Turismo revolucionário

«O governante adiantou que nos últimos tempos se vinha a notar uma dinâmica das visitas dos turistas internacionais “muito positiva”, acrescentando que Portugal está “a aproveitar melhor” do que outros países, o que se está a passar no Egito e na Turquia.»

Foram estas as palavras com que Pires de Lima nos presenteou a propósito do crescimento da actividade turística em Portugal. Como qualquer outro sector económico, a concorrência é feroz e o mérito de Portugal foi ter aproveitado os levantamentos populares contra os respectivos regimes para promover a sua acalmia e tranquilidade.

Se o PIB crescer, agradeçam a Erdogan pela repressão exercida; se o emprego no sector do Turismo aumentar, lancem louvores ao aparelho militar egípcio. Agora o Mediterrâneo é nosso. Orgulhosamente sós e alienados dos combates pela liberdade como outrora em 1940 com a célebre Exposição do Mundo Português em plena convulsão mundial.

Por aqui continuo à espera da importação das hostes turcas e egípcias perante o descalabro da dívida, o assalto às pensões e  o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, entre outras atracções turísticas.

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27 respostas a Turismo revolucionário

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Ainda bem que houve Estado Novo e a exposição do mundo português… Senão, alguma esquerda mais nostálgica teria que ir buscar o sustentáculo da sua argumentação à usurpação de D. Miguel I ou à tirania do Marquês de Pombal…

    • Frederico Aleixo diz:

      Preferia não ter onde ir buscar mas infelizmente a história portuguesa está cheia destes casos e de muitos paralelismos com a situação actual.

      • Nuno Cardoso da Silva diz:

        Note que o meu problema não é que se critique o Estado Novo, é que se perca tempo a atacar os inimigos de ontem em vez de atacar os inimigos de hoje. A batalha do Estado Novo já foi ganha e agora só interessa aos historiadores. É evidente que o cancro não foi totalmente estirpado e há problemas de hoje que têm as suas raízes nesse Estado Novo. Mas o inimigo manifesta-se hoje de outra forma, com outras armas, com outra táctica, pelo que não é invectivando o Estado Novo que se consegue dar-lhe resposta. Tomara eu que os nossos inimigos de hoje se comportassem como o Salazar e a PIDE, pois seria muito mais fácil dar-lhes combate. Mas os nossos inimigos de hoje são muito mais sofisticados, muito mais inteligentes, e dispõem de muitos mais meios para firmar o seu poder. Não é com as lições do passado que os podemos derrotar, é com estratégias de hoje e armas de hoje. E muita reflexão e inteligência.

        • Frederico Aleixo diz:

          Nuno Cardoso Silva, nada contra a sua opinião e estamos de facto a falar de contextos objectivamente diferentes. A minha questão prende-se mais com o facto de ter concentrado a sua crítica numa mera comparação com a Exposição do Mundo Português. Quase nem dirigindo uma palavra às declarações de Pires de Lima (essas sim chocantes). A História é importante para percebermos quando a tragédia vem mascarada de farsa.

  2. «O Quê!!!» diz:

    «Ainda bem que houve Estado Novo»? Tive de ler duas vezes…

    «Shame on you!!!»

    Eu fico embasbacada com estas opiniões. Nem posso acreditar. Só demonstra ignorância e falta de coração. Estas gentes de facto não prestam. Não sei nada da História de Portugal – tenho várias nacionalidades (inc.a portuguesa) e fui educada em vários países, não sei falar nem escrever nenhum idioma correctamente, apesar de saber vários, e para dizer com franqueza, não quero saber, há quem saiba fazê-lo muito bem -, mas já vi suficientes documentários passados na televisão portuguesa sobre o dito Estado Novo e as torturas e a pobreza. Já li alguma coisa.

    Uma ditadura (de Salazar) onde foram torturadas, mortas perseguidas, milhares de pessoas, a pobreza era inacreditável… eu fico sem palavras… como se pode fazer uma afirmação destas!!!

    Mas, pelos vistos há quem tenha saudades de torturar e de matar; parece que anseiam vir a integrar um novo corpo da PIDE para usar métodos mais modernaços de tortura e matança: as armas químicas estão muito na moda…made in USA.

