Que me desculpem mas um piropo genial é fundamental

A um absurdo – a brutalidade machista – não se responde com outro absurdo. Diz que no Bloco de Esquerda querem equiparar o piropo ao assédio, que é, creio que sabem, crime. Levado às últimas consequências: vão os polícias multar os homens deste país? vamos ter polícias da palavra atrás de nós ou é um apelo à auto censura?. Ocorreu-lhes que há piropos rasteiros, feios, brutos e outros que são um poema para a alma de qualquer mulher? E se um desconhecido de repente, na rua, lhe oferecer flores? Você…!? O feminismo está órfão de programa, de mulheres como Rosa Luxemburgo que nunca foi feminista e granjeou o respeito sincero, até hoje, de milhões de homens e mulheres no mundo. Precisamos não de uma mas de muitas. Que onde os outros vêem divisão – homem/mulher – ela via união, de classe neste caso, e outras, ocorre-me, por exemplo, amor, paixão, há tanta coisas que une os homens e as mulheres. Se me permitem uma pequena sugestão: aceitem as flores e respondam com um piropo, doce 🙂

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Vinicius de Morais

Anúncios
Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

24 respostas a Que me desculpem mas um piropo genial é fundamental

  1. Ricardo M Santos diz:

    e os homens também não ouvem piropos?

  2. Se a troika descobre o filão está o problema da dívida pública resolvida. Um olhar arrastado – 5€, uma assobiadela à pedreiro pendurado em andaime 10€, um elogio romantico-poético 20€ (a erudição paga-se), um comentário elogioso aos olhos 30€ e um comentário elogioso à psique 50€. Referências explicitas a outras partes do corpo, naturalmente, cadeia. O tempo da austeridade vai acabar!

  3. Quim diz:

    Eu vou fazer o obséquio de a esclarecer relativamente ao enquadramento legal do chamado “piropo”. é óbvio que a polícia não identifica um cidadão se o vir a mandar um piropo a uma mulher ou um homem. no entanto, devo lembrar que, face a uma atitude reiterada, pode a mulher apresentar queixa relativamente a esse comportamento sendo o mesmo enquadrado no assédio sexual. ou seja, o piropo já é e bem, à luz do nosso código penal, criminalizado.

  4. O Vinicius de Morais na sua extrema ingenuidade a pensar que estava a estabelecer padrões de beleza cuja natureza se esqueceu de fazer… Pena nunca se ter perguntado a si próprio porque gosta da forma que todos gostam?

  5. Lúcia Gomes diz:

    se for criminalizado começo a campanha: «piropo não é crime, o crime está na lei»

    • Quim diz:

      Mas já é criminalizado. é óbvio que a expressão “piropo” não está no código penal. mas um piropo pode ser uma forma de assédio e/ou coação. e isso sim, está criminalizado.

  6. O problema do BE é exactamente promover um feminismo que caracteriza o género como sinónimo de sexo e caracteriza a mulher como o símbolo da objectificação e de todas as violências, esquecendo que o conceito de mulher é muito mais amplo e atravessado por dimensões potencializadoras de desigualdade como a classe ou a origem social.
    Já que a Raquel é considerada por tantas pessoas como a nossa Rosa Luxemburgo, ca vai:
    A Rosa Luxemburgo teve de se “tornar um homem” para ser respeitada. Digo isto no sentido que foi a posição social, a classe, a cultura, a idade, a origem, que lhe permitiu ter esse respeito e atenção sobre as suas reflexões e militâncias – a moral da revolução.
    Mas ao lado dela tantas camaradas revolucionárias unidas pela classe mas separadas por origens, cultura e modos de vida não passaram de meras assistentes ou secretárias da revolução dominada por homens – a moral da revolução é essencialmente sexual e cultural. Não acredito que o patriarcado e o machismo desapareçam por milagre.
    Assim acho que o feminismo continua a fazer falta, mas que as intersecções são evidentes e o que fortalece o capitalismo não é só o facto da luta social pretender actuar dentro dos padrões de opressão devidamente regulamentados pelo estado que tem o monopólio da violência legal – a tentativa de criminalização do piropo por exemplo -, mas também o facto de se priorizarem lutas procedendo à hierarquia e desvalorização de umas em detrimento de outras.

