Telas brancas, povo mudo – os arautos da morte da Cinemateca Portuguesa

cinema

As notícias recentes dão nota de uma Cinemateca em perigo de fechar, sem verbas para programação.

Depois de o dinheiro ter «acabado» para a legendagem de filmes, é a vez de acabar com uma programação de excelência, a preços simbólicos, com salas únicas, num local irrepetível em todo o país.

Por toda a Europa as Cinematecas são património cultural vivo e em movimento dos vários países. Onde ainda há direito ao cinema – nas perspectivas de quem o cria, realiza e interpreta e de quem o vê – as Cinematecas são o depósito da memória histórica de cada país.

Não neste. Depois da privatização da Tobis, criada em 1932 com o intuito de apoiar e fomentar o desenvolvimento do cinema nacional, apoiando no fornecimento de serviços de pós produção em filme, vídeo e digital assim como nos processos de digitalização, restauro e conversão de filmes para projecção digital, segue-se um espaço onde os filmes não são, certamente, os do guião de um regime que quer o povo entretido e estúpido.

O facto de existirem ciclos de cinema soviético, de se passarem filmes do Chaplin, filmes portugueses baseados em obras de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal), filmes que contam a história mundial – escrita por quem vence e quem perde – filmes que contam a história do nosso país, certamente não se compadecem com o revisionismo histórico e a tentativa de criação de gerações que não conheçam o passado para que não construam um futuro.

A verdade é que, já durante o fascismo, o receituário era o mesmo: às comédias interpretadas por António Silva e Vasco Santana, permitiam-se críticas subliminares (sendo que muitas delas eram mais do que explícitas, veja-se a célebre crítica ao fado n’A Canção de Lisboa, de José Cottinelli Telmo), mas nunca as que expressamente pusessem em causa o sistema.

Cerca de 3500 filmes foram proibidos durante a ditadura, desde a criação da Inspecção dos Espectáculos, em 1928, até ao 25 Abril de 1974. Tais proibições eram decretadas por razões politicas. E também por razões “morais”, “a bem da Nação”. Qualquer filme russo (entre 1936 e 1970), qualquer filme dum pais do leste (entre 1947 e 1970), qualquer filme indiano (entre 1953 e 1973) estava impedido de ser exibido, fosse ele qual fosse. Com pequenas excepções, todos os filmes de Eisenstein, de Vertov, de Buñuel, de Pasolini, muitos filmes neo-realistas italianos e da “nova vaga” francesa, vários filmes de Chaplin, de Renoir, de Bergman, entre outros só puderam ser vistos nas salas portuguesas depois do 25 de Abril.

Uma dessas salas que revisita frequentemente o espectro cinematográfico descrito é a Cinemateca. Nas mãos de uma lei do cinema injusta, que coloca os apoios dependentes dos “êxitos de bilheteira”, de um governo que não abre concursos à produção cinematográfica, que vê concelhos e distritos inteiros a ficarem sem salas de cinema (enquanto a Zon vai monopolizando a distribuição e criando uma ditadura do gosto cinematográfico), não apoia a internacionalização do cinema português (e temos Guerra da Mata em Locarno, João Viana em Berlim, Salaviza em Cannes, Miguel Gomes em Cannes, Vendrell em Toronto, Gabriel Abrantes em Locarno a expensas suas ou não vão), que quer destruir o serviço público de televisão e se prepara para dar mais uma golpada, agora na cinemateca.

A democracia passa necessariamente pela cultura. Um povo que não pode pensar, ler, ver filmes com a liberdade que a Constituição lhe garante, é um povo sem democracia.

Telas brancas, povo mudo.

Avante, Cinemateca! Cá estaremos (também) nesta luta, que é de todos.

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4 respostas a Telas brancas, povo mudo – os arautos da morte da Cinemateca Portuguesa

  1. M.Almeida diz:

    Há meses, no teatro da Comuna reuniram-se alguns dos nossos artistas, os subsidio-dependentes do costume, com uma mensagem que passou em todos os OCS, de que mais uma semana, e sem financiamento (do Estado, ou seja do contribuinte, claro) o Teatro da COmuna estava em risco de fechar. Uma semana diziam as alminhas. Passados meses, não sabemos o que se passou o que é facto é que o TdC não encerrou como os nossos artistas dizia que ia acontecer. Agora segue-se a Cinemateca. O choradinho, para pedir dinheiro do contribuinte para financiar a cultura. Um País que tem desprezado a cultura, porque quem tem dirigido a cultura nestes últimos 39 anos tem sido gente que se está nas tintas para os portugueses, já que raramente conseguem encher uma sala de cinema ou de teatro tal é o desinteresse das peças ou filmes apresentados. A cultura tem sido dirigida para um nicho de mercado e não para os portugueses em geral. Insistindo sempre no mesmo tipo de mensagens desinteressantes para a maioria dos portugueses, quem tomou conta da cultura em Portugal acha que o contribuinte, no momento em que o Estado está falido tem de continuar a financiar seja o que fôr, mesmo que não haja resultados, porque a cultura tem de ser financiada a qualquer custo pelos contribuintes, porque só assim se dá cultura ao povo. Foi preciso vários governos falirem o País para percebermos o que realmente estava errado ao longo de anos e anos. Não se pode continuar a injectar dinheiro dos nossos impostos em algo que é consumido por um grupo restrito de pessoas. Foi isso que nos mostrou a crise em que vários governos, entre os quais governos de esquerda (os tais que dizem que apoiam a cultura) mergulharam o País. Ao actual governo coube-lhe a tarefa de gerir as dividas e aplicar da melhor forma o dinheiro dos nosso impostos,ainda que pouco, em sectores fundamentais.