    Sim. Sim. Há gente para tudo. Para ser masoquista, sadomasoquiista e outras coisas mais, mas não digo mais. Felizmente durante a minha vida não tive contacto com essas dimensões obscuras da natureza humana.

    Mas eu não quero contacto nenhum com essas pessoas porque elas são mesmo muito más. Não falo nem me aproximo de gente que tem saudades do Estado Novo.

    Pires de Lima diz o que diz porque ele sabe bem do que fala: é um «expert» em viver bem à custa de outros. Um verdadeiro explorador. Isto de construir a nossa felicidade em cima da infelicidade dos outros não é lá muito católico. E esta gente parece que vai toda à Missa.
    Surpreende-me é o descaramento!!! E ainda por cima é um representante de Portugal. Envergonha-me esta gente!!!

    Dava-lhes a todos uma sova valente, mas preferia utilizar métodos bem mais eficazes.

    • Frederico Aleixo diz:

      Olhe, devo dizer que me revejo no que escreveu. E para ter a opinião que tem é porque sabe de história ao contrário de quem tenta branqueá-la.

      É sempre bem-vindo o seu comentário.

      • «O Quê!!!» diz:

        Muito obrigada por me deixar entrar em sua casa.

        Parabéns pelo seu post!!!

      • «O Quê!!!» diz:

        Não conheço estas pessoas. O Sr. Frederico Aleixo vou escrever aqui porque que eu não me aproximo nem falo pessoas que não conheço e que, sobretudo, não dizem de forma explícita o querem dizer.
        Eu gosto das coisas «preto no branco».

        De nuances, significados, sentidos, hipérboles, metáforas, analogias, etc. também conheço algumas coisinhas.

        O problema não está na minha ignorância da língua portuguesa ou de outras tantas mais.

        Uma das muitas coisas que aprendi na vida foram a de ter muita atenção: no acto de olhar, de leitura, de tradução e de interpretação.

        Sr. Frederico Aleixo, muito obrigada por me deixar escrever na sua casa.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Talvez a menor familiariedade com a língua portuguesa a tenha levado a não detectar a ironia na afirmação que tanto a indignou… Leia outra vez…

    • NKVD diz:

      Dava-lhes a todos uma sova valente, mas preferia utilizar métodos bem mais eficazes.

      Camarada Vassili Blokhin, és tu?

  3. josé sequeira diz:

    Frederico
    De acordo consigo em tudo.
    Mas atenção, a exposição do Mundo Português deu de comer a muita gente de esquerda; nesse aspecto o ditador – e o António Ferro – foram exemplares. Excepto talvez o Leopoldo de Almeida, excepcional escultor mas notoriamente fascista, todos os outros artistas, arquitectos, escultores, designers, eram e continuaram de esquerda.
    Podemos dizer que se venderam; não creio. Tiveram liberdade, deram asas ao modernismo, criaram e foram pagos.
    Cumprimentos.

    • Frederico Aleixo diz:

      José Sequeira,

      Não quero com isto condenar ou julgar os artistas da Exposição. Estou a centrar-me no objectivo dessa manobra de propaganda. Tal como agora o intuito seria demonstrar a estabilidade e a prosperidade grandiosa de Portugal perante os conflitos que se abatiam sobre o mundo. O Portugal à beira-mar plantado, bem-comportado e alheio à selvajaria das relações internacionais. O turismo como escape como se tudo corresse às mil maravilhas por aqui.

      Cumprimentos

      • JgMenos diz:

        Tudo isso só pode levar a dizer-se ‘que nos governamos quando os outros se desgovernam’; e pior seria que assim não fosse.
        Já dizia dos lusitanos o romano Galba: ‘não se governam nem se deixam governar’
        Todo um chorrilho de textos neste blog são uma rapsódia de imprecisões e invocações sem outro propósito que não seja estabelecer o desgoverno como um estado continuado e inevitável.
        Quem desdenha o reformismo promove o desgoverno e provavelmente é tão só aparvalhado ou invoca-se do revolucionarismo que é o abrigo seguro de todos os inconsequentes!

