Com cheiro a mofo

A trupe do novo ciclo político diz defender uma nova orientação mais virada para o economês do crescimento. Como sou virado para a praxis, logo me apercebi da continuidade do amarfanhanço do Contrato social – vá-se lá saber e porventura prefere um organicismo hobbesiano. Nada de novo, portanto; mais caras e quilos sem nova matéria intelectual que deambule em São Bento. Com efeito, atente-se que por entre mares de palavras, os navios permanecem ancorados no situacionismo de um qualquer manual de História Portuguesa revisitado.

Fizeram-se swaps mas tudo lento e na mesma como a lesma. O devorismo de séculos perpetua-se nos anais da memória colectiva política. Lembrando Garrett, não há cão que não seja feito conde ou barão por méritos dúbios. De administradores a banqueiros, passando por altos comissários da Casa Olímpica da Língua Portuguesa (?) ou cargos no aparelho do Estado, os relativos das famílias no poder propalam a pouca vergonha sem que daí advenha admoestação. Uns autênticos glutões de património estadual, sem a necessidade de recorrer a hasta pública nem a conhecimento público. As melhores negociatas fazem-se debaixo de água à prova de torpedos.

Face a tamanha desfaçatez dos marretas da burguesia, o proletariado anseia por uma alternativa. Por enquanto, Cavaco Silva vai incentivando o entendimento rotativista para manter os mais radicais na margem do que deve ou não ser permitido na condução do país defronte da turbulência. Espera talvez uma regeneração dissidente do seu partido de origem cujo líder causa desconfiança, de modo a criar entendimentos futuros com os progressistas do maior partido da oposição. A pessoa certa para garantir a ordem pública, bastonar a agitação dos depauperados e disciplinar as contas de um erário abalado pelas praças financeiras. Entretanto só tem que, qual oceanógrafo, apelar às maravilhas e riquezas do mar. Decerto que está mais ciente da falência do sistema partidário português do que do seu próprio trajecto político.

Farsa depois da tragédia ou eterno retorno, não deixa de ser interessante o facto dos paladinos de uma nova ordem que evite os erros do passado demonstrarem tamanha ignorância em relação ao levantar da coruja logo após um século XIX tolhido nas alternativas.

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2 respostas a Com cheiro a mofo

  1. De diz:

    Mais uma vez um post inteligente que se debruça sobre o presente e dá pistas sobre o que se prepara.
    Que venham mais

    • Frederico Aleixo diz:

      Obrigado, caro De.

      Sempre que me falam nos paralelismos destes tempos com o regime anterior eu lembro-me é de um outro que terminou em 5 de Outubro de 1910, depois da falência da monarquia e do sistema partidário rotativista que a sustinha.

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