A família real e os arrotos paradigmáticos

Nota: poste chato, longo e desnecessariamente complicado (falta-me a disposição necessária para sintetizar e simplificar). Passem à frente se não tiverem paciência.

Já se disse alguma coisa sobre Cristina Espírito Santo e a sua tirada em arroto queque acerca dos momentos lúdicos da Comporta. O Nuno já escreveu sobre o assunto, e bem. É uma das formas de abordar o problema – e é, de facto, um problema. Eu quero confrontá-lo de outra forma. Quero perceber, como teria feito C. Wright Mills, de que forma esta tirada reveladora se relaciona com uma mudança paradigmática – uma mudança na forma como nos relacionamos, como nos concebemos enquanto colectivo (ou não) e nas potenciais consequências dessa mudança. Nesse sentido, pus-me a pensar como um dos meus historiadores favoritos, Lucien Febvre, e numa das suas obras mais importantes,  O Problema da Descrença no séc. XVI: A religião de Rabelais. Porque algo está a mudar na sociedade portuguesa. Não necessariamente a falta de esperteza desta alta burguesia, tão estúpida e canhestra como há 100 anos, ou a estigmatização da pobreza (um fenómeno que ainda hoje me intriga, dado o carácter estrutural, violento e patrocinado da pobreza em Portugal – e daí, certamente, a sua estigmatização, a fazer lembrar a observação de Steinbeck acerca do proletariado nos EUA). Falo da legitimidade destas tiradas absurdas, que se repetem, feitos arautos de uma esfera pública onde os sinais de humanismo e humanidade, que já eram esparsos, desaparecem para dar lugar a relações mercadorizadas, a eus empreendedores refeitos diariamente e ao domínio total do mercado. Desde o “aguenta aguenta” aos bifes da Jonet, parece estar a emergir um consenso elitista em torno da culpa fundamental da figura operática do pobrete. Alguma esquerda intelectual ainda tem vergonha de dizê-lo abertamente, mas já o diz em surdina. “O elitismo é bom. Queremos uma sociedade de elite. Queremos um Portugal de elite”. Porque serão as academias e os institutos a salvar-nos. Adoramos coisas sebásticas e salvíficas.

Quando li a já famosa frase de Cristina Espírito Santo, lembrei-me de duas obras recentes. Ambas revelam três ou quatro coisas importantes sobre esta clivagem crescente de classe neoliberal. A primeira é a de que, tal como fomos todos keynesianos e multiculturalistas, também nos podemos ter transformado em empreendedores neoliberais do eu; é impossível não sermos neoliberais (tal como seria impossível, a Rabelais, ser ateu). A segunda é a de que esta mudança paradigmática não é teleológica ou desprovida de agência: trata-se de algo mais insólito, programado e estratégico. A terceira é a de que esta mudança terá consequências civilizacionais ainda mais graves que as actualmente identificáveis. A quarta é a de que, em bom português, estamos fodidos enquanto pensarmos que ter alternativas bonitinhas, enquanto achamos que os papões neoliberais são burros e só querem destruir o Estado social, basta. Não, não basta. Conhecer o inimigo é o primeiro passo para derrotá-lo. Sunzi já o dizia em mil novecentos e troca o passo.

São proposições pouco convenientes. Pouco convincentes, decerto, mas talvez seja essa a sua vantagem: podemos pô-las na mesa e discuti-las, sem grande fragor, porque não serão levadas demasiado a sério. O pensamento único está a transformar-se num bicho novo, com menos quebras e frestas; as suas contradições estão a ser incorporadas e não geram insuficiências explicativas. A simbiose entre hegemonia e crítica está a dar sinais de cristalização. O neoliberalismo não tem medo de heresias, hereges ou heresiarcas; incorpora-os e transforma-os em agentes do mercado-cyborg.

Uma delas, recém-publicada, tem um título que fala por si: Never Let a Serious Crisis Go to Waste: How Neoliberalism Survived the Financial Meltdown. O autor é Philip Mirowski, provavelmente o melhor analista contemporâneo do discurso e comunidade epistémica neoliberais. Trata-se de um corpo estranho entre a literatura acerca da crise contemporânea.

