Das idolatrias e do bastão, o fascismo existe à esquerda e à direita

Passo a re-publicar um texto do Francisco Venes, um amigo meu correntemente a viver no Equador, que pôs o seguinte no seu Facebook:

“Hoje foi provavelmente uma das noites mais assustadoras da minha vida. Uma marcha de cerca de 150 pessoas que protestavam contra o fim da iniciativa yasuní-itt foi reprimida com níveis de violência que nunca presenciei em Portugal.

A polícia de choque bloqueia o acesso à praça grande onde se situa o palácio presidencial. A praça está ocupada há mais de uma semana por militantes e burocratas do governo, pagos, que gritam slogans de apoio ao presidente. Alguns repórters amadores conseguem infiltrar-se na praça: há música de apoio ao presidente e muitos estão alcoolizados. Desde a praça os burocratas dão ordens à polícia sobre como devem reprimir os manifestantes que se encontram a dois quarteirões. 

Quando subo ao local onde se encontram os manifestantes, perto da minha casa, a polícia permite a passagem de uma pick-up que, nas palavras de um dos passageiros, “leva comida aos companheiros que apoiam o presidente na praça”. São filmados, e um dos burocratas, incomodado, tenta agredir um companheiro com a câmara.

Um quarteirão mais acima começa a agressão policial. Quando chego estão a empurrar de forma violenta as pessoas que tentavam ir em direcção à praça grande. Há famílias com crianças, o que não impede a polícia de distribuir bastonadas de forma cega.

Gera-se um clima de tensão e alguns jovens, visivelmente stressados com tudo o que se passa, lançam garrafas de plástico vazias  e sacos de lixo contra os polícias. Alguns pontapeiam os escudos do corpo de intervenção. A polícia decide disparar sobre a massa de gente com balas de tinta. Disparam a todas as partes do corpo sem distinção, várias pessoas passeiam-se feridas pela zona, visivelmente indignadas e incrédulas. Há caras cheias de sangue, jovenzitas que não tem mais de 20 anos que mostram as barrigas, pernas e braços feridos aos poucos órgãos de comunicação social presentes. Algumas pessoas são detidas.

Famílias e pessoas mais idosas desistem de protestar com medo e o grupo fica mais pequeno. Vou a casa e, mais tarde, regresso à rua para encontrar um grupo visivelmente mais pequeno uns quarteirões mais abaixo. Cantam e bailam enquanto gritam palavras de ordem. Em cada esquina eram encurralados por diferentes grupos de polícias que disparavam, agrediam, detiam e dispersavam os manifestantes. Formavam-se cordões de resistência pacifica contra os quais iam investindo as suas motos. Só pararam quando conseguem expulsar todos os manifestantes do centro histórico. 

Amanhã não passará uma só imagem nas cadeias de televisão nem nos vários jornais controlados pelo estado. Passará certamente a “festa” de bêbados que gritam Correa. Mas há muitos vídeos e fotos amadoras e alguns de jornalistas estrangeiros, como os da jornalista da Al-Jazeera que foi detida a meio da noite. 

Dos polícias não há muito que dizer: Burros, violentos, sem qualquer tipo de formação. Quando ao presenciares tamanha vergonha passas cuspindo o chão e lhes gritas nojo para não chorar e chamar-lhes nomes devolvem-te insultos que prefiro não escrever. 

Quanto ao presidente da revolução cidadã: um caudilho, arrogante, autoritário a quem hoje caiu a máscara. Que nenhuma esquerda europeia volte a beijar os pés desta besta!”