        • De diz:

          Uma colecção de qualificativos tão vazios e ocos como a oportunidade de os colocar onde foram colocados.
          Era preciso que Menos reagisse perante um texto com a limpidez da água.. surge então o meia bola e força. de Menos…e aparece este espectáculozinho deprimente

          O desgoverrno que Menos acusa outros de estabelecer é apenas a sua particular forma de elidir o desgoverno neoliberal a que estamos sujeitos.Governados por terroristas sociais, cabe a Menos a tarefa da promoção ordeira, ordenada, sabuja, cobarde e nauseabunda do r”eformismo” menor e da promoção governamental maior.Esconde-se por outro lado a natureza de classe do estado. E apela-se subliminarmente aquela velha ordem de governar que não admite revolucionarismos nem outras coisas tidas por inconsequentes .
          Eis Menos, um defensor de Ordem e do status quo custe o que custar.

          Aparvalhado ( o termo é dele) repetirá mentalmente as palavras: ” Para Angola rapidamente e em força” dos seus velhos tempos de glória?

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            ”Para Angola rapidamente e em força”

            Outro que vive no passado e só sabe combater os inimigos de ontem. Sempre é mais fácil e menos arriscado do que combater os verdadeiros inimigos de hoje… O que é que vos aconteceu? Meteram a cabeça na arca congeladora e esqueceram-se de a tirar de lá?…

          • De diz:

            Não percebeu? Mas onde está você com a cabeça para não perceber a ironia dirigida ao defensor da Ordem e da Lei? Em marcha e em filinha pirilau?
            Olhe leia lá outra vez.

            Já não há mesmo pachorra

  4. «Trocadinho por miúdos» diz:

    Em bom português: estamos a ter um aumento de turistas porque as rotas de turismo mais apetecíveis se tornaram «zonas de guerra». E os turistas não gostam de andar em zonas de tiros ou de serem mortos. Portanto, Portugal como é um país «pobre», com «pessoas muito amestradas e bem comportadas» não representa um local de risco.

    Já ouvi esta história muitas vezes: Portugal não é um país «pobre» mas de muitos «corruptos». O ajustamento está a ser feito à conta do sofrimento da ditadura desta gente que não tem qualquer tipo de sentimento.

    É por isso que estamos a ter um aumento de turistas. Mas entretanto nas Primaveras Árabes e por aí fora vão morrendo milhares e milhares de pessoas que viviam do turismo, leia-se Egipto, Tunísia e outros países que não me lembro agora. Isto tudo tem a ver com marketing, a noção de «Nation Brand», com que todos os políticos se preocupam e não só obviamente.

    Este aparente «paz» em que vivemos em Portugal tem no seu íntimo um enorme sofrimento dos portugueses, camuflado agora pelos políticos et all, com aumento de turistas e mais coisas que hão-de inventar para «domesticar» os portugueses.

    Isto de ler livros é bom. Mas ficar «preso» às referências é perigoso. As pessoas tornam-se «datadas». Deixam de ser livres e de ter o sentido crítico. São demasiados livros «enfardados» e datas «decoradas«.

    Convém fazer, de vez em quando, um «reset» ou um «reboot» porque senão somos sempre o «produto do sistema».

    Desculpe-me a observação. Mas as nuances podem ser lidas assim, não é?

  5. De diz:

    Mais uma vez um grande post, a procurar iluminar o nosso presente com exemplos do nosso passado histórico.
    E colocando a tónica em temas que a poeira mediática e a ideologia dominante tenta fazer passar por consensuais e radiosos.
    Orgulho-me, já aqui o disse, que a humanidade mas também a inteligência (desculpem o dito) estejam do lado da esquerda

    Já agora há uma frase que alguém aí em cima postou e que me parece exemplar:
    “Pires de Lima diz o que diz porque ele sabe bem do que fala: é um «expert» em viver bem à custa de outros. Um verdadeiro explorador. Isto de construir a nossa felicidade em cima da infelicidade dos outros não é lá muito católico. E esta gente parece que vai toda à Missa.”

