Manning condenado a 35 anos de prisão

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Segue-se o depoimento de Manning (lido por David Coombs) na conferência de imprensa hoje, depois de Manning ter sido condenado a 35 anos de prisão.

As decisões que tomei em 2010 deveram-se à preocupação com o meu país e o mundo em que vivemos. Desde os trágicos eventos do 11 de Setembro, o nosso país tem estado em guerra. Temos estado em guerra com um inimigo que opta por não nos enfrentar num campo de batalha tradicional, e devido a este facto tivemos de alterar os nossos métodos de combate aos riscos impostos sobre nós e o nosso modo de vida.

Inicialmente concordei com estes métodos e escolhi voluntariar-me para ajudar a defender o meu país. Só quando cheguei ao Iraque e li os relatórios militares secretos diariamente é que comecei a questionar a moralidade do que estávamos a fazer. Foi nessa altura que compreendi que com os esforços de enfrentar o risco imposto pelo inimigo, nós havíamos esquecido a nossa humanidade. Nós elegemos conscientemente desvalorizar a vida humana tanto no Iraque como no Afeganistão. Quando enfrentámos aqueles que entendíamos ser o inimigo, por vezes matámos civis inocentes. Sempre que matávamos civis inocentes, em vez de aceitarmos responsabilidade pela nossa conduta, elegemos esconder-nos por detrás do véu da segurança nacional e informação classificada de forma a evitar qualquer responsabilidade pública.

No nosso zelo para matar o inimigo, debatemos internamente a definição de tortura. Detivemos indivíduos em Guantanamo durante anos sem o processo legal devido. Nós inexplicavelmente virámos as costas a tortura e execuções pelo governo Iraquiano. E engolimos incontáveis outros actos em nome da nossa guerra ao terror.

O grito patriótico é frequente quando actos moralmente questionáveis são defendidos pelos que estão no poder. Quando estes gritos patrióticos afogam as nossas intenções lógicas, é geralmente o soldado Estadunidense que é ordenado a cumprir uma missão mal concebida.

A nossa nação tem tido semelhantes momentos negros para as virtudes da democracia – o Trilho de Lágrimas [Trail of Tears; a migração forçada dos Ameríndios], a decisão Dred Scott [a decisão do Tribunal Supremo que negou cidadania ao escravo Dred Scott, em 1857], o McCarthismo, os campos de internamento dos Estadunidenses de origem Japonesa – para referir apenas alguns. Estou confiante de que muitas das nossas acções desde o 11 de Setembro sejam vistas um dia sobre a mesma perspectiva.

Como o falecido [historiador] Howard Zinn uma vez disse: “não há bandeira suficientemente grande para cobrir a vergonha do assassinato de pessoas inocentes.”

Eu compreendo que as minhas acções violaram a lei, e lamento se as minhas acções feriram alguém ou feriram os EUA. Nunca foi minha intenção ferir ninguém. Apenas queria ajudar pessoas. Quando decidi revelar informação classificada, fi-lo por amor ao meu país e um sentido de dever perante outros.

Se negarem o meu pedido de perdão, servirei a minha pena sabendo que por vezes temos de pagar um preço elevado para viver numa sociedade livre. Pagarei esse preço comprazer se isso significa que podemos ter um país verdadeiramente concebido em liberdade e dedicado à proposição que todas as mulheres e homens são criados igualmente.

[Traduzido da transcrição disponível aqui]

AVISO: este post é sobre a posição ética e política de Manning e o direito de acesso a informação. Não é sobre as recentes declarações sobre a identificação de género de Chelsea Manning (questão que aliás já era do conhecimento público). Como tal não irei aprovar comentários a este post que abordem esta questão, até porque não me parece que haja nada mais a comentar além de saudar Manning que mais uma vez demonstrou coragem ao tão publicamente e em momento tão tenso declarar a sua identificação de género.

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Sobre andrelevy

Sou investigador na área de biologia evolutiva, na Unidade de Investigação em Eco-etologia no ISPA, Lisboa. Fiz o doutoramento em ecologia evolutiva de plantas e insectos, em particular sobre as defesas de plantas a múltiplos insectos. De momento trabalho em filogenia, biogeografia e filogeografia de peixes marinhos.
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13 respostas a Manning condenado a 35 anos de prisão

  1. De diz:

    Um depoimento impressionante. Que ficará para a História

    Como o falecido [historiador] Howard Zinn uma vez disse: “não há bandeira suficientemente grande para cobrir a vergonha do assassinato de pessoas inocentes.”

    EUA, UM REGIME FASCISTA
    A condenação do soldado Bradley Manning a 35 anos de prisão por uma Corte Marcial revela o carácter do regime Obama: fascista. O soldado valente que teve a coragem de denunciar crimes de guerra bárbaros cometidos pela tropa imperialista é condenado. Mas os criminosos que denunciou não vão sequer a julgamento ou, quando chegam a ir, são absolvidos ou recebem penas simbólicas. Esta sentença vingativa do regime Obama é de certa forma uma confissão de que os crimes denunciados por Manning são verdadeiros e uma forma de calar a ele e a futuros denunciantes das atrocidades selvagens cometidas pelo imperialismo estado-unidense. Bradley Manning, um herói do nosso tempo, é agora mais um dos presos político do império”

    Resistir

    Entretanto:
    8 real spies who got shorter sentences than Bradley Manning
    http://www.presstv.ir/detail/2013/08/22/319854/real-spies-treated-better-than-manning/

  2. M. diz:

    Bradley Manning ficará na História dos EUA. Assim como ficaram Sacco e Vanzetti.