 

P.S.: o seguinte vídeo foi adicionado ao post a 30/08/2013

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12 respostas a Das idolatrias e do bastão, o fascismo existe à esquerda e à direita

  1. José Luís Moreira dos Santos diz:

    A posição aqui defendida pelo autor, é, repito, é, profundamente reaccionária, dado que se enquadra num amplo processo de desacreditação de uma solução ambientalmente justa e politicamente adequada. Mas o processo de intenções que encobre, preconceituoso até à medúla, mostra que por fascismo alguns entendem a simples diferença de opinião. No Ecuador, vive-se uma Revolução, quem publica isto, foge de qualquer ideia de avanço politico. Um nojo, este texto.
    José Luís Moreira dos Santos

    • Não sei se estou a perceber. Os manifestantes estavam a protestar contra a decisão de rejeição da iniciativa que, pelos vistos, é ambientalmente e socialmente justa e politicamente adequada. Uma iniciativa que tinha inicialmente recebido a benção de Rafael Correa, que voltou atrás na sua decisão. Tendo sido recebidos calorosamente e com porrada e tiros, o progresso fica aonde? É que me parece que a opinião do José Luís Moreira dos Santos é que tudo e qualquer coisa que não seja a favor de Correa é preconceituoso. Ademais, numa revolução tudo é permitido desde que em nome do progresso? Receber à bastonada e tiros quem não concorda com ele não é fascismo?

      • m. diz:

        Parabéns pela sua resposta.

        Só quem não «leu» o texto nem «viu» o vídeo é que pode pensar que o que publicou no seu post é de natureza «reaccionária».

        P.S. Até parece que a maioria dos portugueses anda um bocadinho «domesticada» e «docilizada» demais. Mas é só na aparência. Cuidado…

        O comentário de José Luís Moreira dos Santos é um insulto à inteligência.

        Gosto sempre de dizer o que quero dizer:

        (1) Por inteligência, eu entendo a capacidade de entendimento na comunicação entre pessoas e para pessoas: ler as palavras e perceber o seu contexto. A má vontade não entra no que se pode entender por entendimento. O entendimento pressupõe o diálogo, e o diálogo, por seu turno, implica a complementariedade, e não a oposição que implica o conflito (que no comentário de José Luís Moreira dos Santos está à vista ser de natureza autoritária e reaccionária).

        (2) O comentário de José Luís Moreira dos Santos parece daqueles calhamaços e textos que tive de ler quando andava na universidade e em que não se percebia uma linha. Tive de estudar o quadro de referências mentais dos professores para poder fazer os trabalhos e testes: até me saí bem. Mas aprender, aprendi que o conhecimento é muitas vezes baseado na estupidez …

        Peço desculpa pela frontalidade do meu comentário.

      • José Luís Moreira dos Santos diz:

        Sejamos claros: numa revolução, ou seja, em ambiente de confronto ideológico entre aqueles que lutam por um mundo melhor – expressão que facilita os entendimentos – ,e os que o desejam mais injusto e desigual, não há lugar a resoluções com base na troca de beijinhos. A luta revolucionária é também luta pelo poder, mas na América Latina, as coisas tomam foros de gravidade extrema, visto que a quase totalidade dos orgãos de comunicação são os centros de gravidade da divisão política, pois defensores acérrimos de um capitalismo quanto mais selvegem melhor. Neste contexto, Correa tem uma caracteristica que o debilita, mas que a mim agrada muito: a frontalidade. Quanto a caminhos a seguir, prefiro uma revolução que cometa erros no seu precurso, do que revolucionários de sofá, como, para mim, são todos aqueles que falam do Maio de 68 como de uma revolução, uma vez que são gente que se contenta com pouco, quero dizer, que satisfeitos alguns dos seus caprichos, logo pintam o mundo da cor florida da hipocrisia. Quem usa mal ou sem critério a designação de fascista, está, objectivamente, a lançar lama sobre o bom nome e a boa obra de quem se esmera em fazer algo pela Humanidade. Dizer que todos os politicos são iguais, é proclamar o fascismo como aceitável; falar de um fascismo equivalente à direita e à esquerda, é defender uma equidistância em relação à esquerda e uma acitação tácita do revanchismo fascista. A política, para mim, é ter uma posição ideologicamente definida e dialéticamente seguir-lhe os passos, nunca o direito de “babusar” de forma celerada qualquer “critica” sem preocupações de fundamentação. José Luís Moreira dos Santos

        • Sejamos então claros: a violência perante a dissensão de opinião é diferente consoante o espectro político de onde origina?

