Estórias falsas (perdão GMT): a não radiografia. Que Se Lixe a Troika – o Povo AINDA é quem Mais Ordena!

Imagem

As hostes estão em cima da mesa.

Sem pretender radiografar nem as pessoas nem o Que se Lixe a Troika, lamentável é que muitos/as dos/as companheiros/as que fazem parte e que, felizmente, não são sequer mencionados neste texto, não foram ouvidos/as, mas agora, talvez seja a altura de, pelo menos, recentrar a discussão naquilo que realmente interessa.

Algumas das coisas que se disseram e não são verdade:

Com a vinda da troika para Portugal (e com a austeridade só a começar), os activistas ganharam novo fôlego e, depois de aprenderem com os erros de algumas experiências passadas (Movimento 12 de Março, 15 de Outubro, entre outras), decidiram contribuir com uma solução para a ainda actual “emergência nacional” – Primeiro erro. Activistas são movimentos, e nos movimentos cabem os sindicatos, cabem outras organizações que nunca deixaram de lutar, de estar na rua, num crescendo de participação, talvez menos mediatizada, nunca deixaram de estar alguns partidos e pessoas que cada vez mais deixaram de estar em casa para se juntar aos protestos, fossem eles convocados por quem quer que fosse.

Actualmente, é mais ou menos claro que o QSLT não nasceu de geração espontânea. Ao contrário daquilo que uma das activistas afirmou no dia 15, a ideia da manifestação de Setembro não partiu de cidadãos de “vários quadrantes políticos”, senão de um sector em particular. Myriam Zaluar, activista do QSLT e dos Precários Inflexíveis (PI) desde 2009, começa por dizer que “os PI estiveram por trás de todas as grandes coisas que se fizeram, inclusivamente por trás da tomada de consciência colectiva de toda a nossa situação”. Sobre o QSLT garante que “não há dúvida nenhum que se não houvesse PI, não havia QSLT”. – Segundo erro. Na génese do QSLT estiveram pessoas. Umas pertencentes a movimentos, outras de nenhum movimento, outras que queriam e querem transformar a sociedade, mais do que nomear um pai ou uma mãe (e perdão por parecer o Marinho Pinto) ou embandeirar em arco a organização a que pertencem, preferem juntar forças e combater juntos por objectivos muito claros – a derrota da troika e do governo. Nenhuma manifestação foi “esgalhada” pelos PI senão pela discussão do QSLT que entendeu levar a cabo grandes manifestações e para a sua organização e mobilização, como é evidente, não bastariam três ou quatro pessoas.

A meio de Agosto, João Camargo veio a integrar o grupo dos quatro para o coordenar, pouco dias antes da reunião que viria a ditar o primeiro alargamento do movimento. A partir da coordenação de João Camargo, o alargamento do QSLT passou a ser uma prioridade. – O QSLT nunca teve quaisquer coordenadores. Sempre se regeu por uma dinâmica colectiva, rotativa, para que todos, independentemente das características e experiências pessoais pudessem participar activamente no processo colectivo de tomada de decisão. Aliás, o dito coordenador fez mesmo parte da maior oposição ao alargamento do «grupo dos 29».

Foi em Dezembro que o grupo dos 29 decidiu que era preciso integrar formalmente esta “malta da cultura”, como eram chamados, e outros elementos, de forma a alargar a estrutura a activistas de outros sectores dispersos. Segundo Nuno Ramos de Almeida, o alargamento foi feito com a intenção de alcançar três objectivos: chegar a todos os sectores, haver mais gente a trabalhar e não ter protagonistas, mas facilitadores. Essa ambição nunca foi efectivamente concretizada, por um lado porque o alargamento não alterou significativamente as facções já existentes dentro do QSLT e, por outro, porque a integração foi feita através de participações de um, dois elementos, condicionando a estrutura a manter-se numa mesma zona de conforto. Como a transparência não passa pela integração de activistas em massa, o fenómeno a que assistimos acabou por não surpreender e resultar no efeito inverso daquele que seria o desejado. Foi, de facto, com uma estrutura maior que se revelaram os sub-grupos existentes no QSLT e as individualidades que de alguma forma os influenciavam. – Em relação à primeira parte, o artigo deveria ter ficado por aqui. Não percebo como a integração de pessoas com formação ideológica, académica, profissional, de vida diferentes podem propriamente serem consideradas facções, personalidades ou sub-grupos. Havia, efectivamente sub-grupos: acção, comunicação e logística. Estes grupos reuniam regularmente, uma a duas vezes por semana, planeando tomadas de posição, conferências de imprensa, acções concretas (e a elas voltarei) para que se mobilizasse o maior número de pessoas em torno destes objectivos concretos e a logística para determinar tudo o que seria necessário para a sua concretização, encontrar espaços para reuniões – gentilmente cedidos por muitas colectividades lisbonenses.