Em primeiro lugar, não é um panfleto económico. Nem sequer é, em sentido estrito, um livro sobre questões económicas com têm sido enquadradas nos últimos anos. É um estudo de sociologia do conhecimento e de história das ideias. Esta característica determina várias das teses de Mirowski, em particular aquela que me deixou a pensar com mais afinco: a possibilidade de termos incorporado as teses neoliberais e, involuntariamente, nos termos transformado em empreendedores do eu, um homem plural de Bernard Lahire com vocação camaleónica, ou um ser líquido, como proposto por Zygmunt Bauman. Mirowski não fala destes tipos; concentra-se em Foucault e na biopolítica (uma das falhas a apontar à obra). E é aqui que entra Cristina Espírito Santo e as brincadeiras brincalhonas da Comporta. Mirowski afirma que vivemos, hoje, imersos num complexo de discursos que fantasia a subjugação do eu às ordens de um mercado cuja capacidade computacional é, e será sempre, superior à de qualquer ser humano; o mercado exige que sejamos empreendedores do eu, em permanente ebulição e maleabilidade; sejamos empreendedores, portanto. Os pobres, novos ou velhos, são aqueles que, por defeito individual ou falta de capital humano, se mostram incapazes de submeter o seu destino ao julgamento do mercado. Em suma, merecem o destino que têm e merecem ser actores daquilo a que Mirowski chama de teatro da crueldade. E, se pensarmos no ressurgimento da caridade, na demonização das transferências sociais paliativas e nas idiotices vomitadas por gentalha como Cristina Espírito Santo, isto começa a parecer claro: o teatro da crueldade é, hoje, um dos instrumentos de legitimação da sociedade de mercado em que vivemos. A sobrelotação das prisões é outro desses instrumentos. E a ascensão de um aparato mediático multiforme, em que podemos incluir coisas como [Happy, Maxim], [Jornal de Negócios, Diário Económico], [Expresso, Sol], [Visão, Sábado], [SIC, TVI], e que servem de correia transmissora para (alerta palavrão) um projecto agnotológico de grandes dimensões, completa, de certa forma, o leque de instrumentos à disposição da comunidade epistémica neoliberal para completar a conversão da sociedade em componente funcional do mercado. Cristina Espírito Santo não é mais que a boca de uma visão voluntarista-lúdica da pobreza, “eles são pobres porque querem, e se calhar até merecem”, que surge, hoje, acoplada a uma visão utilitária da mesma, “a desigualdade não é necessariamente boa, mas é o que faz o mundo rodar; se os pobres quiserem ser como os ricos, isto anda e a remuneração do capital está garantida”.