          Repare que a dissensão nasce porque o Correa voltou atrás numa decisão que, segundo percebi, o próprio José Luís considera ser uma “solução ambientalmente justa e politicamente adequada”. Ao voltar atrás, as pessoas que defendem essa “solução ambientalmente justa e politicamente adequadas” foram carregadas brutalmente. Ora, numa revolução sem direito a contraditório, sem direito a discussão, e onde os opositores ou pessoas que pensam de forma diferente (neste caso, julgo, pessoas com preocupações ambientalmente justas e politicamente adequadas à esquerda), estamos aonde e a caminhar para o quê?

          Repare que não estou a dizer que o Correa é fascista. Estou a dizer, pegando nas suas palavras, que a actuação da polícia foi frontalmente fascizante. Estou a dizer que há fascismos de esquerda e de direita, de pessoas que acreditam que aquilo que defendem está acima de qualquer crítica, e alimentam idolatrias que não raras vezes assumem carácter dogmático e violento para toda e qualquer dissensão. Não estou a dizer que o Correa é isso, pois apesar de acompanhar ocasionalmente a Revolução cidadã não tenho informação suficiente para o afirmar. Mas estou sim a dizer que é um sinal de fascismo, mesmo estando à esquerda. E que é muito preocupante não apenas esse sinal, mas o(s) silêncio(s) que se geram daqui. E digo mais, aqueles que à esquerda não denunciam os erros de percurso de uma Revolução Cidadã que não o foi ou não o está a ser, o seu silêncio também deita na lama muito dessa solução para tantos (plural) que se esforçam por ela. Não ponho em causa que o Rafael Correa tem sido importante para muita coisa boa no Equador. Tal como Chavez o foi. Mas quando chegamos à idolatria e ao dogmatismo perdemos toda a noção de progresso e de democracia, e lá se vai a Revolução Cidadã para o galheiro. E quanto aos políticos são todos iguais, não precisa de me convencer. Só não sei ao que é que isso e o Maio de 68 vem ao assunto, mas tudo bem.

          Toda e qualquer posição que seja “só há um caminho” seja para a revolução socialista/comunista/anarquista/estalinista/trotskista e quantos mais ‘istos’ quiser e qualquer outro desvio deve ser subjugado pela força, só tem um nome: fascismo. E neste caso, o desvio vinha de onde o Correa tinha acabado de sair…

          E se quiser vamos à etimologia da palavra: “O termo fascismo é derivado da palavra em latim fasces. Um feixe de varas amarradas em volta de um machado, foi um símbolo do poder conferido aos magistrados na República Romana de flagelar e decapitar cidadãos desobedientes. Eram carregados por lictores e poderiam ser usados para castigo corporal e pena capital a seu próprio comando.”

          Estas poucas centenas no Equador não foram decapitados. Levaram só tiros e porrada diversa porque não concordam com o Correa ter voltado atrás na sua “solução ambientalmente justa e politicamente adequada”.

          Cumprimentos

    • Francisco Venes diz:

      Acho que o Alexandre já tratou o tema do protesto na resposta dele. Eu nao sei se o José Santos reside no Ecuador ou é um estudioso da “Revolución Ciudadana”. Se o é, deveria saber que de “Revolución” nao tem nada. O regime político de Rafael Correa é uma refundaçao do capitalismo baseado em pressupostos diferentes aos neoliberais. O mesmo Correa, ao mesmo tempo que investe em propagandas anti-imperialistas, admite que nada mudou no modelo de desenvolvimento seguido, apenas o está a cumprir melhor.

