Os Drs. Proletários na luta de classes

Algures em 2011, fervilhava ainda o movimento desencadeado com a Geração à Rasca, fui contactado por um sociólogo brasileiro que, na primeira conversa que tivemos, me disse que eu tinha «cabeça de comunista». O nome dele era Giovanni Alves e, vim a saber mais tarde, escrevia sobre assuntos que me interessavam profundamente com uma argúcia e uma preparação que eu não terei nem daqui por cem anos. Um desses assuntos era aquilo a que ele chama aqui o «precariado», isto é, e nos termos dele, os «jovens-adultos altamente escolarizados com inserção precária nas relações de trabalho e vida social». Obedecendo a uma velha divisa segundo a qual a ciência é feita com anões aos ombros de gigantes, permito-me acrescentar algumas notas a este texto, no tocante sobretudo ao lugar que este dito «precariado» (a expressão, que parece criar uma individualização do grupo que vai para lá do seu simples estatuto como fracção de classe e não explicita o estatuto juvenil e altamente escolarizado dos seus membros não me satisfaz, mas usemo-la por economia de esforço) tem desempenhado e pode desempenhar na luta de classes.

Em primeiro lugar, o Giovanni acerta em cheio na caracterização ideológica desta fracção de classe. Definindo-a como «um proletariado jovem, altamente escolarizado, frustrado em suas expectativas de ascensão profissional e sonhos, anseios e expectativas de consumo», orgulha-me de ter dito, aqui, que « [a] percepção da impossibilidade de ascender socialmente, ainda que com formação superior, veio defraudar um dos pressupostos mais enraízados («estuda se queres ser alguém na vida», «estuda se não queres ser lixeiro») das estratégias de mobilidade e prestígio social entre as classes dominadas. E veio a desencadear a reacção exasperada, aviltada, frustrada, indignada, de uma geração que tendo percorrido o cursus honorum para fora da situação de dominação mais áspera, ou para a reprodução de determinado grau de conforto material, se confrontou, de súbito, com o gorar e esboroar das suas expectativas, dos seus pressupostos de acção em sociedade, de todo um paradigma de mundo que era a sua percepção da ordem natural das coisas». Ora, como escrevia, esta definição é uma definição não apenas sociológica, mas verdadeiramente ideológica desta fracção de classe: os seus objectivos são, é o Giovanni quem no-lo diz, ascensão profissional e expectativas de consumo. Esta é a questão imediata e objectiva, embora também exista, e já lá iremos, uma difusa aspiração a «uma sociedade diferente», que o torna esta fracção, acompanhando ainda o Giovanni, «bastante susceptível às atitudes anarco-liberais, anarco-punks, neofascistas e esquerdistas tout court, isto é, atitudes “extremistas”, manipuladas tanto à esquerda como à direita, principalmente numa conjuntura social instável e polarizada». Em todo caso a raiz é a aspiração a um melhor estatuto social, a ascender um pouco, ter salário maior, carro, casa, poder fazer férias no estrangeiro e ir jantar fora com os amigos semanalmente. Entender-se-á naturalmente que estas aspirações não são erradas, nem devem ser condenadas em quem as tem. Mas elas têm um nome na doutrina marxista – são aspirações pequeno-burguesas. O fito de viver uma ilha dentro do capitalismo onde não se é nem um grande burguês monopolista nem um proletário com trabalho duro e salário baixo, onde se sofre um grau de exploração suportável, se usufrui de salário bastante, prestígio profissional e dos confortos da civilização moderna, é esse nome que tem. E a causa, escrevi-a, está inscrita na própria trajectória biográfica dos membros do precariado: a sua escolarização foi feita, no essencial, com o permanente aliciamento de a prosseguirem para, findo o trajecto, obterem uma recompensa pelo esforço na forma, precisamente, desse estilo de vida. A sua não-obtenção é encarada como uma traição, uma fraude, um roubo da vida: não será casual que o tópico do «queremos as nossas vidas», slogan da primeira manifestação do Que Se Lixe a Troika a 15 de Setembro do ano passado, se apresente em diversos matizes em todos os manifestos, documentos, e em número significativo das faixas e cartazes presentes nessas manifestações.