    • Raquel Varela diz:

      Concordo com o seu texto todo. E esse piropo que disse lá no meio que dizem sobre mim sendo um manifesto exagero, infelizmente, foi o mais bonito que já recebi 🙂

  7. Almedina diz:

    “Diz que no Bloco de Esquerda querem equiparar o piropo ao assédio”

    Acho que vai aqui uma grande confusão. Não é o BE que quer equiparar o piropo. A lei já faz isso. ou acham que assédio é o quê? acham que alguém que constantemente ouve piropos da mesma pessoa reiteradamente não é vítima de assédio? acham que perante uma queixa dessa pessoa nas autoridades não se abre o respetivo procedimento criminal?

  8. Luísa Seabra diz:

    se pode ser crime ou não, é discutível, mas é indiscutível que muitas vezes se trata de uma forma de assédio. pessoalmente, não defendo a punição penal, mas pela conversa que aqui vai já vi que são bem precisas posições feministas mais extremas que defendam a criminalização da coisa para, pelo menos, lançar o debate e até convidar certas mulheres menos informadas a refletirem. até já se brinca com o que é muitas vezes ofensivo e manifestamente sexista!
    as regras de convivência social são para todos. se as mulheres não mandam piropos aos homens porque haveriam estes de se sentir no direito?
    porque haveria um homem de se sentir no direito de proferir em voz alta um comentário brejeiro a uma mulher que não conhece?
    ninguém pode negar que vivemos numa sociedade, ainda, patriarcal e com uma pesada herança machista. ninguém discutiria sobre o carácter racista de chamar “preto” a alguém. só por ignorância e porque este tema ainda não foi suficientemente pensado e discutido pela maioria é que ainda acham que chamar “boa” a uma mulher desconhecida não é um acto de discriminação de género, ou mesmo, que se trata de um elogio!
    um piropo não é um elogio, o qual pressupõe um ocnhecimento prévio da pessoa. um piropo necessariamente objetifica a pessoa, incute-lhe um cunho sexualizado.
    espanta-me que num meio de pessoas supostamente tão politicamente informadas e pensantes se desconheçam os contornos desta sociedade no que toca ao sexismo. este tema definitivamente precisa de mais debate.

    • Subscrevo o que a Luísa Seabra escreveu. Quem reagiu contra está a ter, elas e eles sim, a reacção maniqueísta que acusa a quem critica. Há piropos isolados que são inócuos, mas não é verosímil para mim afirmar (ou afirmarem-me) como mulher que a maioria deles são. Não na minha experiência, não na experiência de muitas outras mulheres. Como afirmou Quim, esses piropos já estão criminalizados.

  9. 666 diz:

    Está para haver uma guerra e srª faz um blog sobre a vida é bela:Silly season para o lado da esquerda radical(??????)

  10. imbondeiro diz:

    Esta malta do BE não deixa de materializar um fenómeno político curioso. Na falta de uma efectiva vitória no campo eleitoral, estes moços e estas moças muniram-se de bisturis e linhas e viraram-se para a engenharia das almas. E vai de cortar, enxertar e suturar à larga, criando hoje o paraíso terrenal que muitos julgavam inalcançável. Criminalizar o piropo? Ó meus caros bloquistas, isso nem parece vosso no seu tão mesquinho escopo! Ele há que pensar mais largo e mais fundo: criminalizem-se já os olhares pousados por mais de um minuto na passante moça bem talhada. Condenem-se os machos sociopatas autores de tais façanhas por crime de atentado ao pudor e encerrem-se os pérfidos criminosos, “ad aeternum”, em tenebrosas masmorras. Assim sim, a coisa vai!
    É claro que todo este ridículo espectáculo tem os seus alicerces numa crença bem menos tranquilizadora nas suas mais do que preocupantes consequências: a de que a Humanidade se divide, com meridiana clareza, em duas exactas porções – a porção do absoluto Bem ( a das meigas e oprimidas mulheres ) e a porção do absoluto Mal ( a dos brutos e opressores homens ). Esta, a um tempo cândida e perigosíssima, crença não resiste, claro está, a uma mesmo que ligeiríssima desconstrução. Pergunto eu: em qual dessas porções encaixaríamos nós as meigas e oprimidas guardas SS dos campos de concentração do III Reich?; De que lado da cerca ficaria a meiga e oprimida Magda Goebbels que, movida de um fanatismo e crueldade para além do imaginável, despachou a veneno os sete filhos?; A qual desses grupos agregaríamos nós as diligentes ( e meiguíssimas, e oprimidíssimas ) guardas dos campos de extermínio Khmers? É claro que eu já adivinho a resposta da sábia gente do BE: todas elas foram vítimas dos condicionamentos de sociedades patriarcais… Pois… Mas eu, que tenho uma costela atravessada, sofro de recorrentes descargas biliares e sou céptico quase desde o berço, não engulo tal explicação. E, cá para mim, no que ao assunto em questão diz respeito, o que estes padrecas do avesso pretendem é dar livre curso à sua proverbial cegueira totalitária colocando um sólido cinto de castidade no desejo. A melhor prisão do Ser Humano é a sua própria cabeça, e isto quando há o cuidado de a rodearem convenientemente com o arame farpado das ideias feitas.