    • De diz:

      Eis m almeida a mostrar de que é feito um subsidio dependente ao serviço do governo e da troika. Um dos seus muchachos, que se presta a este sujo trabalho

      “A democracia passa necessariamente pela cultura. Um povo que não pode pensar, ler, ver filmes com a liberdade que a Constituição lhe garante, é um povo sem democracia.”

      “Telas brancas,povo mudo.”

      A direita nunca gostou de cultura.Um desses tipos dizia mesmo que puxava da pistola assim que ouvia falar em cultura.Era uma besta nazi e como outros do mesmo género ou de outros géneros detestava uma liberdade fundamental que é o direito à cultura.

      Fazer as pessoas pensar, interrogá-las,questioná-las,fazê-las sentir vivas, nunca foi do interesse da direita.O obscurantismo sempre foi a sua meta. A alienação o seu objectivo.As ofertas “kolturais” a defender por esta trupe passam pelo la feria e os seus negócios com rui rio, ou pelas brigas tipo reality show, quando não pelos trapinhos da joana.
      O tal “tipo de mensagens desinteressantes para os portugueses” é focado aqui por m almeida .Este candidata-se a decisor do gosto nacional.Voltámos ao tempo da outra senhora em que uns tipos afilavam o lápis azul e sufocavam o pais. Noutros tempos era necessário distrair o pagode e o fado ,futebol e Fatima bastavam para o efeito.Os risos néscios soltavam-se dos rostos dos que assim manobravam os cordelinhos, em nome da pátria , de deus e da autoridade.
      Hoje repetem-se os mesmos objectivos,usando-se como alibi palavras mais adequadas aos tempos.
      Duma forma grosseira e sem pestanejar falam em “país falido”.Nem sequer têm a capacidade de pensar que quem dirigiu o país foi e é esta canalha que nos governou e tem governado.

      “O tal dinheiro dos nossos impostos que é consumido por um grupo restrito de pessoas” ouvimos dizer de forma obscena a quem fala na “gestão das dívidas feitas”.
      .Este m almeida referir-se-á ao bando do BPN, dos swaps, das PPP,do BPP, dos submarinos, dos privatizadores e dos privatizados,dos banqueiros néscios ou dos grandes empreendedores?

      O dinheiro para os sectores fundamentais?Para o bolso da troika e dos troikistas?

      Eis m almeida a mostrar de que é feito

  2. M.Almeida diz:

    Comentário corrigido. Não foi o TdC mas sim o Teatro Aberto. As minhas desculpas. O comentário já fi corrigido.

    Há meses, no teatro Aberto reuniram-se alguns dos nossos artistas, os subsidio-dependentes do costume, com uma mensagem que passou em todos os OCS, de que mais uma semana, e sem financiamento (do Estado, ou seja do contribuinte, claro) o Teatro da COmuna estava em risco de fechar. Uma semana diziam as alminhas. Passados meses, não sabemos o que se passou o que é facto é que o TA não encerrou como os nossos artistas dizia que ia acontecer. Agora segue-se a Cinemateca. O choradinho, para pedir dinheiro do contribuinte para financiar a cultura. Um País que tem desprezado a cultura, porque quem tem dirigido a cultura nestes últimos 39 anos tem sido gente que se está nas tintas para os portugueses, já que raramente conseguem encher uma sala de cinema ou de teatro tal é o desinteresse das peças ou filmes apresentados. A cultura tem sido dirigida para um nicho de mercado e não para os portugueses em geral. Insistindo sempre no mesmo tipo de mensagens desinteressantes para a maioria dos portugueses, quem tomou conta da cultura em Portugal acha que o contribuinte, no momento em que o Estado está falido tem de continuar a financiar seja o que fôr, mesmo que não haja resultados, porque a cultura tem de ser financiada a qualquer custo pelos contribuintes, porque só assim se dá cultura ao povo. Foi preciso vários governos falirem o País para percebermos o que realmente estava errado ao longo de anos e anos. Não se pode continuar a injectar dinheiro dos nossos impostos em algo que é consumido por um grupo restrito de pessoas. Foi isso que nos mostrou a crise em que vários governos, entre os quais governos de esquerda (os tais que dizem que apoiam a cultura) mergulharam o País. Ao actual governo coube-lhe a tarefa de gerir as dividas e aplicar da melhor forma o dinheiro dos nosso impostos,ainda que pouco, em sectores fundamentais.

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