O Giovanni, correctamente, identifica estas aspirações pequeno-burguesas com um elevado grau de despolitização, presente também na onírica da «sociedade diferente», mal definida, e vertida na candura das assembleias populares, dos almejos de democracia directa, nos esquerdismos de toda a ordem. Com efeito, já desde o Manifesto do Partido Comunista que o marxismo sabe que o destino das profissões intelectuais (cujo rendimento e estatuto é o anseio da generalidade do precariado) é o da sua redução ao trabalho abstracto, às condições vida prescritas para todos os proletários. Escreviam Marx e Engels, neste magno trabalho: «[a] burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela» (o itálico é meu). Não podiam ser mais claros. Simplesmente, esta tendência geral para a abstracção do trabalho é ou desconhecida, in limine, pelo precariado, ou de tal modo colisiva com as suas mais arreigadas aspirações e anseios que, ainda que tendo dela conhecimento, estes repelem essa percepção, sofismam-na, tentam contorná-la. Até pela noção, visceral quanto mais não seja (muito raramente é uma noção consciente), de que qualquer transformação social que liberte o precariado da sua situação é apenas possível pela aliança com as demais fracções do proletariado para construir o socialismo – um socialismo em que o estatuto social intermédio, prestigiado e a salvo dos abusos do capitalismo, «não com um salário melhor, mas com um salário melhor que o dos trolhas» como diz um amigo meu, será para sempre uma impossibilidade -, essa politização se torna tanto mais difícil.

O precariado, assim encurralado na impossibilidade de ascender pela formação que tem e muitas vezes indisposto a auto-conceber-se como proletariado e a unir-se aos trabalhadores braçais, aferra-se a um «contratualismo» extraído directamente da ideologia burguesa e circunscreve as suas reclamações ao cumprimento do que a classe dominante lhe prometeu. Inicia uma «demanda da ética», esforça-se a querer limpidez, lisura, que se jogue pelas regras, que não o defraudem mais tempo. O capitalismo inventou uma narrativa legitimadora, dando a entender que existem formas de ascensão social ao acesso de todos. O precariado exige-lhe que a leve a sério….

É nisto, a meu ver, que assenta o essencial do seu poder de mobilização das demais fracções despolitizadas do proletariado e o sucesso das suas manifestações. É que este contratualismo, como escrevi no meu segundo texto sobre a sagração da desigualdade, é a forma inicial, incipiente, ingénua, da tomada de consciência pelas massas. Com a agravante de ser, no essencial, uma exigência e uma proclamação de boa-fé contratual ,que mais não é, neste contexto, do que o patenteamento de um «certificado» de conformidade com as relações de exploração e dominação. A despolitização subjacente a estes movimentos pode, com facilidade, descambar num exercício estritamente reformista onde as exigências das massas se atêm a uma luta contra aspectos abusivos do capitalismo, e, não descendo radicalmente à origem do problema, as tornam incapazes de o sanar por completo.

Descreveu-se um salto qualitativo importante na luta dos movimentos inorgânicos com a mobilização, directa, contra a troika. A criação por eles de uma dinâmica que põe em causa um dos mecanismos informais mais violentos de subjugação imperialista que a UE já congeminou significa um passo de gigante dado na tomada de consciência destes movimentos e do tal precariado que os encabeça quanto à fundura da questão e ao trajecto para  resolver. Mas sem um esforço de politização que esclareça quanto as razões estruturais sobre as quais a sua condição se ergue e que desvie os seus objectivos do american dream pequeno-burguês para a construção do socialismo, o precariado dificilmente convergirá convictamente com as demais fracções da classe trabalhadora, sobretudo com as organizadas sindicalmente. Sobre como se opera esta convergência, mais do que eu, penso que o Giovanni teria muito a dizer.

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33 respostas a Os Drs. Proletários na luta de classes

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    “O Giovanni, correctamente, identifica estas aspirações pequeno-burguesas com um elevado grau de despolitização, presente também na onírica da «sociedade diferente», mal definida, e vertida na candura das assembleias populares, dos almejos de democracia directa, nos esquerdismos de toda a ordem.”

