«Briefings» com Ovo a Cavalo

Desde a sova que foi a greve geral do passado dia 27 de Junho temos assistido a uma deprimente novela na actuação deste Governo. Não que até à greve o espectáculo fosse leve, alegrasse ou satisfizesse. Mas o contorcionismo, as unhas e dentes cravados no poder, a inoperância patente, a triste figura, guarnecidos por um Presidente que não preside (longe vão os tempos em que, como dizia aqui o professor de Direito Júlio Gomes, o Presidente da República poupava o país de «episódios desnecessários» e patéticos…), têm dado a esta história um sabor amargo demais para ser verdade. Estamos bem acostumados ao que é a governação dos agentes da contra-revolução e da política de direita nos últimos 37 anos, mas arrisco dizer que nunca a sensação de confrangimento foi tanta quando vemos estes desgraçados na TV, nem tanto o constrangimento que sentimos por, ainda para mais, termos neles os nossos representantes aos olhos do mundo.

Nem vou retomar a requentada irrevogabilidade da demissão de Portas, e a dissimulação que seria coabitar com Maria Luís Albuquerque, cedo transformada em cedência mediante tacho maior e… em dissimulação praticada ao abrigo de uma «sobreposição do interesse partidário ao interesse pessoal» (curioso como o CDS, que tanto critica o centralismo democrático noutras paragens, é ágil em aplicá-lo quando lhe cheira a esmagamento eleitoral). Fico-me apenas pelas figuras tristes que a citada ministra, mais a sua equipa, nos têm oferecido, e onde a aldrabice («mentira» é, para esta gente, palavra doce) pontifica. Mª Luís Albuquerque, primeiro, não tinha sido informada dos swaps pelo antecessor; depois, não tinha informação a esse respeito na pasta de transição entre titulares da secretaria de Estado das Finanças; a seguir, não a tinha aí, mas tinha-a noutro sítio, e referia-se especificamente à dita pasta; depois, quando se soube que a tal pasta afinal até dispunha de dados sobre o assunto, Mª Luís Albuquerque «lembrou-se» que estes afinal até lá estavam, mas eram insuficientes. Suficientes eram, talvez, os mais de quatrocentos contratos de swaps que consabidamente recebeu logo em 2011: mas que esta, talvez por não estarem na famigerada pasta de transição… não pôde trabalhar até que os swaps foram notícia! A absoluta e descarada aldrabice destas declarações só tem par na do secretário de Estado do Tesouro, que, na mesma conferência de imprensa, afirmou consecutivamente não ter estado, não recordar, e poder ter estado envolvido na negociação, com o Governo e em nome do Citigroup, os tais contratos de risco. Esse já foi embora: mas quem nele confiou e o defendeu publicamente, não só não sai como julga natural não prestar esclarecimentos a ninguém…

E que dizer da dupla Maduro/Lomba? Nada que o excelente artigo de Óscar Mascarenhas já não nos ensinasse. Primeiro, tentando informar, em sofisticado regime de briefing à americana, do diário andamento do Governo, para cedo (a velha pecha de termos boca de ricos e bolsa de pobres, calculo…) os tais briefings se extinguirem para retornarem depois, mas só à razão de dois por semana. E mesmo quando regressaram, vieram com peculiaridades assaz curiosas: em primeiro lugar, Lomba arrogou-se definir que determinadas informações seriam prestadas «em on» e outras «em off», registando-se para a posteridade as boas notícias e passando a constar dos jornais como novidade «alegada» de «fonte desconhecida» do Governo o que fossem novidades menos abonatórias para quem está no poder. Para quem enche a boca para falar de transparência e inventou este artifício precisamente para melhor informar e comunicar com os portugueses, começa bem. Mas depois do Lomba e do on/of sui generis dos briefings (que agradeço pela profusão de anglicismos e itálicos com que me permite adornar, gráfica e literariamente, este pobre texto), veio o Maduro. E o Maduro, Óscar Mascarenhas está coberto de razão, é um fascista. Abram-se debaixo de mim todos os alçapões jurídicos, venham polícias e cabos da guarda buscar-me a casa porque difamo o senhor ministro: fascista, é o que ele é. Não apenas porque, como diz o texto citado, teve a impensável desfaçatez de definir que perguntas os jornalistas que o inquiriam podiam ou não fazer-lhe. Isso é grave, mas é ainda pouco para ser um programa político inteiro. Poiares Maduro é um fascista porque, como pode ser lido aqui, aqui, e aqui (e peço atenção às datas para se ver que são mesmo três ocasiões diferentes a dizer a mesma coisa), tem consistentemente defendido que o problema principal da democracia portuguesa não é a sua inexistência na generalidade dos locais de trabalho, os reiterados abusos da polícia, o seu esvaziamento no plano social, o seu incumprimento pela inobservância de programas eleitorais e pelo abuso de funções dos governantes. Qual histórias! O que nos mina a democracia é «o excesso de contestação». Assim mesmo. Se as coisas não fossem criticadas, discutidas, contrariadas, contra-argumentadas, se simplesmente calássemos a boca e deixássemos trabalhar quem manda (não sei se por seis meses, como propuseram Ferreira Leite e o Reitor da UP, se por 48 anos, como no tempo do outro), isto ia lá, considera Maduro. Isto, retinta e indiscutivelmente, é fascismo. Quem não gostar que não coma.