    Venham mais

    • Frederico Aleixo diz:

      Muito obrigado, caro De.

      Que venham igualmente mais e mais comentários seus com a qualidade do costume. Não podemos dar descanso à ideologia da classe dominante.

      • JgMenos diz:

        Talvez bovina e cristãmente devêssemos fechar as fronteiras!
        É cada conversa de comadre de ao pé da porta!!!

        • De diz:

          Conversa de comadre terá Menos lá nas berças onde se refugia para contar o dinheiro das rendas
          Se de forma bovina ou beata isso já não sei

  6. imbondeiro diz:

    Está bem visto, sim senhor… Os nossos queridos (des)governantes sairam-se com mais uma tirada de génio. Eu, se fosse o senhor Pires de Lima, faria mais: iria a Fátima acender uma velinha em agradecimento pelo facto de o Altíssimo ter soltado a sua vulcânica ira sobre os povos dessas terras de infiéis que são a Turquia, a Líbia, a Tunísia, o Egipto e a Síria, e, com isso, ter favorecido o turismo desta santíssima república chamada Portugal. E novas oportunidades se vislumbram no horizonte: não será boa ideia importar uns largos milhares de refugiados sírios para trabalharem aqui no rincão ao módico custo de uma diária malga de sopa? Aqui fica o meu singelo opinativo contributo para o avanço da lusa economia. A bem da ( mui cristã e bovinamente obediente ) Nação.

  7. «Um revolucionário» diz:

    Há uns meses falei com uma pessoa do « ligada ao regime reaccionário», amigo de há anos e anos. Trocámos umas impressões e disse-lhe os cortes nos ordenados deviam começar pelos dele e das chefias. Não digo onde porque não exponho pessoas. Ele é uma pessoa profundamente católica. Depois da conversa que tivémos, afastei-me.

    Vou contar a conversa:

    Disse-lhe, assim, «Ouve uma coisa. Jesus Cristo era de esquerda». Ele começou-se a rir e perguntou-me.«Porquê?» Respondi-lhe: «o que retive da catequese foi ouvir que «Jesus expulsou os agiotas do Templo. Se houve alguém revolucionário e de esquerda foi Jesus Cristo e morreu». O meu amigo riu-se mas logo a seguir calou-se porque sabe que não tenho «papas na língua» e que lhe diria mais. O aproveitamento político das pessoas que contestam o statuo quo, por exemplo, no contexto de Jesus Cristo, é uma evidência: a religião cristã e «variantes» – desculpem o termo – é um sistema de poder dominante como outro qualquer. E tratou-se de um aproveitamento político de um revolucionário. Mas isto é apenas o meu ponto de vista. Não tenho problema absolutamente nenhum com religiões, crenças, etc. – absolutamente nenhum, mas não quer dizer que ande de olhos fechados.

    E há mais, a noção de «transmigração das almas» foi retirada do receituário, salvo erro, no sec. XIII. Não me lembro muito bem do século. Nada foi feito por acaso. Mas há muito, muito mais…

    P.S. Tenho falta de memória porque ,como já disse, tive um curto-circuito brutal no meu cérebro e estou em vias de reparar o mesmo, se é que tem reparação, mas assim está bem.

  8. «Pois é...» diz:

    Encontrei uns turistas que vieram a Portugal porque tinham alterado os planos de férias. Disseram-me que tinham vindo cá porque é um sítio pacífico (sem guerra) e com sol.

    Olhei para eles e pensei: por cada turista que vem a Portugal, quantas outras pessoas morreram? Alguém porventura terá a coragem de fazer a estatística?

    • JgMenos diz:

      Tiraste-me o sono para quinze dias, piegas!

      • «Remédio Santo» diz:

        4 X Tercian 100mg por noite, São azuis, parecem «smarties». Não fazem mal.

        Fique seguro que dormirá muito bem.

      • De diz:

        Alguma crispação parece ter tomado Menos.
        Algum desespero também?
        O debate de ideias continua.Sorry Menos mas os seus truques ilusionistas vão ficando sem espaço de manobra.

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