    Não há dúvida de que os movimentos sociais e a sua aspiração a uma prática de democracia directa pode parecer à primeira vista ingénua e votada ao insucesso. Mas reduzir esses movimentos a “aspirações pequeno-burguesas” é o sinal de que os movimentos reacionários de matriz marxista-leninistas estão preocupados com o fenómeno e receiam ver-se por ele ultrapassados.

    Quer tenham disso consciência ou não, os movimentos sociais são fundamentalmente libertários de tradição anarquista, a guarda-avançada da mais recente tentativa para libertar a sociedade numa construção de baixo para cima, e em que sucessivos níveis de federações de movimentos sociais permitirão tomadas de decisão soberanas de complexidade crescente, sem ferir o princípio do consenso e da igualdade.

    No campo produtivo, embora ainda haja poucas manifestações concretas nesse sentido, o princípio libertário/anarquista ir-se-á manifestar na tomada de controlo das empresas pelos trabalhadores, e na sua auto-gestão, eventualmente em figurinos cooperativistas radicais.

    Tudo isto preocupa quem só aspira tomar o poder pela centralização crescente, pelo controlo dos trabalhadores por centrais sindicais oligárquicas, pela acção de partidos políticos pseudo de massas com tendências autoritárias.

    Há realmente ainda bastante ingenuidade no seio dos movimentos sociais, mas o processo de aprendizagem que eles constituem irá acabar por gerar capacidades excepcionais de mobilização e de tomada do poder tanto económico como político.

    • João Vilela diz:

      Não querendo que isto soe a argumento de autoridade, participo empenhadamente na organização de manifestações (ditas) inorgânicas desde a primeira hora. Sou, notoriamente, um marxista-leninista aterrado com o fenómeno. Nem durmo à noite. E diz quem sabe, da Geração à Rasca ao QSLT, que tenho sido um sabotador de primeira.

    • Conan, o rapaz do futuro diz:

      Parece um vendedor de elixires para emagrecer: mama-se o frasquinho – fica-se magro.
      De que forma actua o elixir? Qual o princípio activo? De que forma afecta o organismo? Os efeitos mantêm-se ou decaem com o tempo?

      Na resposta a estas questões, agora viradas para a luta nas empresas, descobrimos os comunistas, deixamos para trás o D. Sebastião, que, anarquista ou não, se perdeu no nevoeiro, e avançamos os 92 anos que o Sr. Dr. fez a discussão recuar…

      Trabalho num call-center com ~400 jovens, estamos à espera do aparecimento da tendência anarco-libertária, mas entretanto elege-se delegados sindicais, sindicaliza-se pessoas e combate-se a “negociação” individual entre cada desgraçado e as chefias em prol do combate colectivo.

      • Nuno Cardoso da Silva diz:

        Enquanto as facções marxistas-leninistas na prática pouco mais querem do que substituir o domínio oligárquico capitalista pelo domínio oligárquico do aparelho partidário, o movimento anarco-libertário quer devolver aos trabalhadores a plena capacidade de decisão e de auto-gestão, sem tutelas de qualquer espécie. Para os marxistas-leninistas os trabalhadores são apenas o escadote para alcançar o poder, para o ideal anarco-libertário os trabalhadores detêm e exercem o poder, sem intermediários. É evidente que o exercício do poder oligárquico é mais fácil que o exercício do poder democrático, mas é exactamente a qualificação crescente dos trabalhadores – intelectuais ou não – que vai permitir varrer as tentações oligárquicas e tornar viável o exercício do poder de quem trabalha. Quem se agarra aos mitos marxistas-leninistas nada mais faz do que prolongar a situação de opressão de que são vítimas os trabalhadores. Como todas as experiências marxistas-leninistas demonstraram. Estas ideias ainda não chegaram ao call-center onde trabalha? Pois introduza-as junto dos seus companheiros e verá como a acção reivindicativa se torna mais eficaz.