Em segundo lugar, Mirowski não pretende apresentar soluções. Pelo contrário, concentra-se no diagnóstico duro e frio das insuficiências do pensamento crítico e da esquerda, geralmente condicionados pela legitimidade automática do pensamento único, mas também culpados de preguiça intelectual. Quando ouvimos os arautos da esquerda mediática a regurgitar Naomi Klein (uma excelente divulgadora, activista e oradora, aliás) e a engrandecer figuras como Krugman ou Stiglitz, esses arautos mostram uma das faces dessa preguiça: as treze teses oferecidas por Mirowski, no primeiro capítulo, ajudam a perceber porquê, e já lá irei. Outra face dessa preguiça é a simplificação excessiva da realidade tal como operada por quem insiste em enfiar a barba de Marx em tudo o que vê; precisamos de novas categorias e, acima disso, de olhar para a realidade sem pretendermos ser augures ou harúspices. Neste sentido, a obra de Mirowski é, a um tempo, cuidadosa e radical: não oferece soluções prospectivas porque considera o discurso das alternativas ancorado numa avaliação imprópria do inimigo neoliberal (Schmitt também anda por ali; Agamben nem por isso, e faria falta) e é a essa correcção que se propõe; radical porque não se coíbe de criticar os novos movimentos, apontando a sua cooptação dos modos de expressão política neoliberal – ou seja, o Occupy Wall Street, os Indignados e outros sujeitos políticos emergentes – como razão principal da sua inconsequência. A cultura do microfone aberto, com o seu apelo implícito à expressividade individual, à reengenharia do eu, ao empreendedorismo político quotidiano, é uma nota indicativa e subtil. É impossível ficar indiferente a esta crítica. Será, certamente, estraçalhada por quem encontra, nas assembleias populares, uma nova subjectividade política e uma democracia “real” ou uma potência democrática “directa”, “participada”, maximalista. É aqui que entra uma componente importante da crítica de Mirowski: a reengenharia política do eu, simbolizada no microfone aberto, também se sustenta a partir da dispersão da autoridade epistémica. Toda a gente tem a mesma voz e o mesmo discernimento; uma pessoa com saber técnico não tem mais autoridade para falar de política que uma pessoa sem esse saber. Geralmente, tendo a ver isto como consequência da atomização das relações sociais da emergência de subjectividades ultra-individualistas – uma leitura perfeitamente convencional, diga-se; Mirowski vai mais longe (talvez demasiado) e afirma que esta desqualificação do conhecimento informal e formal decorre da preeminência do mercado e da subsequente reengenharia do eu, que torna qualquer presunção de capacidade irrelevante porque não decorre do julgamento desse computador Hayekiano omnisciente. O paradoxo, em seguinda, é este: o mercado é o mais perfeito processador de informação disponível até hoje (a visão tipicamente neoliberal-Hayek) e requer um empreendedorismo contínuo do eu (tal como referido por Foucault); no entanto, e se a comunidade epistémica neoliberal age em consonância com a ideia contraditória de que o mercado, como mecanismo informacional perfeito, precisa de correcções periódicas, os empreendedores do eu que pontificam nos novos movimentos sociais também elegem determinados saberes como especialmente relevantes para a acção política e, em particular, para a sua expressão individualizada.

Em terceiro lugar, Mirowski arrisca uma leitura estratégica da hegemonia neoliberal sem se esgotar na aplicação bafienta de uma visão gramsciana empobrecida. Faz uma arqueologia dos pontos focais do neoliberalismo. Procura mostrar a estrutura de poder inerente à produção do conhecimento. Daí o bold acima na palavra agnotologia. Agnotologia refere-se à produção social e cultural da ignorância. O colectivo epistémico neoliberal tem sido particularmente hábil na massificação dessa ignorância, recorrendo a uma infraestrutura de produção de conteúdo, sempre de acordo com a lógica dissonante das verdades duplas (um conhecimento exotérico, a aspergir pelos meios de comunicação, e um conhecimento esotérico, a dominar por um grupo limitado de barões), para introduzir barulho e interferência no debate público. Mirowski dá dois exemplos: o negacionismo no debate sobre a influência humana as alterações climáticas e a origem da crise do capitalismo contemporâneo. Com a frieza própria de um historiador, identifica instâncias específicas, eventos localizados no tempo em que instituições e indivíduos contribuiram para piorar a qualidade do debate público ao introduzir confusão nos termos desse debate, ao propor ideias, teorias e visões sem base empírica mas com um verniz de razoabilidade. Penso em Medina Carreira, Gomes Ferreira, Marcelo Rebelo de Sousa e outros, nominalmente à esquerda, que acabam por apoiar este projecto agnotológico ao dar corda a esta teia de cabeças falantes. O termo “idiotas úteis” adquire outra força. Não há grandes dúvidas a respeito disto: enquanto navegarmos na espuma dos dias, não vamos a lado nenhum. É assim que o colectivo neoliberal ganha tempo para programar os próximos passos da sua estratégia de recomposição socio-política. A conversa actual em torno dos swaps, de Joaquim Pais Jorge, de Maria Luís Albuquerque e de Rui Machete, como a conversa em torno dos submarinos, como a conversa em torno das equivalências de Relvas, não fazem mais que cumprir um propósito estratégico: desviar a atenção pública de um debate fundamental em torno das consequências reais e humanas da transformação revolucionária em curso e em vias de ser intensificada com as realocações orçamentais (ninguém acredita realmente que o aparelho estatal sofra cortes globais na ordem dos cinco mil milhões de euros; aquilo que acontecerá é muito mais simples – serão postos em sectores onde podem ser mercadorizados e transformados em renda por instituições extractivas).

