Os Privilegiados

“Os Privilegiados”, de Gustavo Sampaio, é um livro que nos ajuda a perceber o país, uma investigação jornalística que expõe inúmeras redes de relações promíscuas entre representantes do povo e interesses privados.
Sampaio começa por criticar a ideia corrente de que os políticos são todos iguais. Esse argumento, além de falso, é terreno fértil para desculpabilizar e branquear quem se serve do poder e para menorizar quem não o faz.
Partindo do princípio de que não são todos iguais, analisa-se a actividade de alguns deputados. Actualmente, em 230, 117 são deputados em part-time. Revelam-se nomes, alguns ilustres desconhecidos integrantes dos últimos lugares nas listas dos partidos do arco do poder, relacionando-os com empresas para quem prestam ou prestaram serviços e sobre as quais decidem. Nos casos de evidente incompatibilidade questiona-se os deputados, que se socorrem invariavelmente da opinião dos seus colegas da Comissão de Ética e da lei – lei que a maioria dos deputados recusa ver alterada para um sistema de exclusividade que apenas PCP, BE e Os Verdes defendem e praticam.
A investigação não deixa de lado a presença de ex-políticos nas administrações de empresas – das 20 empresas cotadas no PSI20, apenas quatro não têm ex-políticos na administração – ou as nomeações para posições relevantes da administração pública, e diagnostica os direitos adquiridos decididos em proveito próprio, comparando-os com os de outros países.
Esta não é a história dos políticos, mas de vidas medíocres que têm vindo a colonizar o poder em Portugal. Muitos até consideram que nos fazem um favor por se prestarem a desempenhar cargos públicos, discorrem sobre ética – leia-se, a este propósito, a inenarrável carta de renúncia do ex-secretário de Estado do Tesouro – e ufanam-se dos seus alegados sucessos profissionais, ainda que pouco da sua vida profissional tenha a ver com o estudo, conhecimento, inteligência ou mérito.

Publicado no i (10/08)

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5 respostas a Os Privilegiados

  1. engolir sapos diz:

    Li o seu artigo no i. Já tenho o livro. Já li alguns que me surpreenderam por serem livros encapotados, isto é, utilizam a corrupção para transmitir novas formas de fazer política, nomeadamente «à la americana».

    Não há nada como ir directa ao assunto: pode fazer um search no google com o meu nome: ele vem parar aqui ao 5dias (uso sempre o mesmo email): confiei em que nunca seria divulgado. Como nos últimos anos comecei a abrir a «pestana», tive mais tempo também pelas razões estão na ordem do dia, decidi começar a informar-me sobre o que se passou e se está a passar no país. Vou alterar o meu voto, decidi logo na altura da TSU, mas não votei neste Governo, nunca votei no CDS/PSD mas sempre ou no PS ou no BE, em todas as eleições, já são algumas.

    Só descobri este blogue há muito pouco tempo e foi porque também ando mais na internet. Entrei só num outro bloge e depois saí porque não me pareceu lá muito democrático, ou seja, era muito dirigido em termos políticos e económicos: não digo qual porque essa não é a minha postura e o problema foi a minha ingenuidade. Ando um bocado gaga quer a falar quer a escrever (é mesmo verdade): é o resultado de engolir muito sapo…

    Agradeço a sugestão e depois digo-lhe o que achei do livro: mas digo mesmo.
    Obrigada.

    • «engolir sapos a seco» diz:

      Cá estou de volta para lhe dizer o que achei do livro.

      Parabéns ao autor pela exaustiva pesquisa e elaboração de uma das genealogias de parentesco «corrupto» que alguma vez li.

      Do meu ponto de vista, trata-se de um livro que devia ser obrigatório ler: (1) no ensino básico; (2) e secundário.

      (1) No ensino básico podia-se arranjar uma versão mais «animada» do tipo «banda desenhada» para não assustar as crianças e os miúdos.

      (2) No secundário, uma versão «tatuada» para atrair a atenção dos jovens adultos.

      P.S. Acabei por encontrar filhos de amigos do meu pai( que já morreu), e aí «engoli em seco». Por exemplo, o da Novabase, do CDS, o Rebelo.

  2. engolir sapos diz:

    URGENTE
    SE FAZ FAVOR, peço-lhe que NÃO edite o meu comentário. Tudo o que escrevi é verdade. De vez em quando passo-me com tudo o que está a acontecer. Ando a trabalhar sobre os SWAPS e acho que endoideço. Apresento-lhe as minhas desculpas. Mas já tenho o livro já- o que referenciou no seu post, e que fez a recensão no i.
    MUITO, MUITO OBRIGADA

  3. De diz:

    “criticar a ideia corrente de que os políticos são todos iguais. Esse argumento, além de falso, é terreno fértil para desculpabilizar e branquear quem se serve do poder e para menorizar quem não o faz.”
    Na mouche

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