4. imbondeiro diz:

    As mesmas mulheres que conquistaram a pulso o seu merecido lugar em todos os graus de ensino, nas forças armadas, na carreira médica, nos bombeiros, na polícia, nos negócios e em todos os campos profissionais, ficarão agora eternamente agradecidas ao BE. Quais cavaleiros andantes, os génios bloquistas oportunamente se lembraram de salvar das tenebrosas garras dos pérfidos machos lusos as delicadas florzinhas que são as mulheres deste país, cujas vidas são um inferno de ordinários piropos. Não sai senhora à rua sem que esteja de traiçoeira atalaia o libidinoso macho tuga, senhor de um infinito reportório de baixíssimos piropos pronto a ser desferido em alta voz. Em boa hora se lembraram os atentos membros do BE de pôr termo a tão vasto flagelo. Bem hajam, pois.
    O BE já nos habituou à sua muito particular concepção do que é prioritário: estavam este país e esta gente prestes a serem engolidos pela máquina de triturar da TROIKA e esta malta debatia com paixão o casamento homossexual; arrastava-se a grei portuguesa pelo lodaçal da “ajuda externa” e esta boa rapaziada fazia das tripas coração para que a adopção por casais homossexuais fosse por diante; agora, com o país a deslizar com cada vez maior velocidade pela rampa da mais inenarrável miséria, estes génios lembraram-se de sacar da cartola dos efeitos político-pirotécnicos a criminalização desse flagelo insuportável que é o piropo. Tal agenda de prioridades só me faria rir, não fosse um pormenor perturbador: o BE, ao mesmo tempo que tenta, a todo o transe, angelificar as formas de sexualidade “alternativas” ( o que a mim nada me perturba, pois cada um faz com o seu corpo o que bem entende ), demoniza, a todo o vapor, tudo o que tenha a ver com a sexualidade “mainstream” ( o que me aborrece sobremaneira, pois os homens de hoje não têm que pagar as malfeitorias dos seus avôzinhos judaico-cristãos ). E faz tal demonização cavalgando complexos e recalcamentos que estão muitíssimo longe de qualquer coisa que se possa considerar minimamente racional e factual.
    Quem vive com naturalidade e gosto e sem complexos a sua sexualidade gosta de apreciar e gosta de ser apreciado. E verbaliza-o. Com bom gosto e sem observações públicas ordinárias.
    .Por vezes, aquilo que, a um primeiro deitar de olhos, parece muito “progressista” não passa de uma rebuscada forma de glosar ( ainda que de forma involuntária ), de forma descerebradamente voluntarista, velhos conceitos reaccionários. Com efeito, tal como na progressista Arábia Saudita não há mulher que saia à rua, ainda que coberta dos pés à cabeça, sem a companhia supostamente protectora de um familiar masculino, assim, neste atrasado Portugal, e a ir por diante a genial proposta do BE, não sairá menina ou senhora a espaço público sem que tenha a protegê-la a sólida mão da Lei. Num e noutro caso, o que releva para a questão em discussão é a imagem de ser frágil a ser protegido ( logo, um ser menor, uma espécie de eterna criança ) que da mulher se faz. E eis que os pólos supostamente incomunicáveis se encontram, ainda que involuntariamente, nessa terra-de-ninguém sobrepovoada que é o território da mais sólida imbecilidade.

  5. José Sequeira diz:

    Chapeau!

  6. Gambino diz:

    Há uns anos, durante um jantar, percebi que a generalidade das mulheres presentes não ficava chocada com os insultos gráficos da malta da construção civil, embora ficassem bastante desagradas com piropos ordinários de transeuntes com quem se cruzavam na rua ou de colegas de trabalho. Fiquei estupefacto e tentei aprofundar o assunto. Disseram-me que os piropos das obras eram “amorosos”.
    Isto serve apenas para ilustrar o problema que decorre de uma generalização idiota como aquela que o BE propõe. O carácter do piropo pode não depender da elegância, como aqueles que a Raquel apresenta, mas também da situação e do “piropeiro”.
    Um piropo gritado de um andaime a uma desconhecida, sem comportar qualquer risco e sem a pretensão de ir mais além, é quase uma tradição consagrada e, segundo me dizem, pode até ser “amoroso”.
    Das três uma: As minhas amigas são especialmente licenciosas e disponíveis para o trabalhador manual, as obras de Portugal estão infestadas de poetas pedreiros ou o piropo é uma coisa bem mais polissémica do que alguns políticos querem fazer crer!

    P.S: Continuo a fazer esta sondagem esporadicamente e posso garantir que o carácter “amoroso” dos piropos da construção civil está a ganhar por uma grande margem.

    • Raquel Varela diz:

      Faz todo o sentido o que diz, a posição, o lugar etc . Cump

    • Carlos diz:

      mas tu não podes julgar tudo pelas pessoas que conheces. se eu fosse a julgar todas as mulheres pelo que a tua mulher gosta, diria que todas gostas que duplo anal. e isso não é verdade para todas, não é?

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