Volto a Cristina Espírito Santo e à visão lúdica da pobreza. Em vez de caricaturarmos a vacuidade destas figuras sinistras, vale a pena atentarmos nas suas palavras. São icónicas de uma mudança operada em tempo real, à qual talvez devêssemos prestar mais atenção que a swaps.

Neste sentido, penso numa obra pouco conhecida em Portugal (ou, pelo menos, pouco discutida). O geográfo Danny Dorling, até há pouco tempo em Sheffield, tem ilustrado, de forma brutal, o crescimento das desigualdades naquele que já é o país mais desigual da Europa ocidental, o Reino Unido. Em Injustice: Why Social Inequality Persists, Dorling descreve a emergência do Estado social britânico, em particular com as figuras de Beveridge e Bevan, e a identificação de cinco problemas sociais que deveriam ser confrontados por instituições públicas próprias: a ignorância, a necessidade, o ócio/inactividade, a falta de cuidados sanitários e a doença (traduções minhas). Concorde-se ou não com a exactidão do diagnóstico, questione-se ou não o enviesamento de classe do mesmo, conteste-se ou não a eficácia da social-democracia, parece claro que o Estado keynesiano do pós-guerra fez algo para combater esses cinco fenómenos. Dorling afirma que esse combate deve ser actualizado com urgência. Porque, na Europa, vivemos em sociedades onde esses problemas convivem com outros, igualmente relevantes, e, além disso, porque, à medida que as sociedades europeias se tornam mais desiguais, emerge uma sopa ideológica legitimadora do status quo. Assim, os cinco males identificados por Beveridge estão a ser desposicionados por novos problemas. Dorling identifica os seguintes: o elitismo, a exclusão, o preconceito, a ganância e o desespero. E, de forma a facilitar a identificação das estratégias retóricas do pensamento único, adjectiva cada um dos problemas. Portanto, o elitismo é eficiente; a exclusão é necessária; o preconceito é natural; a ganância é boa; o desespero é inevitável. Tudo isto joga com o primado mercadista do colectivo neoliberal. O elitismo é eficiente porque promove o consumo e a competição, além de motivar a glorificação do capital e dos capitalistas; a exclusão é necessária porque as massas incultas e selvagens não podem infectar o Olimpo das gentes de bem; o preconceito é natural porque as desigualdades são devidas a diferenças individuais inevitáveis e os seres humanos são bichos naturalmente territoriais, desconfiados e motivados pela acumulação material; a ganância é boa porque confirma a ideia de que a acção auto-centrada é a totalidade do comportamento humano e confirma a perfeição ontológica do mercado; por fim, o desespero é inevitável porque os pobres, os burros, os fracos, os doentes, os preguiçosos, os velhos, os feios, os idiotas, os alienados, os condenados da terra, os desadequados a um sistema perfeito e tendente ao equilíbrio são danos colaterais e o desespero é humano, embora não deva ser, sequer, mitigado.

Cristina Espírito Santo corporiza tudo isto. A família Espírito Santo corporiza tudo isto. O elitismo, o preconceito, a ganância, a exclusão e o desespero contribuem para tornar a pobreza inteiramente lúdica e o pobre num actor auto-condenado ao teatro da crueldade. Porque o pobre não é um empreendedor do eu e insiste em não confirmar, com a vida, a perfeição do mercado. A pobreza é, afinal, uma questão de preferências desajustadas. O mercado é perfeito [mas precisa sempre de alguns ajustes, pelo que urge dominar a política e o Estado], os economistas sabem tudo [apesar de toda a gente saber que o mercado é o álfa e ómega da capacidade computacional universal, ultrapassando, obvia e necessariamente, o Planeta] e nós só precisamos de expressar a nossa individualidade [mas dá sempre jeito haver uma infra-estrutura de produção de hegemonia e promotora do barulho agnotológico]. O mercado prefere o elitismo, a exclusão, o preconceito, a ganância e o desespero; quem não concorda padece de uma combinação de três condições – ou é de esquerda, ou é pobre, ou é louco [mas o mercado já tem a cura: sejam empreendedores].

