Das Coisas Forjadas

foto de manuel almeida, lusa. daqui.

Na sequência da demissão do secretário de Estado Pais Jorge, o PSD veio a público fazer uma no mínimo sui generis declaração à imprensa. O expoente máximo da jactância política e que dá pelo nome de Marco António Costa, foi o testa-de-ferro escolhido pelo governo para dar os tiros do desespero. A coisa não podia ser mais surpreendente e anedótica. Na referida declaração, o PSD queixa-se do facto de o seu secretário de Estado ter sido alvo de “processos de intenções”, aliás baseados em documentos que o próprio PSD garante terem sido “manipulados”. É, digamos, que uma espécie de versão “laranja” da socrática expressão “campanha negra”, lamento piedoso este que o PSD tanto e tão ferozmente criticara num passado recente. Mas da declaração depreende-se que, na perspectiva do PSD/Governo, não existe, pois, qualquer prova que demonstre que Joaquim Pais Jorge tentou oferecer “soluções” financeiras ao anterior governo, com o propósito inaceitável e vergonhoso de ludibriar os resultados das contas públicas. O homem é impoluto, e segundo o próprio, só veio “para ajudar o país”. Todavia, o impoluto demite-se. Todavia, aparentemente, a demissão é aceite. Diz o povo que quem não deve não teme, mas o que nos é dado a concluir é que este governo teme. Teme, e de que maneira.

Confesso, no entanto, que não sou peremptório a defender a autenticidade do famoso documento. Não apenas porque não seja especialista em deslindes dessa natureza, mas porque quem aparece a defender que o documento foi “forjado” é alguém que, no que a “forjas” diz respeito, pode de facto dar-nos muitas e boas lições. Veja-se, aliás, como foram cirurgicamente editadas, ou forjadas, certas e determinadas passagens nos currículos de certos e determinados ministros e secretários de estado, nomeadamente as que continham referências a acrónimos como SLN, BPN ou BPP. Esta gente sabe, portanto, do que fala quando se refere a forjar documentos ou a ocultar informações. E não vou sequer entrar pela gigantesca “forja” que foi o que prometeram em campanha eleitoral, o que constava do seu programa, e o que viriam a pôr em prática depois de terem chegado ao desejado poleiro.

Mas voltando à declaração propriamente dita, há mais dois aspectos que merecem ser sublinhados. O primeiro, é a ginástica argumentativa para dizer que não é grave que Pais Jorge tenha oferecido préstimos inaceitáveis, mas sim que o anterior governo tenha sabido disso mesmo e nada tenha feito para o denunciar. O segundo, e bem mais grave que esta dança habitual do jogo do empurra do PSD para PS e vice-versa, é o PSD reclamar acção de “entidades competentes”, entenda-se, tribunais e/ou ministério público, para “averiguar” as incidências de um tema que teve “consequências políticas”. Apesar da minha ignorância em matéria jurídica, confesso que tenho certa dificuldade em imaginar que, em democracia, haja tribunais a agir por motivações que são exclusivamente da esfera política. Compreendo que a acção de Pais Jorge propriamente dita, ou a acusação de ilicitude no comportamento de Pais Jorge, possam conduzir a investigações por parte da justiça. Mas que elas sejam feitas atendendo, como pede o PSD, “ao alarme público que este assunto suscita e às consequências políticas que o mesmo já ditou“, aí, parece-me algo entendível na vigência de certos regimes acaso bem acolhidos, ou da preferência, de certas cabeças do PSD, mas não propriamente em democracia. Em democracia, no pós-25 de Abril, parece-me no mínimo “estranho”. Mas hoje em dia, mais do que nunca, temos que nos fazer vigilantes. Com tamanha sucessão de casos de aldrabices e de esquemas mal revelados, o mais sensato mesmo é desconfiar de tudo e de todos. Sobretudo dos que ainda fazem parte deste governo apodrecido. Bem como dos partidos que o apoiam.

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Sobre Ivo Rafael Silva

Mestre em Tradução e Interpretação Especializadas; Licenciado em Assessoria e Tradução; Investigador de História e Etnografia; Investigador do Centro de Estudos Interculturais (CEI) do ISCAP; Tradutor freelance; Secretário administrativo; Militante do PCP desde os 18; Membro da JCP desde os 16.
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3 respostas a Das Coisas Forjadas

  1. Rocha diz:

    É um absurdo quando tentamos descobrir nos preciosismos das leis, das notícias, dos documentos e de qualquer peça que nos apresente para saber se um tipo do governo é ou não corrupto. Este não é o governo do grande capital?

    É preciso mais alguma prova de que este governo é corrupto?

  2. JgMenos diz:

    Mais um vómito mediático que chegou ao seu termo!
    Ou talvez não…se não surgir um novo vómito, ainda este terá que dar mais uns litros…

    • De diz:

      Por favor.Que Menos se sinta particularmente incomodado pela exposição pública dos vómitos mediáticos ( vocabulário do referido Menos), das ministras swaps e dos secretários de estado swaps e de todos os trafulhas com que a direita nos brinda seguindo um guião haitual entre a pandilha neoliberal, é um triste mas irrevogável facto.

      A indisfarçável cumplicidade com o regabofe da governação dos grandes interesses económicos fica sinistramente exposta com esta tentativa de.
      Bastante pífia de resto.
      E absurdamente patética.

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