Das mentiras às manipulações, passando pelas ameaças, os condicionamentos, e a retórica antidemocrática, aqui temos o retrato do Governo, ou do que resta dele. Cada vez se percebe menos como pode esta gente manter-se em cargos de responsabilidade, e se torna mais clara a empenhada contribuição de Cavaco Silva para desprestigiar o lugar de Chefe de Estado. Esta gente, que acreditou na patacoada do FMI segundo a qual o problema do Governo português era «má comunicação», resolve o seu problema «comunicacional» «comunicando-nos» aldrabices e tentando condicionar a «comunicação» da informação aos portugueses. O problema é que não há comunicador que resolva esta questão e não há briefings, mesmo que sejam estes briefings minados e adulterados, estes briefings com ovo a cavalo, que mudem isso. O problema não é como se diz, é mesmo o que se diz. Porque o que se diz é antipopular, antidemocrático, é de direita, viola os interesses do povo. E o povo percebe sempre isso, independentemente das boas palavras dos Lombas ou das intrujices das Albuquerques.

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15 respostas a «Briefings» com Ovo a Cavalo

  1. De diz:

    Os nomes aos bois sempre.
    E há-os por aí,alguns também por aqui e até bastamante inquietos,tomando o freio nos dentes na sua defesa abjecta do fascismo e do caminho “de progresso” da besta.
    No fundo por aí e por aqui, panfletários das botas cardadas da mocidade portuguesa a fingirem que a mão saída da manicura se torna mais limpa com tais atitudes “campestres” enquanto se tenta esconder a mão que se vai levantando na saudação típica.
    E, repete-se, inquietos.Feramente inquietos perante o espectáculo sórdido que esta direita pesporenta vai demonstrando, nesta dança digna de uma opereta em que o fundo da sarjeta salta para o palco e faz o que faz esperando recolher os menores agradecimentos da cambada que os apoia.

    Quando as palavras começam a ser demasiado certeiras têm por costume puxar do revólver.

    Os nomes aos bois, sempre.

    Parabéns

  2. JgMenos diz:

    Enfim o rótulo que tudo abrange e tudo resolve: fascista.
    Sei que os haverá, e até conheci um que se dizia fascista-leninista, juntando o melhor de dois mundos.
    Mas para a pobreza ideológica de uma esquerda de opereta é a palavra-chave que dispensa o argumento e a racionalidade.
    O problema de comunicação não é mais do que a dificuldade de passar a barreira dessa cultura de rotulagem oportunista e distorcedora que transforma a informação dos mídia em sucessivos vómitos de desinformação e intriga.
    Uma miséria!

    • João Vilela diz:

      Quem está contra a discussão aberta e franca, condiciona a informação, maldiz a inexistência de consenso, e pratica políticas antipopulares que não quer ver contraditadas, é um fascista. Por muito que isso lhe faça ter dores de dentes. E uma miséria é arremessar o título de oportunista e distorcedor (para quem combate a «rotulagens», estamos falados) sem sequer sustentar porque é que o termo «fascista» não assenta ao descrito.

    • De diz:

      Este ser que Menos conhece e que junta o melhor dos dois mundo terá sido o Durão Barroso?
      Não concordo muito com os rótulos nem com os mundos descritos por Menos,mas foi precisamente essa tentativa de fazer passar a ideia dos mundos equivalentes que me fez lembrar o Barroso
      Também ele usa o mesmo linquajar, ele que já se travestiu (não confundir com vestir) a farpela adequada aos oportunistas e distorcedores com que tentam passar o seu “vómito” ( o termo não é meu )de desinformação e intriga.
      Tal como Menos, de resto

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