Luís Bernardo, integrante da ATTAC e um dos ex-membros do QSLT, afirma que o que está em causa não é um consenso, mas antes “um unanismo”. Como se verificou, o recurso ao consenso, num grupo desta dimensão e com esta diversidade, acaba por condicionar esse mesmo grupo às suas figuras mais carismáticas. Segundo o mesmo activista, “não podemos ser ingénuos, o sistema de consensualismo abre um espaço para que pessoas com maior experiência possam tomar posições de liderança, acabando por ocupar mais espaço no debate.” O mesmo activista justifica que isto faz com que haja “vozes que modulam o debate e que se tornam predispostas de liderança”, mesmo que haja “pessoas que assumem posturas muito críticas a respeito das discussões”. Mariana Avelãs concorda e avança que este é um sistema que simplesmente não resulta porque “faz com que os discordantes se afastem e faz com que ninguém saiba o que é decidido, porque cada pessoa interpreta a decisão à sua maneira”. Todas as reuniões tinham uma acta, disponibilizada a todos os membros do QSLT que poderiam fazer as alterações que entendessem. Todas as decisões eram tomadas em plenário, onde todos podiam participar, incluindo os que, não fazendo parte do tal grupo de 120, participassem das acções. Desses plenários havia também uma acta, com as conclusões, de modo que, só se dava a interpretações ambíguas quem não lesse as actas ou delas quisesse retirar qualquer outro sentido. Até porque as conclusões eram muito simples: dia tal vamos fazer isto, dia x vamos fazer aquilo e cada um se inscrevia na acção com que mais se identificava, ficando uma pessoa encarregue de fazer os contactos e distribuir responsáveis por materiais, etc. As decisões sempre foram tomadas por consenso, toda a gente disse sempre o que pensava, de maneira mais ou menos animada e nunca houve qualquer decisão tomada contra a opinião maioritária. Se houve quem se afastasse, que houve, fê-lo por sua conta.

Algumas das coisas que ficaram por dizer:

Apenas falarei deste ano, ano em que integrei o QSLT. Ficou por descrever aquela tarde, em que activistas e populares, num domingo de sol, com adultos e crianças, meteram mãos à obra e pintaram um mural, pago com o contributo de cada um de nós, entre canções e tinta a voar, lanche trazido por pessoas que se quiseram juntar. Uma imensa parede azul, que contou com a ajuda de um artista plástico e escreveu nas paredes que é o Povo quem mais Ordena!

Ficou por sublimar o acto de coragem dos activistas que se levantaram na sua casa, na Assembleia da República e fizeram ecoar por todo o mundo, pelas manifestações pela Europa fora, Grândola Vila Morena.

Ficou por contar que pela primeira vez se iniciou uma moção de censura popular, que recolheu centenas de assinaturas.

Ficou por dizer que é do trabalho voluntário que temos cartazes, folhetos, desenhos, mensagens que chegam a todos e trazem mais gente à luta. Que tapámos estátuas de negro e fizemos jorrar a espuma dos dias numa fonte imensa que gritava que obviamente estão demitidos.

Ficou por dizer que passámos noites em branco, a pintar faixas, a colar cartazes, a percorrer o metro de Lisboa a distribuir panfletos para que no dia 2 de Março mais de 1 milhão de pessoas ecoasse, em todo o país: DEMISSÃO, coisa que jamais se tinha ouvido com tanta força.

Ficou por dizer que recolhemos em vídeo e por escrito centenas de apoios de políticos, actores, actrizes, dramaturgos, escritores, músicos que afirmaram connosco Que se Lixe a Troika – o Povo é quem mais ordena!

Ficou por dizer que durante uma semana inteira, sob chuva, todos os dias saímos à rua de faixa e megafone e o demos às pessoas para que elas tomassem voz e falassem de si e da vida a que têm direito.

Ficou por dizer que por todo o país há gente no Que se lixe a troika. Que tomámos ruas. Que tomámos universidades. Que dissemos aos governantes que se demitissem. E demitiram-se. Demitiu-se o Relvas. Demitiu-se Gaspar. Ficou por dizer que apoiámos todas as formas de luta e todas as convocatórias para que o povo saísse à rua. Que demonstrámos solidariedade com quem foi detido em manifestações. Que denunciámos atropelos aos direitos e liberdades democráticas. Que durante um ano, além das nossas vidas, não houve um único dia que não lutássemos pela vida de todos. Por uma vida melhor para todos.

Às vezes cheios de alegria, às vezes cheios de cansaço, mas sempre cheios de esperança. E com alguns laços que serão, para sempre inquebráveis.

Ficou por dizer que não nos interessa quem aparece nesta fotografia. De onde vêem as pessoas. De onde são. Apenas aquilo que juntos conseguimos e conseguiremos fazer.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em 5dias com as etiquetas . ligação permanente.