A Caminho das Autárquicas (III)

Ao longo da minha experiência em eleições autárquicas habituei-me a ouvir a seguinte justificação ou motivação para o voto: «Nas autárquicas não voto nos partidos, voto nas pessoas». Respeitando esta opção, como qualquer outra, não deixo de a considerar uma perigosíssima armadilha. E considero-a perigosa ainda que porventura tal ideia possa jogar a favor dos candidatos que apoie. Não era preciso escavar muito para encontrar exemplos concretos de como uma «boa pessoa» se transforma facilmente num satélite «telecomandado». Tanto pelas estruturas superiores do seu partido, como pelos interesses que gravitam à sua volta. Por exemplo, é fácil perceber que nenhum eleito do PS, do PSD ou do CDS se furtará a entregar, com a maior das facilidades, sectores e serviços públicos a empresas privadas. E estamos a falar de água, saneamento, gestão de espaços municipais, serviços locais, etc. Tais decisões nada têm de pessoal. Pelo contrário, têm tudo de político e ideológico.

Apesar de tudo, sabemos que o voto «nas pessoas» será sempre parte importante das próximas eleições. Mas também sabemos que desses, muitos se recusariam a votar «nas pessoas» que são Passos Coelho e Paulo Portas. E nem mesmo em António José Seguro. Todavia, por muito que tentem enganar-se a si próprios, procurando algum sossego da sua própria consciência, nenhum desses eleitores vai conseguir impedir que o voto «na pessoa» da terra seja também o voto nas siglas partidárias que lhe são correspondentes. E nada impedirá que esse voto seja posteriormente usado, como vai efectivamente ser, por um Seguro que não convence, e por um governo ávido de simpatias e glórias eleitorais, venham elas de onde vierem. A vitória expressiva de PSD e CDS nas autarquias constituiria um balão de oxigénio e um trunfo que Passos e Portas jamais deixariam de aproveitar. Quem ache que votar no candidato lá da terra é não dar motivo de festejo ao governo, pois que se desengane. Neste preciso momento, com um governo estilhaçado, desesperado e sem rumo, com um governo muito preocupado com a imagem, com a comunicação, as mensagens, os briefings, etc., não haverá um unicozinho voto na sigla «das setinhas» que venha a ser desperdiçado pela propaganda governamental. E para além do governo, dos comentadores televisivos a cronistas de jornais, no próprio dia e no dia seguinte, estou certo, não faltarão loas à santa troika nacional, afinal ganhadora, afinal com o povo do «seu lado». Caberá ao povo decidir de que lado se há-de colocar.

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Sobre Ivo Rafael Silva

Mestre em Tradução e Interpretação Especializadas; Licenciado em Assessoria e Tradução; Investigador de História e Etnografia; Investigador do Centro de Estudos Interculturais (CEI) do ISCAP; Tradutor freelance; Secretário administrativo; Militante do PCP desde os 18; Membro da JCP desde os 16.
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4 respostas a A Caminho das Autárquicas (III)

  1. José Sequeira diz:

    Capítulo II do Manuel Carvalho da Silva: sai do PCP para ter mais hipóteses de uma candidatura presidencial.
    Alice Vieira indigna-se por ser expulsa do PCP.
    E a procissão ainda vai no adro.

  2. Rafael Ortega diz:

    “Não era preciso escavar muito para encontrar exemplos concretos de como uma «boa pessoa» se transforma facilmente num satélite «telecomandado». Tanto pelas estruturas superiores do seu partido, como pelos interesses que gravitam à sua volta.”

    Quantas camionetas, propriedade de autarquias do PCP, vêm a Lisboa em dias de manifestação?

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