Crash

Um acidente de trânsito envolve um publicitário — James Ballard — e um casal, cujo marido morre e a mulher fica em estado grave. Quando se recupera, ela e o publicitário tornam-se amantes e conhecem um grupo de pessoas cujo fetiche sexual é reconstituir acidentes automobilísticos sem nenhuma segurança, aumentando a excitação de todos. James e a mulher acabam por descobrir um novo prazer e o sexo passa a ser mais frequente dentro de carros acidentados.

Esta é a sinopse de Crash, o filme que David Cronenberg lançou em 1994. Mas também podia ser a descrição do último passatempo da direita portuguesa. Há dois anos, em Faro, Assunção Esteves não consegue travar a tempo e embate num veículo que estava parado em frente a uma passadeira. O impacto do automóvel da presidente da Assembleia da República foi tão violento que o carro da frente atropelou uma idosa que atravessava a rua. No ano seguinte, o presidente da Câmara Municipal de Tomar, António Paiva, também do PSD, atropelou uma criança que circulava com a sua bicicleta. Violando o limite de velocidade de 50 km/h, o veículo do autarca só conseguiu travar a 20 metros do acidente e a vítima foi projectada caindo a 17 metros de distância. Acabou por morrer. Já o candidato do PSD à Câmara Municipal de Lagoa, nos Açores, Gaspar Costa levava 1,65 gramas de álcool por litro de sangue e espetou-se contra uma árvore. Morreu um jovem de 19 anos e outra jovem ficou em estado grave. 

Em Cuba, no ano passado, o dirigente do PP, Ángel Carromero, que certamente não estaria de férias, teve um acidente aparatoso que levou à morte do mediático opositor cubano Oswaldo Payá e de Harold Cepero. Como o candidato do PSD a Lagoa, também embateu contra uma árvore. O que fariam juntos Payá, Cepero, Carromero e um dirigente sueco da juventude cristã-democrata não importa, uma vez que eram da mesma cor política, mas o facto é que tinha 45 multas acumuladas em Espanha desde 2011. Meses antes do acidente, a Direcção-Geral de Tráfego, em Madrid, preparava-se para lhe tirar a carta de condução. Depois de assinar uma confissão admitindo a autoria do acidente, Ángel Carromero alterou a versão várias vezes. Primeiro que estavam a ser perseguidos por um outro veículo e só há poucos dias é que se lembrou de denunciar que Oswaldo Payá afinal estaria vivo e que foram os serviços secretos cubanos que o assassinaram. Toda uma história que serve muito melhor a ideologia que professa o dirigente do PP.

Todos eles conduziram na estrada como conduzem o país: sem travão e sem qualquer pudor. O facto é que nem pela forma como governam, nem pela forma como conduzem, são presos. Em Cuba, Ángel Carromero ficou sem carta e foi condenado a quatro anos de prisão. Apesar de tudo, Havana decidiu extraditá-lo para Espanha onde cumpre o resto da pena em regime de semi-liberdade. Por cá, Assunção Esteves, António Paiva e Gaspar Costa, cada um à sua maneira, impõem-nos a miséria. Connosco em regime de semi-liberdade.

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