  11. riotgirrrrrrrrrrll diz:

    e este. porque nenhuma mulher é objecto decorativo nem existe para uso masculino. existe por suas próprias razões.

  12. Carlos Carapeto diz:

    “Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).”

    Coitadas das Indianas nem um piropozinho merecem.

    Será por as longas jornadas de trabalho não lhe permitir tempo para também se vestirem de uma cor que chame à atenção ?

  13. catarina diz:

    cara raquel,

    o seu conselho final é triste. nao quero as flores.

    elogio nao é o mesmo que piropo. e o piropo, mesmo quando doce é uma expressao do machismo. ou nao faz parte da relaçao de poder que eles têm sentirem-se no direito de nos falar quando nos nao mostramos necessariamente esse desejo? Ou e pensarem que somos seres doces, puros e frageis que precisam da doçura duma frase pirosa.

    Merda de “romantismo” esse que encobre a violência de género.

    E desiludida com este post.

    • Paulo diz:

      E quem define o que é elogio e piropo? Apenas quem ouve? Claro, admito que não pode ser apenas quem o diz, mas… E se o rapaz/homem que atira o piropo for um giraço a mulher até é capaz de o receber como elogio, e vice-versa, se o rapaz/homem não lhe agradar um elogio pode ser percebido como piropo. Isto não é nada linear e se a percepção subjectiva da mulher vingar como retrato da realidade os homens vão ter sarilhos por dá cá aquela palha.Como dizia esse velho, branco, rico, e heterossexual que era o Einstein, as coisas devem ser tao simples quanto possível, mas não mais simples que isso – senão passa a ser simplismo.

      O que esta nova geração de “feministas” pretende é terem tratamento de excepção e liberdade sem responsabilidade. Se uma mulher no trabalho vem falar comigo, se debruça e deixa os seios completamente à vista e eu disser que é assédio, em que ficamos? Afinal, deverá ser a minha percepção subjectiva a ter a última palavra, segundo a lógica destas “feministas”…

      Vão a um stand de revistas e vejam as revistas para homens e para mulheres, e depois ajuizem por vós próprios quem é que está sempre a falar de sexo nos meios de comunicação social; pensem nos monólogos da vagina; vejam as últimas páginas do correio da manhã; vejam o sexo e a cidade; vejam nas series de televisão quem leva mais chapadas, se eles ou elas…

      Qualquer dia vai-se preso por convidar uma mulher para um café uma única vez: basta ela considerar que se tratou de assédio!

    • Paulo diz:

      E depois o velho argumento, “se eu não falar consigo primeiro você não pode falar comigo!”. Nesses caso fique calada até alguém falar consigo!

  14. Paulo diz:

    Já a outra dizia “mas por que é que ele não me telefona, por que é que ele não avança?”, e eu disse-lhe “ora essa, avança tu!”, e responde ela “com nós mulheres é diferente…” (pois, tanta igualdade e depois são sempre diferentes!). Eu acabei por dizer “vocês querem que sejam eles a dar o primeiro passo pela simples razão que preferem ser vocês a dizer o ‘não’ do vocês a ouvi-lo. É que um não dói”.

    Bem, fico-me por aqui. Se houver respostas espero que sejam argumentativas em vez de chamarem nomes; para vermos se todos aprendemos mais alguma coisa com isto que não sejam apenas nomes feios, OK?

Os comentários estão fechados.