      À medida que fortalece o Estado e gera uma rede clientelar impressionante, apresenta-se como líder salvador, num misto de populista-tecnocráta onde há espaço para o insulto e a mentira. Veja as novas leis que ameaçam a autonomia dos movimentos sociais e os protestos, veja como a maioria das campanhas (como a do Yasuní-ITT) nao passaram de propaganda. Ao mesmo tempo que apresentava a sua ideia inovadora ao mundo e buscava convencer os países “desenvolvidos” a contribuírem para o projecto, apareciam nos documentos do projecto de construçao de uma refinaria no pacífico 100 000 barris provenientes do bloco ITT. O Governo alemao foi um dos que se recusou a contribuir perante esta e outras incoerências…

      Poderia continuar durante horas com muitos outros exemplos e abordar várias áreas do estado e da política pública equatoriana que demonstram que o “socialismo do séc. XXI” nao passa de um capitalismo moderado pelo estado.

  2. m. diz:

    Não há nada como receber umas valentes «bastonadas», pelo menos verbais, e as verdadeiras parece que estão reservadas a alguns que têm a coragem de contestar as acções de uns que se disseram e dizem revolucionários, entre outras classificações, para aprender ter tino no que se diz.

    Não sei o suficiente sobre o regime de Correa no Equador, mas apercebi-me que Correa é mais um «deslumbrado» pelas «vantagens» que a riqueza dos recursos naturais do seu país lhe podem trazer. É tão simples quanto isso.

    Como chegou ao poder? Não sei. Mas que lhe encheu a «barriga», já encheu. Como tirá-lo de lá (Correa y sus compadres), de onde está? O vídeo indica um caminho: a «bastonada»… Depois queixam-se de guerrilhas, para-militares, grupos revolucionários, etc. Parece-me que pode ser assim que começa. Não é?

  3. JgMenos diz:

    «…alguns jovens, visivelmente stressados com tudo o que se passa, lançam garrafas de plástico vazias e sacos de lixo contra os polícias.»
    Stressados?
    Stressados??
    Stressados???

    • JgMenos,

      o termo utilizado também não seria o que utilizaria… mas como também não estava lá para presenciar não o alterei. Pode confrontar o autor do texto perante o recurso estilístico, ou pode querer ir ao cerne da questão. De qualquer forma a minha sugestão é que quando for a uma manifestação e vir uma carga policial atrás de si com uma pistola ou um bastão numa mão, e um recurso estilístico na outra, tenha sempre um inderal consigo. 😉

