Bófia do Piropo (ou será a versão nouvelle gauche da polícia do comportamento?)

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“Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.
Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.”
Julio Cortazar

O piropo é a versão proletária da poesia erótica. Aos que acham que a solução não está na escola pública, ou que reconhecendo isso preferem dedicar-se a policiar comportamentos, equiparando-o ao crime de assédio, nada como irem distribuir Julio Cortázar para cima dos andaimes, para a frente da linha de montagem ou para baixo dos preconceitos que deixaram à vista neste debate.

Atrás da máscara progressista mais não está do que a moral dos desprotegidos, tão reacionária como a da generalidade das igrejas, tão obsoleta como a generalidade dos Estados, tão conservadora como a generalidade do feminismo que desceu à praça.

Compararam o debate ao debate do racismo, mas esqueceram-se que não há racismo bom. Resumem o debate ao machismo, mas esquecem-se que não há machismo bom. Arrumam tudo no campo da violência de género, mas esquecem-se que não há violência de género boa. Limpam os olhos olhando-se ao espelho, esquecendo que não há alma sem defeito.

E quem nunca corou com um piropo que atire a primeira pedra. É que de outra maneira os bófias do piropo terão que reconhecer que já gostaram de ser vítimas.

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14 respostas a Bófia do Piropo (ou será a versão nouvelle gauche da polícia do comportamento?)

  1. Cristina diz:

    Só na sua cabeça é que é absoluto que toda a gente já tenha corado com um piropo. Pois posso dizer-lhe q todos os que recebi, e foram muitos, me ofenderam enquando indivíduo.

    • Não desespere. Verá que um dia o sol brilhará também para si.

      • Ana diz:

        Q comentário.. É assim difícil de perceber que nós não precisamos de piropos para nos sentirmos bem e felizes connosco? A minha auto-estima não é criada por vcs, não preciso dos vossos piropos para nada, por isso guarda-os para vcs.. Enquanto individuo a Cristina provavelmente prefere que não invadam o espaço dela a ser abordada por um homem qq q passe por ela na rua, complicado?

        • Muito simples. Basta que para isso saia de casa com tampões nos ouvidos ou com segurança privada pronta a rebentar quem quer que se atreva a dirigir-lhe a palavra em tom elogioso. Isso ou uma petição para recuperar a polícia do comportamento, não sei qual será a melhor solução…

        • Rocha diz:

          Entre as beatas de ontem com o terço na mão e o salazar no coração e as virgens ofendidas de hoje com o oportunismo na mão e o pavlov no coração venha o diabo e escolha.

          O mundo não gira à vossa volta ó donzelas.

          • Ana diz:

            Não, mas vcs pensam q gira à vossa. As mulheres vestem-se de determinada forma para vos agradar, pintam-se para vos agradar, colocam silicone e fazem operações de estética para vos agradar.. LOL e nós é q achamos q o mundo gira à nossa volta..tem graça..
            E como nascemos para vos servir e agradar temos que levar com as vossas bocas, pq vcs são uns coitadinhos que não se sabem controlar.. e mais uma vez, nós é que nos vitimizamos..LOL
            Q discursos inteligentes e coerentes..UAU

          • Rocha diz:

            A vitimização deve ser a vossa carreira profissional. Mas olhe que a maioria das mulheres não conta com esse luxo.

  2. JgMenos diz:

    Ao fim que se anuncia da ‘guerra’ de sexos seguir-se-à levar o sexo para encargo do SNS no capitulo dos ‘cuidados paliativos’ – problema orçamental grave!!!

  3. Francisco diz:

    só tu para defenderes os trolhas que são os que bocas mais porcas mandam. defenser esse tipo de comportamentos denota aí algum desvio perigoso.

    • Sempre pelos de baixo. Salvo seja, claro! 🙂

      • Rocha diz:

        Só não entendi o salvo seja…

        Se isto agora também é contra os trolhas ponham-se a pau (ó Francisco e afins), que o proletariado levantando cabeça vamos ter que acabar com as palhaçadas pequeno-burguesas à trolhada.

  4. JP diz:

    Num bar após o colóquio…

    Ele: Desculpe mas estava do outro lado da sala e reparei em si. Gostava de vir comigo para discutirmos o marxismo dialético e a sua relação com a soberania dos povos africanos?

    Ela: SEU PORCO!

  5. «simplificando» diz:

    Li o texto do post. Li até várias vezes. E gostei.

    Desde quando é que o piropo é assédio?

    A minha resposta: o piropo não é assédio porque é um «ritual encantatório» para atrair a atenção de outra; parece-me que é só isso. Tem a ver com a dimensão «da sua graça».

    Basta ouvir, por exemplo, o cântico dos pássaros «piropeando-se» uns aos outros na Primavera…

    Devemos andar todos surdos ou não?

    O resto é uso e abuso de linguagem entre pessoas… não é?

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