A lágrimas e fogo

Lembro-me de um dia estar com o meu pai numa floresta e ele me ter explicado, in loco, como com uma mudança repentina de ventos ou com uma fagulha invisível, podemos em segundos ficar isolados no meio do fogo. A rapidez com que se forma um anel de fogo à nossa volta ou a rapidez com que um fogo, que está a centenas de metros de nós – com fagulhas que voam – entra-nos pelas costas e cerca-nos. Não consigo aqui reproduzir a explicação toda nem era tão simples quanto aparenta.  Deixo porém a interrogação: faz parte da gestão dos orçamentos deste país a formação de bombeiros garantindo assim a sua protecção quando saem de ambientes urbanos, onde estão mais ligados a questões de saúde, acidentes, etc., e vão trabalhar num ambiente de fogos rurais, florestais?

Não percebo nada de fogos, como devem imaginar. Sou filha de engenheiros florestais, reproduzo aqui alguns dos comentários que ouvi sempre pelos cantos da casa. Fogos não se combatem, em primeiro lugar, com água e meios aéreos super dispendiosos. Combatem-se com 1) guardas florestais a vigiar (que foram despedidos massivamente ao longo dos anos) 2) com políticas que evitem o abandono agrícola (fecho de maternidades, portagens pagas, fecho de escolas e tudo o implica as populações abandonarem as áreas rurais), 3) com uma política agrícola que não esmague os pequeníssimos camponeses que vivem em redor das cidades do interior 3) com contra-fogos, abate de árvores, etc., que exigem dinheiro gasto em formação qualificada de bombeiros 4) com uma política de gestão da propriedade que não faça deste país um eucaliptal da Portucel mas onde espécies autóctones e resistentes ao fogo prosperem 5) se, no fim disto tudo, ainda houver fogos, ouvi sempre por aqui, então usa-se água, frase que roubo à minha mãe, Maria Carolina Varela, num artigo que publicou no Expresso, quando se deram os grandes fogos de 2003, creio. Artigo que infelizmente não encontro na Internet, para linkar.

Não percebo de fogos mas de Trabalho, relações e condições laborais. Do ponto de vista económico é provavelmente mais barato prevenir, pagando a profissionais e gastando com a sua formação. Mas mesmo se não fosse mais barato economicamente – o que duvido – do ponto de vista social, humano e ecológico é muito mais barato prevenir. Estes acidentes de trabalho dos bombeiros que, infelizmente, morreram, deixando-nos obviamente sensibilizados e tristes para algo que podia ter sido evitado, têm responsáveis – e não me parece que seja sensato culpar a natureza ou um qualquer pirómano neurótico.

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7 respostas a A lágrimas e fogo

  1. JP diz:

    Muito bem.
    É isto mesmo…

  2. José Sequeira diz:

    Raquel
    Mais um excelente artigo; infelizmente já leio artigos semelhantes há mais de 30 anos. Os seus pais, andando como eu – na média e portanto presumivelmente – pela casa dos sessenta e poucos, saberão muito melhor do que todos nós que este flagelo de Verão não existia no tempo da ditadura. Com excepções é claro, no início de 60 ou 61 houve um grande incêndio na serra de Sintra onde também morreram bombeiros (ou militares, já não me lembro). Isso significa que a pobreza da época fazia da nossa floresta um bem precioso: lenha para cozinhar e aquecer, tojo, fetos e caruma para a “cama” dos animais e até para atapetar a casa-de-banho dos humanos, resina para vender às indústrias, madeira para soalhos, janelas e estruturas de telhados. A evolução económica do povo português deixou a floresta entregue às contingências do calor, às bebedeiras de fim-de-semana, aos foguetes das romarias; cozinha-se a gaz, as casas são de betão, os caixilhos de alumínio, as vigotas dos telhados em cimento e já há casas-de-banho civilizadas por todo o lado. Até os pirómanos que eram duramente tratados pelas populações e pela GNR agora beneficiam de legislação “garantista” que os liberta, sem ao menos levarem uma carga de porrada, passadas poucas horas.
    Não fazendo a apologia do regime de ditadura e percebendo que o tempo do valor da floresta “foi chão que deu uvas”, percebo que temos obrigação de debater profundamente este tema, incluindo o tabu de colocar militares, sobretudo da Força Aérea, com a adaptação de aviões para sazonalmente poderem apagar fogos, desempregados, jovens sedentos de aventuras e férias diferentes, aero-clubes e reformados voluntários a vigiarem as florestas. Alerto a Raquel para um problema: todas as medidas que enunciou significam mais dinheiro do Estado. E este tem que vir dos nossos impostos. Não sei qual é a opinião dos seus pais sobre este último ponto.

  3. Luis Moreira diz:

    Mais uma vez o estado que não limpa as suas florestas e não contribui para incrementar as parcerias entre privados. E enquanto a actividade não der lucro as florestas vão continuar a arder. Mas entre dar lucro e arder há quem prefira que arda.

  4. Fernando Mascarenhas diz:

    José Sequeira, desculpe, não li todo o seu comentário. Mas esclareço: O grande incêndio da Serra de Sintra´, onde andei três dias, como militar, deve ter sido em 66/67. Morreram lá 29 militares do RAAF de Queluz. Não ardeu Sintra, porque o vento mudou, três a quatro horas antes do que teria sido uma tragédia ainda maior.

  5. Gonçalo Castel Branco diz:

    Raquel,

    Há coisas que não serão mais como eram. Se em vez de querermos trazer o passado para os dias de hoje, “tout court”, olhássemos para o futuro tentando melhorar as coisas numa lógica de coerência com a sociedade atual, talvez tenhamos mais espaço para encontrar formas de melhorar o Portugal florestal.
    No que escreve há coisas que acredito podermos fazer mas também há as que não. As ideias são postas de lado a lado como se fosse todas iguais e possíveis. No entanto há algumas que são revivalismos. O texto de José Sequeira expõem de uma forma interessante o passado. É de facto importante conhecermos bem o passado se quisermos decidir o futuro.

    Na minha opinião, quando conseguirmos pôr a floresta portuguesa novamente a gerar lucro, i.e. a ter valor monetário mensurável, os incêndios diminuirão, pois a protecção florestal será a sua consequência. Se nada tiver, valor, tudo é de ninguém, etc. estamos condenados ao que descreve.
    Valor não é madeira apenas (mas também o é: celuloses, por ex.): é turismo e caça; é ar, água e clima; é conservação da natureza, etc. Temos que criar riqueza, não importa como. Hás vezes eu penso se não deveríamos avançar primeiramente em saber a resposta: será que a sociedade está disposta a contribuir para a floresta mesmo sendo ela privada? Se sim, quanto por hectare? Com que critérios?

    Saudações florestais, Gonçalo Castel’Branco

  6. JP diz:

    Raquel, os dois últimos comentários – e o seu post – suscitaram-me a seguinte interrogação:
    A Raquel aceitaria que o estado cedesse a gestão e manutenção de parcelas da sua área florestal a empresas privadas de energia (biomassa)?

  7. paula diz:

    Porque não utilizar os militares na vigilancia das florestas no Algarve isso foi feito durante 2 anos com excelentes resultados . Julgo q era preferivel do q ter militares fechados em quarteis a ver o tempo passar..

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