  4. José Luís Moreira dos Santos diz:

    Vamos por partes:
    Não, não vivo no Equador! Vivo, serena e empenhadamente numa aldeia de nome Pardilhó, em Estarreja, mas tenho a minha atenção muito espevitada na direção da América Latina. Do que me chega de lá, tudo me interessa, e se Correa, Chaves/Maduro, Cristina, Morales, José Mujica, etc.,não estão a fazer a minha revolução, já que minha, profundamente teórica, estão a fazer os seus países dar um salto de gigante na prática de encontro com ela, porque as revoluções são perfeitas em teoria e muito complicadas de fazer na prática, visto que a contra revolução dispõe de meios que a revolução, no seu caminho cheio de contratempos, vai produzindo como pode, e mesmo assim, se tiver o dinamismo e a capacidade de ir integrando aqueles que sabem pouca teoria mas que são indispensáveis à penetração dos valores de qualquer revolução no sangue faminto do povo. O Resto, palavras…. Se mais bonitas, pode até ser que pouco pensadas, quero dizer: talvez apelativas, porém tão dogmáticas como sem praticantes.
    YANUSI – ITT. Quantos dos atuais defensores deste processo – contam-se por vários anos, antes mesmo da chegada ao poder de Correa, que foi que lhe deu o impulso político necessário ao reconhecimento internacional, pois o esforço descomunal daqueles que estiveram na sua origem não tiveram os resultados políticos que o projeto de salvaguarda do valor ecológico do imenso espaço da amazónia onde se localiza. Por isso, quando Correa e o seu movimento tomaram em mãos o empenho da defesa do projeto configurou uma oportunidade que era maior, em vários capítulos, do que a insignificância internacional do Equador, país que nem moeda própria tem. Mas adiante, uma vez que não quero dar ares de sabichão das dúzias, comportamento que em outros me provoca vómitos.
    As forças que se opõem, à renuncia de Correa em esperar eternamente pelo cumprimento dos acordos mais ou menos estabelecidos internacionalmente, os quais faziam chegar ao tesouro do Equador valores importantes vindos de países que pagavam com dólares para a não destruição, pelos trabalhos de exploração do petróleo que não seria removido das profundezas da selva virgem. No inicio, a adesão de Correa deu lugar a uma onda de revindicações em torno da aplicação dos milhões, e se não foi causa única, foi uma das muitas razões para a divisão das forças políticas e sociais – na América Latina as forças sociais têm grande preponderância na forma de fazer política -, e levou a confrontações publicas de uma parte das lideranças políticas e de agentes das comunidades originárias contra o projeto de Correa, sempre com o apoio explicito dos grandes órgãos de comunicação social, que lá como cá, sempre prontos a tudo fazer para encravar a máquina da revolução, que é quase sempre de tecnologia imperfeita, ainda que bem intencionada nos seus propósitos e sentimentos. Para mim, e com isto respondo ainda ao Vernes, onde a contra revolução, seja sob que disfarce, tem força bastante para se opor arrogantemente ao poder das forças que executam políticas em favor das massas populares, estamos diante de uma Revolução. Que estas são feitas para serem traídas? Ah, isso sim, mas quando mais tarde melhor, porque se revolução, alguma coisa fica a germinar na memória de quem a viveu. È o que me resta de uma tentativa que tive o prazer de viver, empenhado nela até ao sangue.
    A repressão, qualquer repressão, é sempre, SEMPRE E EM TODA A PARTE, a expressão de uma vontade de anular a eficácia das vozes que lutam contra algo. Contudo, quem conhece o que se passa em qualquer país da A.L. – talvez a Venezuela seja uma exceção, não sei – sabe, ou deve saber, que os diferentes poderes lutam entre si por uma certa “preponderância elementar”, quero dizer, por ter uma forte “palavra” a dizer sobre qualquer assunto, por forma a mostrar ao povão a importância que têm e à contra revolução que ainda contam para qualquer solução. Correa foi vitima direta dessa luta e dessa perceção das coisas. Na A.L., o poder militar e de segurança, o poder judicial, o poder eleitoral, o poder religioso, o poder informativo, etc., está, com uma ou outra exceção, nas mãos de ferozes cães de caça que defendem sem piedade uma relação desproporcional dos seus privilégios com a imensa e profunda miséria da generalidade do povo. Não é apenas por palavras que Rafael Correa e o seu movimento se opõem a esta lógica. Por isso, sim, quero defender que as forças que reprimem no Equador estão ao serviço de interesses opostos ao de Correa. Como somos muito dados à perda precoce de memória, mesmo num regime de longos anos de uma democracia de vivência, quero dizer, uma Democracia entranhada, como era o caso da Suécia, Olof Palm foi assassinado com a conivência de alguma parte das forças de segurança que lhe jurava fidelidade. É a vida!
    O centro nevrálgico do poder na A.L. está, não apenas numa elite poderosa e reacionária, mas concentrada nos detentores do dinheiro, os quais já confiam pouco nos burocratas que sempre os serviram. Por isso, serem já os próprios empresários e não tanto os burocratas puros a tentarem, e a conseguirem em muitos casos, como são exemplo, Panamá, Chile e Paraguai. Correa teve como seu principal opositor um banqueiro que foi responsável por desfalques e roubos, mas contou sempre com maior compreensão de certos sectores da oposição do que o próprio Correa, que teve que contar sempre, no parlamento e na discussão publica, da parte dessa mesma oposição, com uma feroz e mentirosa onda de manipulações e calunias. Conheço os atores, e independentemente de em relação a alguns deles poder ter afinidades ideológicas de base, a baixa política que praticam faz-me tê-los como inimigos do que quero e pelo qual estou SEMPRE pronto a lutar. Esta minha intervenção neste blog, que todos os dias visito e no qual poucas vezes intervenho, faz parte dessa luta, visto que aceitar o epiteto de fascista a qualquer um, distribuído sem critério nem cuidado, obrigar-me-ia a aceitar esse dito corrente e trafulha de que todos os políticos são iguais. Não, NUNCA ACEITAREI COMPACTUAR COM A RELATIVIZAÇÂO DO QUE NÂO SE PODE RELATIVIZAR. Os três preceitos indispensáveis e incontornáveis que Kant nos ensinou sobre o correto conhecimento, e o funcionamento estrutural da dialética que orienta tudo quanto digo, faço, penso e sinto obriga-me a proceder assim.
    Há quem acredite que os privilegiados hão de um dia dispor de parte deles em troca de alguns beijinhos, mas eu, ateu e anti- dogmático até à medula, não acredito em tal fantasia. Cada um é livre de escolher o seu lugar, e eu, por influência de minha mãe e pelas experiências vividas durante os meus imaturos 63 anos, já há muito escolhi estar do lado onde se está SEMPRE alerta. Até porque já levei uns murros na face a defender alguém que estava do meu lado, e hoje está do lado de quem me deu os ditos murros. Como experiencia, fantástico, mas se não aprendi nada com essa experiência, uma anedota.
    Não há ofensa em discordar, ofensa existe na aceitação cobarde de uma divergência. Darei sempre preferência a quem me agite, assim como nunca darei ouvidos a quem me queira convencer. Se bem me parece, estamos, cada um de nós, certos das nossas razões. Então, Janus, o deus da mitologia grega, não nos molesta.
    José Luís Moreira dos Santos