        • JgMenos diz:

          Ora aí está uma abordagem realista e operacional!
          Bem sei que aterrará o JVilela, que também tem as suas aspirações pequeno-burguesas mas anseia realizá-las organizada e legitimadamente integrando a vanguarda que há-de conduzir os proletários ao seu devido lugar – despidos de ambições pequeno-burguesas e orgulhosos por serem conformes aos ditâmes dos Livros Sagrados do Socialismo, rigorosamente interpretados pelos seus sacerdotes!
          Nota: Sacerdote: “do latim Sacerdos – sagrado; e otis – representante, portando “representante do sagrado” (wikipédia)

          • João Vilela diz:

            É possível, pela mesma lógica psicologista, considerar que o anticomunismo do JgMenos procede de um visceral anseio de tomar parte na luta dos trabalhadores, recalcado por uma educação repressiva. Mas eu deixo-lhe a ele a psicanálise amadora.

        • De diz:

          Um discurso que permite ver que a questão não é só a pele de elefante com que Cardoso da Silva se tenta cobrir.
          A coerência é uma questão tramada.
          Por causa dessa experiêmcia libertária Cardoso da Silva mergulhou de cabeça na cabeça de Lisboa do MRPP, Sentia-se em casa.
          O poder anarco-libertário sorria-lhe do alto da promessa do palco onde Cardoso da Silva assumia (e assume) a pele que veste e despe nos bastidores da cena.
          A questão está aí mesmo,No palco.E na enorme impotência que este tipo de discurso traduz.Falta-lhe o escadote.

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            O MRPP sabia, quando com ele colaborei, qual era a minha posição face ao marxismo-leninismo. A minha colaboração com o MRPP não era ideológica, era táctica. Era uma maneira de colaborar com uma força que podia trazer um acréscimo de agressividade face ao situacionismo, no seio do qual, por exemplo, o PCP tão bem se movimenta. Tivesse Garcia Pereira sido eleito deputado e garanto que se teria ouvido na AR um discurso bem diferente de aquele que o PCP e o BE praticam. Um discurso que teria provavelmente ajudado a radicalizar uma população demasiado complacente com a cloaca política em que vivemos. E que talvez tivesse levado a que este governo já não tivesse em funções. Só posso elogiar a capacidade do MRPP e de Garcia Pereira para perceberem o sentido e a utilidade da colaboração de pessoas como eu e outros que lá estávamos. Tivessem algumas mais pessoas de esquerda percebido isso e teríamos tido, finalmente, um deputado que lutasse a sério contra esta situação. Assim ficamo-nos pelos salamaleques com, muito de vez em quando, alguma picardia à mistura. Mas eficácia, nenhuma!

          • João Vilela diz:

            É curiosíssimo quando alguém acha que a eficácia de um partido revolucionário está, determinantemente, no parlamento. Quantas pessoas do MRPP vê o senhor em piquetes de greve (já nem pergunto quantos anarquistas…)?

          • De diz:

            Eis mais uma prova da dissonância entre a teoria e a praxis.

            Aflitivo,sobretudo quando o que está patente (infelizmente) é a ineficácia absoluta dos putativos geradores da eficácia, apregoados por Cardoso da Silva.

            “tivessem mais pessoas”, eis uma confissão impotente que contradiz em absoluto os conselhos ridentes de Cardoso da Silva sobre o ideal anarco-libertário ( com pozinhos de mrpp …) a chegarem aos call-center
            Chega a ser penoso

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            O parlamento serve para o que serve – que é denunciar as manobras da camarilha situacionista e ir educando os cidadãos a prestarem atenção ao que merece ter essa atenção. Penso que seja por isso – e não pelos salários de deputado – que o PCP também lá está. Nesse sentido um deputado como Garcia Pereira teria sido altamente eficaz. O que não significa que se tenha a ilusão de fazer a revolução no parlamento.

            Quanto à presença do MRPP em piquetes de greve, sei que têm sempre estado em alguns. Já os anarquistas é outra história. Por um lado são poucos os que se assumem como anarquistas, e depois há uma certa dificuldade em anarquistas se juntarem a iniciativas alheias. Mas se as poucas experiências existentes de sindicatos anarquistas vingarem, é possível que a sua presença se torne mais visível. Julgo que para já a reflexão feita pelos poucos anarquistas que por aí andam, e a sua tentativa para desenvolver abordagens inovadoras quer para a organização social quer para o combate anti-capitalista, são o melhor contributo para o combate que é de nós todos. Os anarquistas querem pertencer ao século XXI, e não ao século XIX…

        • Miguel diz:

          Não se esqueça que essa é apenas a sua opinião.