    Fez-me lembrar a música que aprendi de cor desde a minha adolescência..

    Vou colocá-la, se me permite, no seu post, mas num outro contexto, o da Grécia; e também dos países do Sul. No se trata de aproveitamento político mas de apelo à resistência: estamos juntos.

    «Here’s to you Nicola and Bart»

    A letra da música:

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Here’s to you, Nicola and Bart
    Rest forever here in our hearts
    The last and final moment is yours
    That agony is your triumph

    Songwriters
    MORRICONE, ENNIO / BAEZ, JOAN / MIGLIACCI, FRANCESCO FRANCO / MITI, GIANFRANCO

    P.S. A linguagem de que dispômos não tem alcance para poder traduzir a letra. Teremos de mudar de linguagem? Sim. Mas isso são outas conversas.

  3. Miguel diz:

    Boa carta!

    Aquilo que se espera, é que surja, o mais depressa possível, um movimento revolucionário nos Estados Unidos da América que termine, de vez, com o lobbie judeu da «AIPAC» que domina a estrutura de poder dos amerricanos, como também com a corrupção existente nas várias empresas privadas que gerem o exército americano.

    É preciso acabar com todo este veneno, para que o Mundo possa realmente ser livre.

  4. João Pedro diz:

    Obrigado por tudo, soldado Manning. Obrigado por tantos e tantos, soldado Manning. A história o absolverá e o consagrará como um herói americano, como um herói do Mundo, como um soldado da Paz Mundial.

    Um eterno obrigado, cidadão Bradley Manning.

  5. JgMenos diz:

    É para os EU o preço de colocarem em áreas de secretismo um ser desequilibrado – mulher em corpo de homem. Esta treta da não discriminação só pode dar nisto.
    O pré-anuncio da transformação vai fazer dele uma mulher feliz num presídio para homens!

    • De diz:

      Um comentário que mostra o que é Menos.
      Só se encontram comentários assim nos sites mais extremistas norte-americanos, ligados a seitas religiosas e ao tea-party.E equivalentes cá do burgo
      Descanse Menos que as prisões americanas são feitas de acordo com os interesses geo-políticos do caso.

      Manning já provou que conseguiu suportar muito mais do que toda a cambada que aí pulula, cúmplice com os crimes dos EUA e máscula o suficiente para agradar ao Menos.

      Era mesmo o que faltava comentários de desiquibrados tentando com base em orientações sexuais, questionar aquilo que de facto conta na vida de um Ser Humano.

      • JgMenos diz:

        A adequação geo-política das prisões americanas são mesmo uma das minhas principais preocupações. Obrigado pelo descanso que me dá!

        • De diz:

          Pois parece que sim, atendendo à sua inqualificável última frase

        • «Sugestões de Leitura» diz:

          (1) Sr. Andrelevy,

          Sei que disse para não comentar mais nada. Absolutamente de acordo. Mas este Sr.JgMenos precisa de aprender umas coisas.

          (2) Sr. Jg.Menos,

          Os blogues servem também para aprender e não só para entreter..

          Precisa de ler urgentemente alguma coisa que o elucide sobre o conceito de Estigma para perceber o que anda a escrever no contexto deste post.

          Sugiro-lhe que leia o livro de Erving Goffman:

          «1963: Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. Prentice-Hall.»

          Não há nada que me irrite mais do que estas «estruturas de dominação» que falam sobre o que não sabem porque têm medo de se questionar sobre a sua própria identidade e de a pôr em causa. Estas pessoas andam a viver de «identidades roubadas», ou seja, de papéis, de papéis, de papéis, de papéis. de papéis e pensam-se tão, tão, tão inteligentes…

          Depois de ler o livro «Estigma» de Goffman , sugiro que leia também:

          1961: Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Inmates. New York, Doubleday.

          P.S. Devem haver traduções em português. Mas pelo menos vá a Internet informar-se.

        • Carlos Carapeto diz:

          Admirava-me o puritano Menos não aparecer de “crucifixo” em riste, abençoando a caridade praticada por o império.

          E não o preocupa crianças com 12 anos serem condenadas a prisão perpetua?

          Mas que raio de preocupação tão despreocupada!

          E porque não critica os escândalos sexuais dos membros da igreja praticados secretamente?

          Por o pouco que tem vindo a publico , deixa perceber que o Vaticano é um covil de rab…….tas.

          A ser verdade aquilo que a informação diz, Manning ao menos assume-se.

          Falta ver ainda se não se trata de uma campanha de desinformação.

  6. «ponto de vista» diz:

    As minorias de pessoas e de grupos de pessoas valentes existentes no planeta tiveram, têm e terão a coragem de não ter medo de morrer porque não têm nada a perder. Preferem ser.

    Mudar de género é uma atitude de uma enorme bravura por parte de Bradley Manning. Mas não é de admirar porque já demonstrou o que tinha a demonstrar.

    Não deve ser vista do ponto de vista «machista».

    Mas esse é o meu ponto de vista.

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