    • José Luís Moreira dos Santos,

      vou ser sincero, não consegui perceber tudo o que disse. Mas consegui perceber que estamos de acordo genericamente no que toca à importância das forças populares na evolução de democracias progressistas na América Latina.

      No entanto, parece-me haver uma contradição insanável no seu argumento: se Correa voltou atrás numa solução que ele próprio impulsionou (e que tinha uma base de apoio progressista por detrás) que o próprio José Luís considera boa “ambientalmente justa e politicamente adequada”, justificando com a demora de “contratos mais ou menos assinados”, como é que a repressão violenta de uma parcela dessa base de apoio não é em si mesma um favor às forças reaccionárias no país?

  5. José Luís Moreira dos Santos diz:

    Alexandre, com toda a simpatia lhe digo: Você, nem duvido que com a melhor das intenções, caiu numa esparrela, dado que lhe fizeram confundir apoiantes de uma causa com opositores embrionários dela. Quanto à repressão, quase lhe podia garantir que faz parte da encenação cogitada pelas forças que instrumentalizam a reação aparentemente popular, quero dizer, espontânea e sincera. A contra revolução equatoriana, porque a ver-se derrotada, usa as formas e métodos que pode. E, pelos vistos, consegue um ou outro resultado. O Francisco Venes ou é pouco menos do que anti-Correa, ou observa sem grande critério o que se passa no Equador quando por lá está. Não basta olhar, é preciso ver. Por isso, não me admira que você não entenda tudo quanto eu, mesmo de forma apressada e pouco organizada, lhe refiro como argumento. E se a falat de cumprimento, por parte dos países ocidentais, dos acordos estabelecidos fizer parte de um esquema contra Correa e a política de integração que desenvolve? Ontem mesmo, Correa recebeu representantes das organizações verdadeiramente representativas dos povos indegenas, para acordarem como será explorada uma parcela de 0,1% da superficie total envolvida no projeto Yanusi. Daqui por alguns dias, já nada haverá para dizer sobre a repressão, visto que colocadas as coisas em seu plano de autenticidade, logo a manipulação muda de agulha. Fique atento. É sempre bom fazer o reconhecimento dos caminhos por onde andamos, sobretudo quando fomos levados por outros.É a vida! Repito, Janus não nos apanhará desprevenidos.
    José Luís Moreira dos Santos

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