  2. De diz:

    Mais uma vez um texto notável, estimulante, que enquadra (de certa forma originalmente) as questões actuais num contexto mais vasto e coerente
    Ideologicamente empenhado, vai mais longe e convoca à reflexão e ao abandono da preguiça intelectual.
    Mas sobretudo apela a um outro patamar de consciencialização política.
    E precisamos tanto disso como de pão para a boca

  3. Afonso Almeida diz:

    “É nisto, a meu ver, que assenta o essencial do seu poder de mobilização das demais fracções despolitizadas do proletariado e o sucesso das suas manifestações.”

    “A despolitização subjacente a estes movimentos pode, com facilidade, descambar num exercício estritamente reformista onde as exigências das massas se atêm a uma luta contra aspectos abusivos do capitalismo, e, não descendo radicalmente à origem do problema, as tornam incapazes de o sanar por completo.”

    1. O despolitizado movimento do “precariado”, que o João coloca atrapalhadamente sob égide da liderança dos novos movimentos anti-troika (a que ele próprio alega pertencer), mobiliza então as demais fracções despolitizadas do proletariado. Em meio a tanta despolitização fica a questão em saber quem vai realizar o “esforço de politização que esclareça quanto as razões estruturais”, se o movimento sindical, que sendo politizado não alcança nem de perto a mobilização dos movimentos anti-troika, ou o Partido. Fica a questão

    2. É bom saber que segundo o João, marxista-leninista assumido, o proletariado urbano altamente qualificado é, na sua essência, uma fração conservadora, atida ao contratualismo burguês. Classificar o proletariado urbano como reacionário (por mais recursos de verve que o autor goste de expressar) é uma prova de vida do marxismo leninismo português.

    • João Vilela diz:

      O proletariado urbano divide-se em várias fracções de classe. Algumas, são notoriamente recuadas. Viver na cidade não determina consciência de classe, como suponho que sabe. E depois há um aspecto relevante: o de termos entre os proletários muitos que não são produtores de mais-valia.

  4. Afonso Almeida diz:

    Ou seja, segundo o João, uma operadora de call.center com curso superior (que não cria mais-valia) é mais recuada que o operário produtivo da Opel Europa. É uma perspectiva a que tem direito e que muitas correntes sociológicas já trataram de esclarecer; mas não foi isso que escreveu. Tomou um conceito bem construído pelo Giovanni Alves e deu-lhe uma capa reacionária, sob o argumento de que os “Doutores” que são proletários (como o seu título o indica) se caracterizam, subjetivamente, por um impulso burguês e contratualista, ou seja, reacionário. De que frações falamos afinal? dos 400 mil trabalhadores de ETT’s (na sua maioria proletários urbanos)? Dos 700 mil trabalhadores com contrato a prazo? ficamos sem saber

    É curioso notar que se aproxima muito de determinadas perspectivas sociais-democratas que classificam o precariado como “uma classe perigosa”, um pouco com os ilustres do PSF classificam o voto do operariado urbano francês na Frente Nacional.

    Enfim, se transformasse esta exposição num artigo cientifico (como fez o Giovanni) ganharíamos mais com a discussão.

    Cumprimentos.

    • João Vilela diz:

      Os trabalhadores das ETTs são todos altamente escolarizados e jovens adultos? Muito me conta! É por não ter lido ao que G. Alves se refere com a expressão precariado (e a minha crítica a essa expressão) que diz o que diz.

  5. Rocha diz:

    Pois quanto a mim, sem subestimar a importância sem dúvida muito grande e estratégica da fracção dos trabalhadores que são os precários, o proletário continua a ser o trabalhador industrial, o trabalhador que transforma a matéria prima e esta fracção da classe trabalhadora continua a ter nas suas mãos alavancas decisivas sem as quais a economia capitalista paralisa por completo (exemplos: electricidade, transportes, combustíveis, alimentos transformados).