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3 respostas a A família real e os arrotos paradigmáticos

  1. José Borges Reis diz:

    Do melhor que li por aqui. Haja mais posts chatos, longos e desnecessariamente complicados. Salut!

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    “Mirowski afirma que vivemos, hoje, imersos num complexo de discursos que fantasia a subjugação do eu às ordens de um mercado cuja capacidade computacional é, e será sempre, superior à de qualquer ser humano; o mercado exige que sejamos empreendedores do eu, em permanente ebulição e maleabilidade; sejamos empreendedores, portanto. Os pobres, novos ou velhos, são aqueles que, por defeito individual ou falta de capital humano, se mostram incapazes de submeter o seu destino ao julgamento do mercado. Em suma, merecem o destino que têm e merecem ser actores daquilo a que Mirowski chama de teatro da crueldade. E, se pensarmos no ressurgimento da caridade, na demonização das transferências sociais paliativas e nas idiotices vomitadas por gentalha como Cristina Espírito Santo, isto começa a parecer claro: o teatro da crueldade é, hoje, um dos instrumentos de legitimação da sociedade de mercado em que vivemos. A sobrelotação das prisões é outro desses instrumentos.”

    “…”eles são pobres porque querem, e se calhar até merecem”, que surge, hoje, acoplada a uma visão utilitária da mesma, “a desigualdade não é necessariamente boa, mas é o que faz o mundo rodar; se os pobres quiserem ser como os ricos, isto anda e a remuneração do capital está garantida”.”

    Texto muito importante que merece toda a atenção.

    Agora:

    1. O mercado não é uma ideologia, é um mecanismo. Um mecanismo espontâneo particularmente eficaz na troca não só de bens como de informação necessária à satisfação de necessidades. Mas um mecanismo que pode ser adulterado e manipulado para benefício de alguns.

    2. A função produtiva não é, de longe, a única função dos seres humanos, mas ela é fundamental para garantir a subsistência e a qualidade de vida. Os seres humanos não são todos igualmente competentes no desempenho da sua função produtiva, pelo que um ambiente de liberdade formal inevitavelmente levará à desigualdade, sobretudo porque a nossa vontade de partilha é intrinsecamente contrariada por uma postura egocêntrica biologicamente enraizada.

    3. Os defeitos dos mercados e as nossas inclinações egocêntricas intrínsecas agravam-se num ambiente fundamentalmente individualista. Mas a tentativa de neutralização desse egoísmo por via da colectivização radical e do nivelamento imperativo do rendimento, contraria de tal forma os nossos instintos que acaba ou por ser subvertida por novas classes dominantes (aparelho do regime) ou por provocar uma revolta generalizada. Ilude-se quem pensa que o Homem é um ser essencialmente solidário e cuja solidariedade virá inevitavelmente ao de cima se os mecanismos próprios do capitalismo forem eliminados.

    4. O segredo não está na recusa dos mercados, da desigualdade intrínseca ou da nossa índole egocêntrica, mas na criação de condições em que esses factores têm menor possibilidade de serem destrutivos. Não é passando do individualismo extremo ao colectivismo absoluto, mas pela socialização parcial dos ambientes da nossa actividade, produtiva ou não, que condicione os egoísmos aos interesses dos colectivos. Mais concretamente, a transformação das empresas capitalistas em empresas cooperativas, nas quais o interesse individual seja compatível com o interesse do colectivo, sem abrir a porta aos abusos capitalistas.

    5. Por fim compete ao Estado garantir o respeito da dignidade individual, pela garantia de acesso à satisfação das necessidades de cada um, sejam elas materiais, culturais ou de acesso aos cuidados de saúde. Sem destruir a iniciativa individual nem eliminar totalmente os benefícios individuais dessa iniciativa.

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