    Na minha opinião este “precariado” (essencialmente o grosso do sector de serviços) é mais de um substituto do papel que tinha antes o campesinato. Ou seja é numericamente superior à classe operária, mas a classe operária continua ocupar realmente os pontos nevrálgicos do sistema. Por outro lado o velho campesinato não sendo numeroso nem tendo nas mãos alavancas será de importância decisiva para a reconstrução da soberania do país essencial para o derrube do capitalismo e construção do socialismo.

    O precariado tende a evoluir para a miséria das favelas se o presente rumo do capitalismo dependente e colonizado de Portugal (face à metrópole euro-cêntrica) continuar sem ser derrubado. Este processo tem tudo a ver com a desindustrialização e venda a retalho de sectores produtivos/lucrativos ao capital do centro da pirâmide imperialista. Enquanto isso no campo, em Portugal como no Brasil, voltam a surgir práticas feudais vistas como um regresso à escravatura. O que se passa é que a chamada globalização não fez mais que secar as tímidas industrializações de países da periferia da Europa e do mundo criando uma fracção de trabalhadores miseráveis a que chamamos precários. Tudo indica que se está a retomar aquilo que a União Soviética, Cuba e os movimentos de libertação nacional derrotaram temporariamente, o colonialismo está a voltar em força.

  6. Teresa diz:

    Em primeiro lugar, movimentos ditos inorgânicos. Depois, aceitar o termo precariado nos limites da malta altamente formada é uma cedência. A génese e o presente do trabalho precário não está aí na sua maioria. O trabalho precário atinge muito mais os operários das diversas áreas do trabalho do que os intelectuais “bem” formados da nossa geração. viva a barriga mais lisa

    • João Vilela diz:

      Onde está a minha aeitação dessa delimitação? Escrevi: «a expressão, que parece criar uma individualização do grupo que vai para lá do seu simples estatuto como fracção de classe e não explicita o estatuto juvenil e altamente escolarizado dos seus membros não me satisfaz». Criticar o que não se leu é feio.

  7. CausasPerdidas diz:

    Uma reflexão interessante. Mas não iria tão longe na “demarcação” entre precariado e proletariado. O ênfase dado às habilitações literárias e às expectativas dos precários nesta sociedade de consumo (Capitalista, entenda-se bem, mas pretendi reforçar a ideia que percebi do texto) esquece que também aquelas são as expectativas de muitos dos que andam pendurados nos andaimes, nos postes de electricidade e comunicações e nas linhas de montagem – os proletários “by the book”.
    Têm mais habilitações? As lutas do proletariado do século passado deram-lhes a oportunidade de as conseguirem. Aliás, na sua maioria, os os precários têm origem de classe proletária… e sindicalizada. Dão mais nas vistas os escolarizados? Convém olhar bem para os que os secundam nas manifestações. Não são só os que saem das faculdades e dos politécnicos que têm aspirações de vida acima do patamar da sobrevivência. Os locais que frequentam, os concertos, os bares são ocupados e desejados da mesma forma por muitos “colarinhos azuis”. Afinal, um Homem/Mulher não é só um aparelho digestivo. Entretanto, há também que não esquecer todo um passado de desideologização e de alimentação do individualismo e da iniciativa pessoal – leia-se ganância – como os motores da História. É um coisa que não afecta só os precários terciarizados mas toda a Classe Trabalhadora – aliás, o trabalho mediático é-lhe dedicado (noutros canais é denominado de “Integração”), e tudo alimentado por essa capacidade extraordinária de fabricar novas necessidades que tem o Capitalismo.
    Para atalhar: O Precariado é o Proletariado que temos.

  8. Augusto diz:

    Li com muita atenção a sua exposição mas não entendi, quando escreveu CLASSE TRABALHADORA, é que citar ligar o marxismo ligado a uma PSEUDO-classe trabalhadora é não perceber NADA de marxismo.

    Aliás os tais jovens altamente qualificados e precários , são trabalhadores por conta de outrem, assalariados tal como boa parte dos médicos , ou homens de ciência, não são é operários nem fazem parte da classe operária.

    E aí sim , pode residir toda a diferença, mas entende-se, certos partidos ditos comunistas, constituídos sobretudo pela pequena burguesia, resolvem misturar conceitos , dá muito jeito.

    • João Vilela diz:

      Não é tão incomum assim ver a expressão classe trabalhadora usada indistintamente ao lado de proletariado e com o mesmo sentido: aqueles que vivem da venda de força de trabalho. É esse o sentido da expressão. Que, por sinal, não percebo bem em que deforma a substância da análise ou mistura a pequena burguesia com o proletariado. A pequena burguesia é apenas referida no texto como classe de referência de determinadas fracções de classe dos trabalhadores, nem sequer é trazida, enquanto tal, à colacção.

      • Augusto diz:

        Pode não ser incomum, mas não é nada inocente essa amalgama, aliás só nestas últimas décadas se começou a tentar passar como conceito marxista essa amalgama, o que é um puro revisionismo de conceitos,

        Só referi a pequena burguesia , no que diz respeito á actual composição de classe de certos partidos comunistas, que passaram a utilizar essa terminologia da classe trabalhadora , com objectivos muito precisos.

        Em bom português quem não tem cão caça com um gato, se bem me entende

        • João Vilela diz:

          Mas onde vê a diferença conceptual determinante entre «classe trabalhadora» e «proletariado»? A menos que se tenha da noção de trabalho algo significativamente diferente da de produção de um bem ou fornecimento de um serviço, está-se, nos dois casos, a falar da classe que vive da venda de força de trabalho.

  9. JgMenos diz:

    Quase comovente dissertar sobre a determinação dos extractos sociais com potencial movente da situação burguesa-capitalista!
    Dramática escassez de massa crítica, quer em quantidade quer em qualidade política!
    O que levará tanta gente a esta busca de adequar a realidade a um modelo com mais de cem anos e comprovadamente fracassado, em vez de criar um modelo para o que é a realidade de hoje?
    Aparenta ser uma questão de fé, como outra religião qualquer.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      É que as ideologias, tal como as religiões, necessitam de que se coloque o cérebro em ponto morto… Pensar? Inovar? Reflectir? Que seca! É só ir à cartilha e ver o qie lá está escrito…

      • João Vilela diz:

        É no mínimo curioso que esta afirmação seja produzida a propósito de um texto sobre uma inovação conceptual na análise marxista da realidade, para enquadrar um aspecto novo. Ao que cumpre aditar que não é menos cartilhesco (da cartilha do revisionismo, por sinal…) criticar o «dogmatismo» dos outros em nome de um pretenso esforço de «flexibilidade» que, via da regra, é uma subversão dos aspectos mais revolucionários e cientificamente relevantes da teoria.

    • De diz:

      Comentários como este:

      “Dramática escassez de massa crítica, quer em quantidade quer em qualidade política!” significam precisamente o quê?

      – O assumir a incapacidade de argumenttar com seriedade, optando-se antes por juízos de valor que mais não traduzem do que escritas do género:”aquele menino é burro e eu não sou?
      – Uma particular forma de esconjurar a sensação de impotência de Menos quando perante dados que ultrapassam o seu horizonte argumentativo/ideológico?
      -Uma peculiar perturbação face ao autor do post, que tem pautado os seus comentários por uma atitude pedagogica, que deixa Menos à beira de um ataque de nervos?
      -Uma tentativa de fuga do que está em cima da mesa, desviando o alvo do debate para “as massas críticas” , massas críticas essas a que Menos se arroga de ser o aferidor oficial?
      – O assumir uma auto-crítica penosa por parte de Menos, escondida por debaixo desta roupagem incongruente e pedante?

      Vejamos: Aqui há dias e depois de eu ter postado uma citação do autor (J.Vilela), Menos, num assomo de impotência, frustração, ira, ou má-língua mundana, repenicava assim:
      “Esse João Vilela é o mesmo autor daquela trilogia sobre a ‘igualdade’ que resolveu não entrar em comentários sob o tema?”

      Menos crê mesmo que quem comenta da forma como ele o faz, merece mais do que um passar ao lado quase que.higénico?

  10. G Lobo diz:

    VIVA STALIN! ABAIXO OS VILELAS E SEUS AMIGOS TROSKISTAS VARELACIOIDES|

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